Escritor Sérgio Raimundo aprendeu com Noémia de Sousa a estar no mundo

O autor de "A ilha dos mulatos", que se encontra em Macau a escrever um romance histórico, disse à agência Lusa que tem com Noémia de Sousa uma relação "artificialmente familiar", criada pela "intimidade literária".

"Ela me ensinou a minha própria voz; mostrou-me como eu devia ser e estar dentro do verso, da poesia e no mundo", afirmou.

Raimundo começou por passar pelos poemas de Noémia de Sousa, que este ano completaria 100 anos, "como quem passa por uma rua desconhecida".

"Isso aconteceu, em grande parte, porque tive professores que não nos acendiam o amor por coisas belas como a literatura; professores que se punham na sala de aula, muitas vezes, simplesmente para cumprir o seu dia laboral. Entretanto, mesmo no meio daquele matagal, eu sentia qualquer coisa que me interessava na Noémia de Sousa", referiu.

Sérgio Raimundo identifica uma "influência gigante" de Noémia de Sousa na sua caminhada "enquanto cidadão, pai, filho e pessoa".

"A poesia de Noémia de Sousa tem diversas dimensões humanas impressionantes. Admira-me muito quando hoje falamos, no meu país, sobre cidadania, luta e direitos humanos sem nunca termos lido um poema de Noémia. Para mim, ela é uma verdadeira escola de coragem, de cidadania e, acima de tudo, de justiça. A poesia engajada da Noémia, a sua militância e a sua humildade desarmante na escrita são marcas que ficaram profundamente gravadas em mim. Creio que bebi muito dessa essência", adiantou.

Apesar de considerar que "Noémia de Sousa é conhecida em Moçambique", defende que "podia ser muito mais divulgada" e sublinha: "Afinal, a Noémia é nossa".

"Arrisco-me a dizer que, por exemplo, o Brasil celebra, estuda e investiga mais a obra de Noémia do que o meu próprio país. Noémia era uma voz universal, mas nós temos o dever de celebrá-la, estudá-la e mantê-la viva, porque ela é nossa!".

E assume que gostaria que a voz da Noémia fosse hoje ouvida sem filtros.

"Ouvindo a sua voz, iríamos, em grande parte, compreender tudo a que hoje assistimos. A luta das mulheres no meu país, por exemplo, se olhasse para a poesia de Noémia, ganharia um pilar firme e desarmante para sustentar as suas causas. A Noémia deveria ser uma das primeiras referências nacionais quando se fala na mulher moçambicana. Mas ninguém se recorda de Noémia, da sua luta, do quanto ela sofreu. Ninguém se recorda. E Noémia lutou até aos seus últimos dias", prosseguiu.

Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares, mais conhecida como Noémia de Sousa, nasceu em 20 de setembro de 1926 em Calembe, Moçambique.

A jornalista, tradutora e poeta moçambicana é considerada uma das figuras mais marcantes da literatura moçambicana e da resistência antifascista, sendo conhecida como "a mãe" dos poetas moçambicanos.

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