Mas não são as únicas. Fernando Carrilho recorda que situações semelhantes ocorreram em Arraiolos e em Sines: as falhas já lá estavam, naturalmente, mas não eram conhecidas como estruturas capazes de produzir sismos. Não apresentavam um traço claro à superfície. Foram os próprios abalos que as denunciaram. A de Arraiolos com o sismo de 2018 e a de Sines com os vários abalos entre 2024 e 2025.
É esse o ponto de partida para a investigação que se segue: encontrar, ou pelo menos delimitar melhor, a estrutura que se moveu sob Évora.
Está no sistema da falha de Arraiolos?
A zona sísmica mais conhecida do Alentejo interior fica a norte de Évora e abrange Arraiolos, Azaruja, Mora e Ciborro. Foi ali que ocorreu, a 15 de janeiro de 2018, um sismo de magnitude 4,9, sentido em grande parte do território continental, seguido por várias réplicas.
Já o epicentro, preliminar, do abalo desta quarta-feira encontra-se a sul de Évora. Questionado pelo Observador sobre a existência de uma continuidade estrutural entre o sismo de 2018 e o atual, Fernando Carrilho é taxativo. “Em termos mapeados, em termos de neotectónica? Não.” Nada a ver? “Nada, nada.”
Isto não significa que as duas zonas vivam em mundos tectónicos separados, mas sim que não existe uma falha cartografada que ligue os dois locais, nem evidência de que o sismo desta quarta-feira tenha ocorrido numa extensão da estrutura de Arraiolos. “Faz parte do sistema de falhas do Alentejo, certamente”, esclarece Carrilho. “Mas não temos nada mapeado à superfície que corresponda à origem deste sismo.”
A distinção é importante. O Alentejo não é atravessado por uma única falha contínua, como uma racha bem desenhada numa parede. A crosta é cortada por estruturas de diferentes idades, dimensões e orientações. Algumas cruzam-se, outras terminam, dividem-se em segmentos ou desaparecem sob camadas de sedimentos. E muitas foram formadas em épocas geológicas muito anteriores à atual configuração da Península Ibérica.
Podem todas estar sujeitas ao mesmo campo regional de tensões e, apesar disso, movimentar-se separadamente. Arraiolos será uma estrutura, a falha que provocou o sismo a sul de Évora poderá ser outra. O motor tectónico é seguramente o mesmo; a peça da crosta que cedeu pode não ser.
Então é uma nova falha?
Nova para os mapas, seguramente, mas nova do ponto de vista geológico, quase de certeza que não. “É uma falha desconhecida neste sentido: já existe há muito tempo, certamente, mas não está reconhecida à superfície”, explica Fernando Carrilho.
Dizer que o sismo “criou” uma falha seria enganador, porque a hipótese mais razoável é que tenha reativado uma estrutura antiga, já instalada na crosta, mas enterrada ou sem expressão reconhecível no relevo. Pode ter centenas de milhões de anos, o movimento é que aconteceu agora.
É assim que ocorrem muitos sismos intraplaca: a crosta conserva cicatrizes de colisões, separações de continentes, levantamento de montanhas e abertura ou fecho de antigos oceanos. Essas cicatrizes podem ficar imóveis durante períodos enormes. Depois, quando o campo de forças muda ou a tensão acumulada ultrapassa a resistência das rochas, uma delas volta a deslizar.
“Falhas preexistentes podem sofrer movimentação devido à acumulação destas tensões”, diz Fernando Carrilho. Em último caso, admite, as forças tectónicas também podem criar novas fraturas. Mas, estando Évora afastada da fronteira entre as grandes placas, essa não é a explicação mais provável. “A explicação mais razoável será reativar falhas preexistentes”, conclui.
Não se conhece ainda a geometria da estrutura. Nem a sua extensão ou orientação. Nem se o sismo resultou do movimento de uma única falha ou de uma pequena rede de fraturas em profundidade. Por enquanto, a prova da sua existência é o próprio sismo.
Mas já havia sismos naquela zona?
Sim. O abalo desta quarta-feira não ocorreu num ponto completamente quieto. “Nos últimos anos têm ocorrido vários sismos naquela zona, sempre de magnitudes pequenas”, afirma o chefe da Divisão de Sismologia do IPMA. Os focos são relativamente profundos e, por isso, tornam mais difícil estabelecer uma ligação direta com estruturas observáveis no terreno.
Este detalhe muda a leitura do episódio desta quarta-feira. O sismo de magnitude 3,7 não revelou que a região começou subitamente a tremer. Mostrou, com mais força do que os abalos anteriores, uma atividade que já existia e que ainda não foi associada a uma estrutura geológica bem caracterizada. A 15 de dezembro de 2025, o IPMA registou outro sismo, de magnitude 3,5, também descrito como tendo o epicentro a cerca de dez quilómetros a sul de Évora. Em outubro, um abalo de magnitude 2,5 tinha sido localizado a oeste-sudoeste da cidade.
Isto não basta para concluir que todos ocorreram na mesma falha. As referências divulgadas nos comunicados do IPMA são arredondadas: dois epicentros apresentados como estando “dez quilómetros a sul de Évora” podem, na realidade, ficar separados por vários quilómetros. Também podem ter profundidades diferentes ou resultar de movimentos com orientações distintas.
Será necessário comparar as coordenadas finais, as profundidades, os erros associados às localizações, a distribuição de pequenos sismos em redor e, quando os dados o permitirem, os respetivos mecanismos focais. O mecanismo focal funciona como uma espécie de impressão digital do sismo. Ajuda a perceber em que direção se moveu a falha e que tipo de movimento ocorreu: compressão, extensão ou deslizamento lateral. Sem essa informação, uma semelhança no mapa pode enganar.
A placa africana está a empurrar-nos?
De forma simplificada, sim. É, na verdade, o motor regional desta história. A Terra não tem uma crosta única e imóvel, como sabemos. A superfície está dividida em grandes placas tectónicas e em blocos menores, descritos como microplacas. Estas peças deslocam-se lentamente sobre materiais mais quentes e deformáveis do interior do planeta.
A Península Ibérica faz parte da placa euroasiática, mas encontra-se perto de uma das fronteiras tectónicas mais complexas do planeta. A sul e a sudoeste, a placa africana aproxima-se lentamente da Eurásia. Entre os Açores, Gibraltar e o norte de África, essa convergência não se concentra numa linha simples. Distribui-se por uma zona larga, feita de falhas, blocos e estruturas que acomodam o movimento de formas diferentes.
Daí a dificuldade em desenhar uma fronteira limpa no mapa. Não é como encaixar duas peças de um puzzle: há setores onde uma placa desliza lateralmente em relação à outra, há zonas de compressão, estruturas submarinas deformadas e blocos mais pequenos que também se movimentam.