Espanha atribui crise em Ceuta a "redes de tráfico de pessoas"

"As redes de tráfico de pessoas estão a instrumentalizar uma sentença judicial para fomentar o fluxo de migrantes sem documentos, maioritariamente jovens", disse o Ministério da Administração Interna (MAI), num comunicado.

Relatos de migrantes que entraram em Ceuta nos últimos dez dias citados por meios de comunicação social espanhóis falam num "efeito chamada" provocado por uma sentença do Supremo Tribunal de Espanha do início deste mês segundo a qual pessoas que chegam ao país por mar, de forma ilegal, não podem ser devolvidas imediatamente às autoridades de outro Estado.

Essa entrega a autoridades de outro país não se aplica no caso do mar, só a quem entra em Espanha "superando os elementos de contenção fronteiriça estabelecidos, como vedações", decidiu o tribunal.

No mesmo comunicado, o MAI espanhol reiterou a "exemplar colaboração" com Marrocos e agradeceu ao país do norte de África "os esforços" que "têm impedido milhares de tentativas de migração irregular" nos últimos dias.

Os dois países decidiram hoje reforçar a coordenação para fazer frente a estes fluxos migratórios e comprometeram-se a "rever e adotar medidas para a entrega, o antes possível, de todas as pessoas que entraram ilegalmente" em Ceuta a partir de Marrocos, segundo o Governo espanhol.

O ministro da Administração Interna de Espanha tem estado "em contacto permanente" com o homólogo marroquino, Abdelouafi Laftit, de acordo com a mesma nota oficial.

Também Marrocos atribuiu hoje a entrada massiva de migrantes na fronteira com Ceuta, um enclave espanhol no norte de África, a "organizações criminosas" e classificou como "exemplar" a colaboração com Espanha em matérias migratórias.

Fontes da embaixada marroquina em Madrid disseram à agência espanhola Europa Press que as recentes tentativas de entrada irregular em Ceuta "não respondem, de forma alguma, ao desejo das autoridades marroquinas de favorecer a imigração irregular" e que tudo indica que estes movimentos se devem, antes, à exploração de redes criminosas dedicadas ao tráfico de seres humanos e ao tráfico de migrantes.

Uma perceção gerada, adiantaram, após a recente decisão do Supremo Tribunal espanhol sobre os procedimentos para o regresso das pessoas intercetadas no mar.

O Governo espanhol afirmou hoje estar empenhado em dar uma resposta imediata à entrada em Ceuta de milhares de migrantes vindos de Marrocos para permitir o regresso à normalidade o mais rapidamente possível da cidade autónoma.

"Estamos a mobilizar todos os recursos necessários, a trabalhar com as autoridades marroquinas e internacionais e a preparar as medidas necessárias para o regresso à normalidade o mais rapidamente possível", afirmou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, numa mensagem nas redes sociais.

As autoridades de Ceuta declararam hoje a cidade em "absoluta emergência humanitária e social" após mais de 1.500 pessoas terem entrado nos últimos dez dias neste enclave a nado.

Ao longo da manhã de hoje juntaram-se milhares de pessoas que cruzaram para o lado espanhol, desde Marrocos, a pé, depois de saltarem vedações ou contornarem "o espigão", um pontão de vários metros sobre o mar, numa linha que separa as águas dos dois territórios.

Jornalistas de meios de comunicação social espanhóis no local relataram como ao longo da manhã milhares de pessoas, sobretudo jovens, se aproximaram da fronteira com Ceuta para a cruzar em simultâneo, num movimento massivo aparentemente organizado que as polícias que estavam naquele momento no local nos dois lados não conseguiram travar.

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