Fora Dark Horse, vem dark matter - 19/09/2026 - Antonio Prata - Folha

Se a humanidade tivesse dado certo em vez de ser essa start-up falida de Deus –é um erro comum de empreendedores neófitos criar um produto à sua imagem e semelhança, não atentando às necessidades do mercado– no lugar de estarmos discutindo a ascensão de um candidato que faz rachadinha e a decadência de um STF rachadão, estaríamos alucinados comentando sobre uma máquina de 7 toneladas que, 150 metros abaixo da terra, numa mina abandonada em Dakota do Sul, fez "plim!". Esse "plim!", minha gente, pode ser a primeira detecção da chamada matéria escura.

Se a humanidade tivesse dado certo em vez de ser essa debacle narcísica de Deus –é um erro comum de narcisistas jogarem todos os holofotes sobre si e depois ficarem sofrendo com a qualidade do que está sendo iluminado– no lugar de uma coluna com o título "As dúvidas em torno do tamanho do pênis: o que será que é mito?", durante toda a tarde de sexta, na home da Folha, teríamos "As dúvidas em torno da matéria escura: entenda o que se sabe sobre um dos ingredientes principais do universo".

"Um dos ingredientes principais", embasbacada(o) leitora(o), não é exagero. Algo entre 80% e 95% de tudo que existe é feito de uns troços que desconhecemos quase por completo: matéria escura e energia escura. Os átomos que formam você, eu, a Santa Ceia na parede do vizinho, Saturno, o ácido hialurônico, os diamantes da coroa britânica, o crocante do Chokito, enfim, toda a matéria visível, correspondem a menos de 20% da farinha do bolo cósmico.

Astrônomos descobriram (ou melhor, intuíram) a matéria escura na década de 1930. De acordo com as leis da física, se não houvesse uma força gravitacional muito grande –maior do que a dos corpos celestes detectáveis—, as estrelas das galáxias, em vez de se manterem unidas, sairiam saracoteando por aí. Mais do que isso não me arvoro a explicar, pois confesso que compreendo tanto sobre a matéria (e energia) escura quanto sobre o gás xenônio.

O gás xenônio é o elemento contido na máquina de 7 toneladas enterrada no fundo da mina em Dakota do Sul. Ele é um alvo gigante à espera das flechas de matéria escura que, segundo os físicos, estão indo daqui para lá, de lá para cá, a toda hora. (Pode ter uma materiazinha escura agora mesmo entrando pelo seu ouvido e saindo pelo seu dedinho do pé.)

Por razões que ignoro, quando uma dessas micros setas perdidas bate não no seu tímpano, mas no banheirão de xenônio, faz "plim!" e os cientistas param tudo para responder à pergunta: mas será o (obscuro) benedito?

Pois, no início do mês, os cientistas responsáveis pelo experimento vieram a público dizer que um "plim!" analisado desde 2023 tem boas chances de ser um "plim!" real, oficial, de matéria escura e não, sei lá, uma linha cruzada intergaláctica ou o espirro de um estagiário que se esqueceu de cobrir o nariz.

Pensando bem, se a humanidade tivesse dado certo, em vez de ser esse patético pega para capar, não precisaríamos nem do "plim!" do xenônio para deixarmos de pensar em Flávios, Daniéis, Andrés, Alexandres ou, pior, Donalds, Elons e Sams. Bastaria olharmos para nossa mão, pensar que cada átomo dela, como cada átomo do resto do nosso corpo, de Saturno, dos diamantes da coroa britânica etc etc etc foi criado há bilhões de anos, dentro de estrelas. Um "plim!" soaria dentro da nossa cabeça e iríamos tomar banho de mar, dançar YMCA ou comer doce de leite, algumas das poucas atitudes verdadeiramente importantes nesta (não que haja outra) vida.

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