Fed eleva juros pela 1ª vez em 3 anos — e isso mexe diretamente com seus investimentos

O Federal Reserve (Fed) cumpriu as apostas do mercado e anunciou nesta quarta-feira (16) a primeira alta de juros dos Estados Unidos em três anos: a taxa subiu em 0,25 ponto percentual (pp), para a faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano.  Sob a liderança de Kevin Warsh, a decisão unânime do banco central norte-americano reforça o combate à inflação, elevando o custo do dinheiro na maior economia do mundo. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O petróleo cotado acima dos US$ 100 por barril com o agravamento do conflito do Irã aumentou as pressões para que o Fed agisse — e ainda que Warsh tenha cortado o forward guidance (orientação futura) dos comunicados e das coletivas, os traders viam mais de 90% de chance de o aperto monetário acontecer hoje.  

"A inflação continua elevada", disse o comitê em um comunicado curto que trouxe a decisão. "A ação de hoje apoiará um retorno mais oportuno [da inflação] à meta de 2%. O Comitê garantirá estabilidade de preços", acrescenta.

Apesar da dualidade da decisão — que favorece a economia, já que defende o mandato duplo de inflação em 2% e o pleno emprego, mas castiga os ativos mais arriscados como as ações — , o mercado parece que se acostumou com a ideia de que o banco central norte-americano subiria os juros agora e, provavelmente, mais uma vez neste ano.

"A estabilidade de preços é a fundação de um crescimento sustentável, e ao retirar uma parte da acomodação [monetária] hoje, caminhamos nessa direção", disse Warsh durante a coletiva, reafirmando seu compromisso em entregar a inflação em 2% nos EUA.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Em Wall Street, as bolsas mantiveram a trajetória de antes da decisão: o Dow Jones seguiu operando próximo da estabilidade, enquanto S&P 500 e Nasdaq se mantiveram no azul. Na renda fixa, os títulos de dois anos, mais sensíveis à política monetária, e os de dez anos não reagiram à alta dos juros.

Leia Também

Por aqui, o Ibovespa seguiu operando no vermelho, enquanto o dólar à vista seguiu em queda, cotado na casa de R$ 5,14.

No que o investidor deve ficar de olho 

O aumento dos juros é a principal ferramenta para conter a inflação e manter a economia rodando na temperatura adequada. No entanto, reduz o apetite por ativos mais arriscados e, na linha de frente, estão as ações de tecnologia.

Em cinco dos últimos seis ciclos de aperto monetário nos EUA, o Nasdaq — que representa cerca de 60% das empresas de tecnologia — caiu no mês seguinte, e em quatro desses ciclos o dano piorou três meses depois.  

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

No entanto, em três desses casos, o índice teve um desempenho positivo seis meses depois — o melhor retorno em seis meses foi a alta de 50,3% em 1999, e a pior foi uma queda de 9,9% em 1994. 

Vale notar que se o Fed for forçado continuar subindo os juros para conter a inflação, 1994 será o exemplo de alerta para o investidor.  

Leia também:

  • A revolução de Kevin Warsh: gestora desvenda os mistérios do novo banco central dos EUA para os investidores
  • Bolsa americana aguenta juros mais altos; UBS GWM diz onde investir nesse cenário
  • A nova ameaça de Trump após o dado de emprego para forçar a queda de juros nos EUA

O diferencial de juros 

Para o investidor brasileiro, decisão de hoje do Fed ainda tem outra implicação: o diferencial de juros — e isso vale especialmente no caso de o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar a Selic como o esperado, de 14% para 13,75% ao ano. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Quando o Fed eleva os juros nos EUA e o Banco Central brasileiro reduz a Selic, o mercado financeiro global aciona o chamado efeito tesoura.  

Essa combinação encurta a distância entre a rentabilidade do investimento mais seguro do planeta — os títulos da dívida norte-americana — e o retorno oferecido pela renda fixa do Brasil.  

Como consequência direta dessa redução da distância das taxas, o prêmio pago ao investidor para encarar os riscos políticos e econômicos de um país emergente deixa de ser atraente, provocando uma repactuação das carteiras globais. 

O motor dessa dinâmica é o carry trade, uma operação em que grandes fundos tomam dinheiro emprestado a juros baixos em moeda forte e aplicam em títulos de países com juros elevados para embolsar a diferença.  

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Quando o diferencial de juros encolhe e o cenário global já é de aversão ao risco, essa equação perde o sentido. O capital estrangeiro inicia um movimento de desmonte dessas posições: os investidores vendem ativos cotados em reais, compram dólares e remetem os recursos de volta para a segurança dos EUA. 

Essa debandada de capital estrangeiro desorganiza o mercado local em várias frentes. A alta procura por dólares em solo brasileiro faz a moeda norte-americana disparar frente ao real, o que pressiona a inflação por meio dos produtos importados e força os juros de longo prazo a subirem na renda fixa.  

Paralelamente, o Ibovespa perde o principal comprador e passa por correções, deixando o investidor doméstico com a missão de reavaliar seus ativos, já que a renda fixa local perde parte do brilho e a exposição ao dólar passa a ser peça central de proteção. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Embora o Fed não telegrafe o que vai acontecer com os juros desde que Warsh assumiu, em maio deste ano, os economistas do Morgan Stanley alteraram no início da semana a previsão de aperto monetário neste ano nos EUA, prevendo mais uma alta em dezembro.  

A tese se baseia no avanço dos preços do petróleo, na expansão inflacionária da inteligência artificial (IA) e na mudança mais ampla em direção às expectativas de aumento da taxa a partir de agora.   

"Não fazer isso arriscaria perder credibilidade e um possível aumento nos prêmios de risco de longo prazo, semelhante à reação após a reunião de julho", disse Michael Gapen, economista-chefe do Morgan Stanley nos EUA.  

Na mesma linha, o HSBC prevê outra alta de juros em dezembro. "Em ciclos históricos de aumento de taxas, S&P 500 cai inicialmente, mas se recupera gradualmente", afirmou Nicole Inui, chefe de estratégia de ações para as Américas do HSBC.  

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

"Ciclos de normalização benignos e menores (1997, 2016) normalmente apresentaram melhora no desempenho em cerca de três a seis meses após a primeira elevação", acrescentou.  

Projeções divulgadas pelo comitê junto com a decisão de hoje mostram que a maioria dos membros do banco central norte-americano acredita que outro aumento de juros é possível neste ano.

No entanto, não há aumentos previstos para os anos seguintes, com um corte indicado para 2028 e pelo menos um para 2029.

Os membros do comitê veem o índice de preços para gastos pessoais (PCE, na sigla em inglês) — a métrica preferida do Fed para a inflação — em 3,7% e o núcleo excluindo alimentos e energia em 3,4%, ambos 0,1 ponto percentual acima da última atualização de junho.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O Fed não espera atingir a meta de inflação de 2% antes de 2029, embora preveja uma queda acentuada em ambas as medidas em 2027 — 2,3% para o índice geral e 2,5% para o núcleo.

"Essas são as projeções dos meus colegas do comitê e não as minhas. Não sou o cara do forward guidance, não sou o cara dos dados pontuais. Dados pontuais são ruídos, o que importa é a tendência. O mercado vai entender como o Fed toma as decisões a partir de agora", disse Warsh na coletiva.

Depois de cortes de juros em 2025, o comitê se manteve em compasso de espera, segurando a taxa de juros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, desde o início de 2026, até que a maré começou a virar para o aperto monetário no final de agosto e foi concretizado hoje.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE