Episódio 2. Câmara Lenta

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Você assistiu ao jogo de ontem?

Era melhor nem ligar a televisão.

Coma o cachorro.

O que é isso, caralho?

Que nojo, caralho.

Ainda não veio o sushi.

Não te queria acordar.

Não acordaste. Eu tenho o relógio biológico alinhado com os horários das refeições. O que veio hoje?

Nem consigo perceber.

Então isto é purê de castanha, ao vivo.

Purê de castanhas.

Não, purê de castanha. Nem cinzento, nem preto. Castanha, à moda da casa.

Já trouxeram alguma coisa que tenhas conseguido engolir?

Se queres que te diga, já não me sabe assim tão mal. Entre comer a mistela que eles fazem e passar fome...

Pois, eu é que estou mal habituado. E pra passar o tempo, o que é que fazes?

No início fazia exercício como tu, mas agora já desisti um pouco da ideia. Depois volto a pagar a inscrição no ginásio quando sair. Podes pedir-lhes qualquer coisa pra ler.

Não, deixa estar. Vou me focar aqui no treino e em falar contigo pra não dar em maluco.

Tu é que sabes. É que aqui os dias são compridos.

Eu não tardo a vou sair daqui. Tenho que pensar positivo.

Achas que te vão pagar o resgate?

Alguma coisa vai acontecer. Ou meu pai paga a guita, ou então chega aqui com 50 PG para arrumar essa merda toda. Só não sei qual das hipóteses me dá mais probabilidade de sobreviver.

"Happy birthday to you. Happy birthday to you. Happy birthday. Happy birthday to you".

O Candidato Perfeito é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios. Uma coprodução Coyote Vadio e Observador, da autoria de David Neto e Manuel Pureza. Com as vozes de José Raposo, Paulo Calatré, Madalena Almeida e a minha, Susana Brandão. A música do genérico é de Artur Costa. Episódio dois: Câmara lenta.

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Quer conduzir?

Não, pode levar. Sabe o caminho pra Sintra?

Sabe o GPS?

Este cinto não está encaixando muito bem. Deixa lá. Está a ficar em casa de alguém? Tem casa cá embaixo, Teresa?

Sim, Teresa. Estou num hotel, por enquanto. Depois vejo mais tarde se preciso alugar casa ou não, dependendo do tempo que demorarmos a resolver isto.

E gosta de vir a Lisboa ou nem por isso? Eu adoro o Porto. Sinto falta das francesinhas, mas nunca moraria lá porque é demasiado pequeno. Eu gosto de cidades grandes.

E quer falar comigo sobre o clima? Francesinhas?

Não, estava só a tentar...

Inspetor, acha que pisou um risco ao partilhar informações sobre um caso aberto com uma jornalista? Desculpe a frontalidade, mas é que gostava mesmo de saber.

Não Não, porque eu tinha confiança absoluta na Joana. Eu sabia que ela não ia publicar nada sem a minha autorização. Ela estava a conduzir a investigação dela, eu a minha, e aquilo que fizemos foi trocar informações, só isso.

E como é que se sente agora que é uma pequena celebridade? Gosta de aparecer nas televisões?

Não, não gosto. Eu só quero que esses abutres me larguem para eu conseguir fechar o caso. Quer dizer, para nós fecharmos o caso. Inspetora, de onde vêm essas perguntas todas?

Somos investigadores ou não? Queria conhecê-lo um pouquinho melhor, perceber as suas intenções, maneiras de pensar.

Disse-me lá dentro que o dossiê do caso lhe parecia incompleto. O que é que teria feito de outra maneira?

Muito bem. Tem sítio onde apontar. Em primeiro lugar, a Luísa.

O que é que tem?

O seu primeiro interrogatório do caso.

Certo.

Não acha que faltou nada? Será que houve uma falha no procedimento?

Não sei, eu fiz a entrevista, apanhei-a a mentir sobre as drogas.

O sexo, inspetor.

O que é que tem? Como assim?

Perguntou-lhe se ela tinha tido relações sexuais com o Zé nessa noite?

Sim, e ela disse que não.

E não seria caso para fazer uma avaliação de dano corporal?

Estava a mentir-me em relação ao vídeo e eu quis entalá-la com essa história. Inspetora, cuidado com esse carro à frente que ele está a travar.

Está tudo controlado, obrigada. Ter havido ou não relações sexuais era fulcral para o caso. Isto nunca foi confirmado.

Sim, nesse ponto tem razão.

Segundo, não encontrei nos relatórios nenhuma conclusão sobre o Pedro, o amigo que intermediava o fornecimento da droga.

Honestamente, o Pedro pareceu-me uma raia miúda. O depoimento dele confirmou que o Zé estava a ser pressionado por alguém por ele não ter pago um carregamento.

Pressionado por quem?

Não sei, um traficante acima dele, talvez.

Essa ponta solta merecia ser cosida, não acha, inspetor?

Mais alguma coisa para eu melhorar o dossiê?

Veja isto como críticas construtivas. São só observações para nos ajudar a perceber o que aconteceu ao Zé Galbão, nada mais. Tenho mais um reparo, na verdade. Filipe Delgado.

O que é que tem?

Não lhe parece rebuscado todo o plano? Uma vingança por causa de uma praxe que correu mal.

Inspetora, não é só uma praxe que correu mal. O amigo dele teve uma paragem cardiorrespiratória.

Mesmo assim, são miúdos com menos de 20 anos. Convencer dois colegas para entrar nisto, alugar uma carrinha.

Sei lá, por parecer rebuscado não quer dizer que não tenha acontecido. E além disso, temos uma confissão.

E nunca lhe passou pela cabeça que o miúdo pudesse estar a mentir. Outra vez.

Inspetora, não sei se está demasiado compenetrada a melhorar o meu dossiê, mas o caminho para a Peninha era por ali. Inspetora, passámos a saída que ia dar à serra.

Quem é que lhe disse que íamos à serra?

De forma surpreendente, mantendo-se assim na corrida à Câmara de Lisboa. É uma decisão tomada numa altura em que o seu filho ainda se encontra desaparecido. Decisão essa justificada pelo candidato independente como uma prova de força.

É uma decisão que muitos apelidarão de impopular, de claro oportunismo político, mas é acima de tudo, e a resposta a essas previsíveis críticas, é um murro na mesa perante a barbárie que a minha família está a viver. Eu não negoceio com terroristas. Eu não me acovardo perante criminosos.

Olá, filha.

Eu não desisto.

Não tinhas um almoço de campanha?

Cancelei.

Estás mesmo em todo o lado. É na televisão, no sofá de casa.

Tens fome? A Lurdes deixou a comida feita.

Não, nem por isso.

Há quanto tempo é que não nos sentamos os dois à mesa, Guigas? Sem televisão, sem distrações.

O que é que tu queres de mim?

Quero saber como é que estás.

Estou ótima. Na melhor fase da minha vida.

Deixa lá, quando chegares à minha idade, isso passa.

Por que tu mantiveste a tua candidatura à Câmara? E por que eu tive que saber isso por amigos que viram nas notícias? Não te apeteceu avisar-me que esta merda ainda ia ficar pior, foi?

Não temos estado muito tempo juntos nos últimos dias. Por isso é que eu estou aqui agora para falar e para ouvir.

Eu já te disse tudo o que eu tinha para te dizer. Tu é que nem sequer consegues olhar para mim da mesma maneira.

Anda cá, Margarida. Tu és a minha filha. Ainda não entendo totalmente por que que o fizeste, mas hei de lá chegar. Pronto, vá. Nós vamos encontrá-lo. Temos de pensar positivo. O Zé há de estar bem. A polícia pôs mais investigadores à procura, ele vai aparecer.

Sim

Filha, eu não desisti das eleições porque te amo muito e amo muito o teu irmão. Se eu saísse agora da corrida, eu ia estar a ceder ao medo. E é precisamente isso que os gajos querem, que nós tenhamos medo. Mas esta família não tem medo de ninguém. Há outra coisa que eu já queria ter falado contigo. Com isso da candidatura, vamos todos levar com os jornalistas em cima, é claro. Ainda para mais o que aconteceu.

Jura?

Estou a falar a sério, Guigas. Vai chegar a um ponto em que pode ser muito incomodativo, mesmo para ti. Eu queria pedir-te para teres paciência estas semanas. É que vai estar muita gente a rondar a casa, talvez até irem atrás de ti para declarações ou o que for.

Queres trancar-me em casa, é isso?

Não, claro que não. O que eu quero é que estejamos os dois em sintonia. É importante passarmos a imagem de união da nossa família. Isto é sério.

Ok.

As eleições já vão ser à pele. Não podemos dar um milímetro de margem que eles possam usar contra nós. Por isso é que eu não quero que voltes a ir à casa do Delgado.

Como é que tu sabias que eu fui visitá-lo?

Por amor de Deus, Guigas, eu acabei de dizer que temos os média todos à perna, toda a gente sabe. Promete-me que não voltas a lá ir.

Bar Labareda.

Lado Bareda, a 50 metro-

Bar Labareda.

Bar Labareda, na Avenida das Descobertas. Vire à direita para a Rua dos Moinhos.

Onde é que é esta merda? Eu conheço isto. Boa tarde. Inspetores Teresa Macedo, João Durães, da Polícia Judiciária. Falei com alguém ao telefone para avisar da nossa visita?

Boa tarde, inspetores. Sim, falou com uma colega. O senhor diretor regional está à vossa espera. Aguardem só um momento que eu vou chamá-lo.

Não é preciso. Agradeço ao senhor diretor a disponibilidade, mas nós queremos falar com alguém da vigilância. É possível?

Sim, acho que sim. Dêem-me só um minuto, por favor.

Inspetora, queremos os dois a mesma coisa, certo?

O quê?

Encontrar o José Valbom.

Certo.

E viemos o caminho todo a falar do que é que poderia ter sido melhorado até agora na investigação, certo?

Críticas construtivas, sim.

Então, em prol do sucesso da investigação, a minha sugestão seria a Teresa explicar-me o que merda é que nós estamos aqui a fazer para estarmos os dois na mesma página.

Tem razão. Viemos aqui para ver as imagens das câmaras.

As quais câmaras?

Inspetores, viva. Paulo Henriques, responsável da vigilância preventiva e fiscalização aqui do ICNF. Disseram-me que queriam falar com alguém do departamento?

Boa tarde, Paulo. Inspetora Teresa Macedo, o meu colega João Durães.

Viva.

Em que é que vos posso ajudar?

Olha, Paulo, boa pergunta.

O sistema remoto de vigilância da Serra de Sintra é operado aqui neste polo, certo?

Sim, quer dizer, como disse, é um sistema remoto. As câmaras têm um mecanismo de deteção automática de incêndios, que quando é acionado, envia um sinal aqui aos meus colegas.

E conseguem ter visibilidade de toda a serra?

Mais ou menos. Concentramos os recursos nas zonas de maior risco de incêndio. Neste momento temos torres de vigilância com as tais câmaras direcionadas para três zonas, que são Janas-

Sim, Janas, Peninha Norte e Peninha Sul.

Isso.

Estamos à procura de imagens de uma ocorrência na zona da Peninha Norte. Como é que são ativadas as câmaras? É por focos de calor?

Sim, é isso. São pontos quentes, colunas de fumo.

A qualquer hora?

Qualquer hora, de dia ou noite.

E qual seria a probabilidade de uma câmara dar o alarme por um grupo de três pessoas a amarrar uma vítima a uma árvore?

Diria que bastante reduzida.

Mesmo se tivessem acendido cigarros ou com a temperatura do motor dos carros?

Não é calor suficiente para fazer disparar o sistema.

As câmaras gravam sempre, certo? Independentemente de mandarem um sinal de perigo para aqui.

Sim, é isso. O sistema está programado para procurar os indicadores, mas quando não os encontra, continua a gravar, só não nos avisa. Depois as imagens ficam guardadas na nuvem durante um mês.

Isso quer dizer que há a possibilidade de ter apanhado uma ocorrência, mesmo sem querer.

Eu acho muito improvável, mas pode ter acontecido. Vamos é demorar algum tempo a procurar, a não ser que saiba o dia e a hora aproximada da vossa ocorrência.

Foi dia 20 de março, entre a meia-noite e as 04:00.

Boa, assim vai ajudar. Venham, por favor, o gabinete é já aqui.

Vamos.

Entrem.

Boa tarde. Obrigada. Peninha Norte, 20 de março, entre a 00:30 e as 04:00. Aqui está. Vou passar o vídeo em velocidade acelerada.

Isso, por favor.

Se vir alguma coisa que queiram ver com mais calma, é só dizer.

O que era aquilo? Uma raposa?

Uma gineta. Ginetas e javalis é o que se vê mais na serra à noite.

Miúdos da faculdade é que são na 24 de julho.

Pois. Aqui no vídeo já estamos quase a chegar às 5h. Querem continuar?

Não vale a pena. Obrigada.

Desculpem, é pena. Se tivesse havido um alarme, talvez a câmera tivesse mexido, talvez conseguíssemos ver outros ângulos. Aliás, se fosse na zona da Peninha Sul, o fechar diz aqui que essa câmera foi acionada há 1h24. Alguém fez uma fogueira no mato.

Não foram os nossos suspeitos, nós não encontrámos fogueiras quando fomos ao local.

A câmera da Peninha Sul apanha a estrada, a que vai dar ao Cabo da Roca?

Sim, apanha.

E conseguimos ver os carros em detalhe?

Bastante bem. Magia do vídeo em 8K.

Paulo, diga-me uma coisa. Tem ideia de quantos carros é que passam à noite aqui pelo meio da serra?

Nesta altura do ano, no máximo uma meia dúzia.

Mostre-nos o vídeo, Paulo.

Mais uma gineta.

Espera aí, uma carrinha. Uma carrinha igual à que o Felipe Delgado alugou. Vieram por aqui os miúdos.

Com alguma sorte. Continua. Um carro a descer a estrada à saída Peninha. Consegue fazer zoom, Paulo?

Isto é o máximo que fecha.

Não, mas é suficiente. Vê-se claramente que é um Citroën preto.

A matrícula não se percebe bem.

Não se preocupe, nós vamos tentar por outra via. Obrigada pela sua ajuda, Paulo.

Ora essa, se puder fazer mais alguma coisa, é só avisar.

Não, obrigado.

Será que a estrada nacional tem câmaras de trânsito?

Duvido, mas com a quantidade de casearões que há por ali à beira da estrada, de certeza que câmaras de vigilância não faltam.

O meu palpite é que o carro tenha ido para sul, em direção a Lisboa.

Eu também acho. Inspetora, bom trabalho.

Obrigada, João. Estamos a ficar mais próximos.

"O Candidato Perfeito" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. É escrito por David Neto e Manuel Pureza, com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão da Silva e assistência à realização de Clara Godinho. A direção de som, sonoplastia e música do genérico são de Artur Costa. José Raposo é Vicente Valbom, Tiago Teotónio Pereira é José Valbom, Madalena Almeida é Margarida Valbom, Vera Moura é Sofia Rito, Paulo Calatré é João Durães, Susana Brandão é Teresa Macedo, Sara Matos é Inês Oliveira, Vicente Wallenstein é Filipe Delgado, Pedro Laginha é César Pontes, Carla Andrino é Mila Valbom, Francisco Beatriz é Aníbal Freitas. Este episódio tem a participação especial de Daniel Viana, Judite França, David Neto e Clara Godinho.