Grupo Volkswagen sem mãos a medir para tantas encomendas

Há boas notícias no seio do Grupo Volkswagen. A nova vaga de elétricos está a correr bem. O céu e inferno nunca estiveram tão perto.

É de loucos, eu sei. Num dia noticiamos que o Grupo Volkswagen está a fechar fábricas e a cortar 50 mil postos de trabalho e, no dia seguinte, noticiamos que o gigante alemão não tem mãos a medir. Ainda para mais nos carros elétricos, onde, supostamente — tema para outro dia… —, os europeus não são competitivos.

Podem estas duas realidades coexistir? Podem e, por incrível que pareça, são ambas verdadeiras. É aqui que o trabalho da imprensa em geral e da Razão Automóvel em particular é tão importante. A realidade precisa de contexto.

Em primeiro lugar, o Grupo Volkswagen não tem um problema de vendas. Olhando apenas para este indicador, há motivos para sorrir (parcialmente). Os produtos do grupo alemão continuam a merecer a preferência dos consumidores em todo o mundo.

O futuro das fábricas de Emden, Zwickau, Hanover e Neckarsulm a partir de 2031 permanece em aberto.

Na Europa, a Volkswagen e a Skoda lideram as vendas, num pódio que é fechado pela Toyota. Na China, onde tudo está a acontecer, a Volkswagen chegou até a liderar as vendas nos primeiros meses deste ano. Nada mau. Para uma empresa que, fazendo fé em algumas tribos que comentam nas redes sociais “já não sabe fazer automóveis”… E agora, com a nova vaga de elétricos, até há fábricas sem mãos a medir aqui na Europa.

Volkswagen ID. Polo, frente 3/4

Então e isso não chega? Não chega porque as margens estão em mínimos históricos e o contexto global é complexo com «f» — como dizem as gerações mais novas.

Já escrevi sobre isto há umas semanas, mas podemos repetir. Na Europa vendem-se menos 4 milhões de carros por ano do que em 2019 e o mercado está a ser disputado por mais concorrentes. Nos EUA, não há estabilidade nas tarifas. O que hoje é uma certeza amanhã não é. Na América do Sul, onde o Grupo Volkswagen tem uma forte operação, as marcas chinesas também estão a fazer mossa. E, finalmente, no mercado chinês propriamente dito, as vendas também estão a cair a pique. Para todos os grupos, sem exceção, incluindo as marcas locais.

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Depois, há também os desafios regulatórios, ou armadilhas políticas, como preferirem chamar. Regulamentos que mudam a uma velocidade impossível de acompanhar, metas difíceis de cumprir e decisões infundadas a vários níveis. Alguém me consegue explicar porque é que a Alemanha encerrou todas as suas centrais nucleares?

Em suma. Instabilidade, maior concorrência, custos mais elevados (energéticos, adivinhem porquê…) e crescimentos económicos tímidos são os condimentos para uma tempestade perfeita. É por isso que a Volkswagen sorri com uma lágrima no olho, como aquele emoji que usamos nas conversas de WhatsApp. Depois também houve decisões erradas, como a demora no lançamento de tecnologias de motores híbridos ou, em sentido oposto, precipitação no lançamento de elétricos.

Concordamos certamente que, por tudo aquilo que acabei de escrever, a situação da Volkswagen não se explica num título. Os tempos são complexos e não se compadecem apenas com as «gordas» dos títulos. Nesse particular, não fugirei à verdade se afirmar que a Razão Automóvel tem feito um excelente trabalho. Não ficamos pela espuma dos dias. O nosso crescimento é o melhor indicador e a melhor recompensa. Até porque, ao contrário do que muitos pensam, o interesse pelos automóveis não esmoreceu. Aliás, nunca se produziu e consumiu tanto conteúdo sobre automóveis em Portugal. Por isso, até para a semana.

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