Nunca Espanha ou França tinham enfrentado algo assim. Nunca a Europa tinha enfrentado algo assim. Agora tem de se preparar, porque chegou uma nova era
Os vastos incêndios que devastam o sudoeste de França estão a arder com tanta intensidade que criaram uma poderosa tempestade gerada pelo fogo. Este fenómeno raro é observado ocasionalmente em mega-incêndios como os que afetam os EUA e o Canadá, mas era inédito em França até então - e é apenas um sinal de que a Europa está a entrar numa nova era de incêndios, dizem os especialistas.
A Europa sempre teve incêndios florestais, mas estão a tornar-se cada vez mais extremos à medida que a crise climática se intensifica. Os bombeiros em França e Espanha estão atualmente a tentar conter incêndios mais ferozes e erráticos do que qualquer outro que já tenham enfrentado.
Isto acontece após a época de incêndios recorde na Europa no ano passado, com os especialistas a afirmarem que o continente está a juntar-se a uma longa lista de regiões - da Sibéria à Amazónia - que agora sofrem com épocas de incêndios extremos consecutivas.
“Entrámos numa era de incêndios que não podem ser extintos”, explica Víctor Resco de Dios, professor de engenharia florestal e alterações globais na Universidade de Lleida, em Espanha. “São incêndios que ardem com a intensidade de várias bombas atómicas.”
Os incêndios florestais em França já devastaram mais de 116 mil hectares, sendo os maiores já registados no país, e ainda faltam meses da época de incêndios.
“A situação que enfrentamos hoje é a mais difícil que já registámos, a mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial”, admitiu esta segunda-feira o presidente francês, Emmanuel Macron, durante uma visita a Bordéus, onde classificou os incêndios como “totalmente sem precedentes”.
Um dos exemplos mais visíveis disso foi o aparecimento de nuvens de fogo, ou “pirocúmulos”, que se formaram no fim de semana na região da Gironda, perto de Bordéus, segundo as autoridades de combate aos incêndios.
As nuvens de fogo surgem quando incêndios florestais particularmente intensos geram uma coluna de calor extremo, que sobe rapidamente para o ar mais frio acima e se condensa em imponentes nuvens de tempestade. Estas podem criar o seu próprio vento, chuva e relâmpagos, transformando as chamas em tempestades de fogo erráticas e imprevisíveis que se alimentam sozinhas.
O fenómeno está bem documentado na Austrália, no Canadá e nos Estados Unidos - os incêndios de Los Angeles em 2025 produziram um raro tornado de fogo - mas não é de todo comum na Europa.
O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) refere que ainda não é possível afirmar com certeza que este era o primeiro pirocúmulo em França. "No entanto, se confirmado, o seu desenvolvimento destacaria a intensidade excecional do incêndio atual e as extraordinárias condições atmosféricas em que está a arder", sublinha Francesca Di Giuseppe, coordenadora de previsão de incêndios do ECMWF.
A escala dos incêndios também é notável, avisam os especialistas. Devastaram enormes extensões de terra em França e Espanha, países que solicitaram assistência à União Europeia. "Uma crise de incêndios florestais sincronizada e multinacional é rara na Europa", frisa Stefan Doerr, diretor do Centro de Investigação de Incêndios Florestais da Universidade de Swansea, no País de Gales.
Os incêndios estão a devastar áreas próximas de grandes cidades, incluindo um que atingiu a província montanhosa de Ávila, a oeste da capital espanhola, Madrid, e que é agora o maior já registado no país, segundo as autoridades.
“O que é invulgar é o número atual de incêndios florestais destrutivos: incêndios que se propagam rapidamente, sobrecarregam os bombeiros e obrigam a evacuar as comunidades”, diz Guillermo Rein, professor de ciência do fogo no Imperial College London. Mais de 300 mil pessoas já foram retiradas nos dois países.
A supressão completa de incêndios desta magnitude é quase impossível até que o combustível se esgote ou que ocorram chuvas persistentes, independentemente da quantidade de recursos de combate a incêndios mobilizados, dizem os especialistas.
“Na Austrália, em partes dos EUA e do Canadá, há uma expectativa e aceitação generalizadas de incêndios florestais fora de controlo”, vinca Doerr, da Universidade de Swansea. “Na Europa, ainda existe a noção generalizada de que estes incêndios podem ser totalmente evitados.”
Porque é que estes incêndios são tão graves?
Cada incêndio florestal é complexo e único, afetado por muitos fatores, incluindo a gestão do solo, o terreno e os recursos de combate aos incêndios. Mas o clima extremo, agravado pelas alterações climáticas, tem sido um fator-chave nos incêndios na Europa, dizem os cientistas. O aquecimento global está a provocar oscilações mais acentuadas entre os extremos de seca e de chuva. É um "efeito chicote", nota Matthew Jones, investigador independente da Escola de Ciências Ambientais da Universidade de East Anglia, em Inglaterra.
O último inverno foi excecionalmente chuvoso em França e Espanha, levando a um aumento do crescimento da vegetação. Depois, o clima mudou drasticamente. Desde maio que a Europa Ocidental tem sido assolada por uma sucessão de ondas de calor brutais, que têm ressecado a paisagem. Este calor proporcionou "o 'estalo do chicote' no efeito chicote, transformando a vegetação densa em combustível altamente inflamável", explica Jones.
Enquanto França e Espanha se preparam para a quarta vaga de calor do verão, há receio de que esta possa agravar uma situação já de si perigosa.
Cenários dantescos
Extinguir completamente os incêndios atuais pode levar meses, já admitiram as autoridades, mas os seus impactos persistirão muito depois disso.
Os céus perigosos e cheios de fumo que produzem são prejudiciais para a saúde. Estima-se que a poluição causada pelos incêndios florestais provoque mais de 100 mil mortes em todo o mundo todos os anos.
Há também os danos nas economias. Estes incêndios estão a devastar áreas próximas das grandes cidades europeias, afetando pontos turísticos, regiões vinícolas e centros vitais de defesa.
Além disso, podem alterar a relação das pessoas com a terra em que vivem, uma vez que se encontram agora sob a ameaça constante de incêndios incontroláveis.
No futuro, os cientistas dizem que devemos esperar que os incêndios - na Europa como noutros lugares - se tornem mais frequentes e mais extremos, enquanto os humanos continuarem a queimar combustíveis fósseis e a elevar as temperaturas.
“É difícil prever até onde as coisas podem chegar”, lamenta Resco de Dios, “em breve não poderemos descartar cenários catastróficos como os observados na Califórnia ou na Austrália, com incêndios ou complexos de incêndios a atingir centenas de milhares de hectares ou mesmo um milhão de hectares.”