Começamos a envelhecer no dia em que nascemos. Parece uma evidência, mas raramente olhamos para o envelhecimento dessa forma. Falamos dele como se fosse um assunto dos outros, reservado para uma idade distante. Entretanto, os hábitos que cultivamos, os laços que mantemos e as cidades que construímos vão moldando a forma como viveremos os anos que ainda não chegaram.
Em cerca de um século, Portugal ganhou perto de quatro décadas de esperança de vida. É uma conquista extraordinária. Por detrás dela estão melhores condições de vida, vacinação, cuidados de saúde e o trabalho de gerações que tornaram possível chegar mais longe. Há motivos para celebrar. Mas há também uma pergunta que não podemos adiar: que vida estamos a acrescentar a esses anos?
Conheço esta pergunta como filho, como neto e no trabalho que desenvolvo na Fundação. Quando pensamos nos nossos avós, não nos lembramos primeiro da idade que tinham. Lembramo-nos de uma voz, de um gesto, de um lugar à mesa. Lembramo-nos daquilo que nos ensinaram sem sequer saberem que estavam a ensinar. É assim que quero pensar na avó Almerinda, no avô Gaspar, no avô Eduardo e na avó Lídia: como pessoas inteiras, com histórias próprias, e não como números numa estatística.
Viver mais tempo abre novas possibilidades. Há pessoas que descobrem interesses, iniciam projetos, acompanham os netos, cuidam de quem amam e continuam a fazer a diferença nas suas comunidades. A idade não lhes retira a vontade de participar nem o direito de decidir sobre a própria vida. Ao mesmo tempo, a doença, as limitações e a solidão podem tornar esses anos mais difíceis. Reconhecer estas dificuldades é essencial para criar condições em que cada pessoa possa continuar a viver com sentido, mesmo quando precisa de apoio.
Precisamos de olhar para o envelhecimento ao longo de toda a vida. Na infância, quando aprendemos a criar vínculos. Na idade adulta, quando o trabalho e as responsabilidades nos deixam sem tempo para cuidar de nós e dos outros. E na velhice, quando o acesso à saúde, a mobilidade, a participação e as relações de proximidade se tornam decisivos para continuar a viver com autonomia e sentido.
O tema das Nações Unidas para 2026 convida-nos a repensar os sistemas para vidas mais longas. Isso exige serviços de saúde que acompanhem, comunidades que reparem em quem ficou sozinho e organizações capazes de trabalhar em conjunto. Exige também gestos simples, sem os confundir com uma solução suficiente: telefonar, escutar sem pressa, convidar alguém a participar, perguntar o que deseja em vez de decidir por si.
Não podemos devolver o tempo, mas podemos ajudar a que ele seja vivido com companhia, dignidade e possibilidade de escolha. O Dia Internacional da Pessoa Idosa, que hoje se assinala, deve lembrar-nos de quem envelheceu antes de nós e, ao mesmo tempo, de quem todos estamos a tornar-nos. Ganhar anos foi uma vitória. Fazer com que valha a pena vivê-los é a tarefa que temos agora nas mãos.
© David Rodrigues

"Enquanto viveres na minha casa, fazes o que eu digo": Ainda funciona?
Um artigo da autoria da psicóloga Vera de Melo aborda a complexidade da autoridade parental e como equilibrar limites com a liberdade dos filhos.
Notícias ao Minuto | 14:09 - 01/10/2026