Os Estados Unidos (EUA) criticaram esta quarta-feira a presidente da Assembleia-Geral da ONU pelo papel desempenhado no processo de seleção do próximo secretário-geral das Nações Unidas, acusando Annalena Baerbock de “abuso de poder” e “ações irresponsáveis”.
No debate anual do Conselho de Segurança da ONU dedicado aos “métodos de trabalho” deste órgão, a diplomata norte-americana Jennifer Locetta teceu duras críticas à conduta da ex-ministra dos Negócios Estrangeiros alemã, que tem conduzido o processo de sucessão de António Guterres.
Ao destacar eventos que sugerem que os métodos de trabalho do Conselho de Segurança não estão a ser respeitados, Locetta apontou para o processo intergovernamental de seleção do próximo secretário-geral da ONU.
“Por exemplo, o Conselho de Segurança desempenha um papel crucial na recomendação do próximo secretário-geral, conforme previsto na Carta da ONU. Os Estados Unidos levam essa responsabilidade muito a sério”, disse.
“É por isso que os Estados Unidos discordam veementemente do abuso de poder e das ações irresponsáveis da presidente da Assembleia-Geral neste processo, cujo conjunto pode comprometer o importante processo de seleção. A presidente da Assembleia-Geral enviou duas cartas a este Conselho insinuando que o órgão agiu de forma inadequada, invocando os princípios de transparência, imparcialidade e inclusão”, apontou Locetta.
A representante de Washington contestou uma sondagem de opinião conduzida no mês passado por Annalena Baerbock, na qual solicitou feedback sobre o desempenho e as opiniões dos candidatos.
Locetta classificou essa ação como “injusta, pouco transparente e sem precedentes”.
“Essa sondagem foi uma completa surpresa tanto para os próprios candidatos quanto para os observadores. A maioria das pessoas que votaram na sondagem não tem qualquer função oficial no processo de seleção do secretário-geral”, afirmou.
“A presidente da Assembleia-Geral dá continuidade a uma tendência de líderes da ONU que se consideram superestrelas da diplomacia em vez de chefes administrativos”, criticou ainda.
A próxima pessoa a chefiar o Secretariado das Nações Unidas vai iniciar o mandato de cinco anos a 1 de janeiro de 2027, sucedendo ao antigo primeiro-ministro português António Guterres.
Em consonância com uma tradição de rotação geográfica, nem sempre observada, a posição de secretário-geral da ONU está a ser reivindicada pela América Latina.
Muitos países também defendem que uma mulher deve ocupar o cargo pela primeira vez nos 80 anos de história da ONU.
No total, e até à data, são oito os candidatos ao cargo: a antiga presidente chilena Michelle Bachelet, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, a ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan, o ex-presidente senegalês Macky Sall, a antiga ministra dos Negócios Estrangeiros do Equador María Espinosa Garcés, a diplomata da Guiana Carolyn Rodrigues Birkett, o diplomata ugandês Olara Otunnu e a diplomata equatoriana Ivonne A-Baki.
O Conselho de Segurança da ONU reuniu-se no mês passado para a primeira “votação informal” para secretário-geral da ONU, e Rebeca Grynspan liderou a primeira ronda de votação à porta fechada, segundo fontes diplomáticas.
Mesmo que um candidato obtenha o apoio necessário de nove membros do Conselho de Segurança — órgão que seleciona o próximo chefe da ONU antes de a sua nomeação ser aprovada pela Assembleia-Geral — terá também de evitar o veto de um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido), que ainda não manifestaram preferências.
Espera-se que no final deste ano a Assembleia-Geral da ONU formalize a nomeação, mas a data ainda não foi fixada.
António Guterres assumiu a liderança da ONU em janeiro de 2017, tendo sido reconduzido para um segundo mandato de cinco anos, que termina no final deste ano.
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