O espaço que acolhe o popular Boom Festival abriu as portas, pela primeira vez, para o Dia da Boomland. A repórter fotográfica Lucília Monteiro esteve lá e conta-nos como foi
Este sábado foi um dia diferente na Herdade da Granja, em Idanha-a-Nova. Longe da intensidade dos grandes dias do Boom Festival, o primeiro Dia da Boomland abriu as portas à comunidade e mostrou uma outra face deste espaço: tranquila, verde, próxima das populações e convidativa a simplesmente caminhar, conversar e contemplar a natureza.
Ao longo do dia, houve também atividades para descobrir e experimentar, entre elas oficinas de dança indiana e de cestaria costurada em espiral.
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Cerca de mil pessoas passaram pela propriedade. Num espaço com aproximadamente 180 hectares, porém, quase não se sentia a presença de tanta gente. Havia famílias a passear, crianças a descobrir a herdade, grupos de amigos à conversa e visitantes que escolheram um recanto para fazer um piquenique e desfrutar da paisagem.
Muitos vieram movidos pela curiosidade. Conheciam o Boom Festival de nome, das imagens ou das histórias contadas por quem já lá tinha estado, mas nunca tinham entrado na propriedade.
Foi o caso de Dona Maria Antónia, Lena, Paulo Faria e José Afonso, vindos do Ladoeiro, a terra da melancia, como fizeram questão de dizer com orgulho. Vivendo tão perto, queriam finalmente descobrir aquele lugar de que tanto ouviam falar e conhecer o trabalho de recuperação da herdade, onde, ao longo dos anos, cresceram árvores e plantas e onde a natureza ganhou uma presença cada vez mais evidente.
A surpresa foi imediata. “Tem muitas árvores, cresceram tanto… Há plantas novas. Está bonito”, comentavam enquanto percorriam a propriedade.
Também houve uma descoberta humana. O estilo de vestir de muitos dos jovens ligados ao Boom despertava-lhes curiosidade e confessaram que a experiência contrariou algumas ideias que tinham anteriormente. “Nunca imaginávamos que fossem tão educados e simpáticos”, comentavam, satisfeitos com a forma como foram recebidos.
Mais à frente, um grupo de amigos da Covilhã também aproveitava o dia para conhecer a Herdade da Granja. Gostaram de tal maneira da experiência que já faziam planos para regressar: “Para o ano estamos cá no festival. É tudo muito bom!”
O passeio pela Boomland também passou pelos sabores da região. Quem tinha feito previamente a sua reserva pôde almoçar na cantina, onde o chef Miguel Rocha Vieira preparou uma refeição inspirada nos produtos e sabores locais.
Foi um dos momentos especiais do dia: depois de percorrerem a propriedade, os visitantes encontraram à mesa uma ligação entre a cozinha, a terra e aquilo que a região produz. O ambiente descontraído, a organização e a simpatia da equipa da cozinha, gerida por Paulo Santos, com as suas duas colaboradoras, Cláudia e Lucica, ajudaram a completar a experiência.
Mais do que servir uma refeição, a intenção foi também aproximar quem chegava à Boomland da identidade gastronómica da região.
Para Artur Mendes, cofundador e membro da direção da IdanhaCulta, esta primeira experiência serviu igualmente para perceber como a população reagiria à abertura da propriedade.
O balanço foi positivo e deixou vontade de repetir a iniciativa. Artur Mendes destacou a importância de juntar pessoas de diferentes freguesias e localidades do concelho, como Idanha-a-Nova, Ladoeiro, Zebreira, Monsanto e Penha Garcia, reforçando a ligação entre cultura, arte e os públicos da região.
Essa aproximação à comunidade é, aliás, uma das ideias que atravessou todo o dia: abrir um lugar conhecido internacionalmente pelo Boom Festival às pessoas que vivem mesmo ao lado e que, em muitos casos, nunca tinham tido oportunidade de o conhecer desta forma.
A presidente da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, Elza Gonçalves, salientou a importância do projeto para a região e para a projeção do concelho. Na sua intervenção, destacou a ligação entre cultura, natureza, ambiente e sustentabilidade, bem como a capacidade de iniciativas deste género atraírem pessoas de diferentes lugares, dando simultaneamente visibilidade a Idanha-a-Nova.
Entre os visitantes e representantes presentes encontravam-se ainda elementos de várias entidades públicas e privadas, entre elas a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, a Proteção Civil, os bombeiros, o ICNF, a Agência Portuguesa do Ambiente, a Universidade da Beira Interior, a Universidade Politécnica de Castelo Branco, as Águas de Monfortinho e a União de Freguesias de Castelo Branco.
João Neves, da Universidade Politécnica de Castelo Branco, chamou a atenção para o caminho já percorrido e para a importância das parcerias construídas com a Boomland. Na sua perspetiva, essas relações podem abrir novas possibilidades formativas e ajudar a criar uma ligação ainda maior entre o projeto, a região e a comunidade.
Também Ricardo Machado, empresário das Águas de Monfortinho, falou da importância de dar a conhecer Idanha-a-Nova e Monfortinho a quem chega através do Boom. Para o empresário, iniciativas como esta podem ajudar os visitantes a descobrir outros lugares do concelho, contribuindo para o turismo e para a economia regional.
A dimensão ambiental esteve igualmente presente. Teresa Álvares, administradora regional da Agência Portuguesa do Ambiente, sublinhou o respeito demonstrado pelo território, pelo ambiente e pelos recursos hídricos.
É precisamente na paisagem que se percebe uma parte importante da transformação da Herdade da Granja. Quem já conhecia a propriedade reparava no crescimento das árvores e da vegetação; quem entrava pela primeira vez encontrava um espaço muito diferente da imagem de multidão, música e grandes estruturas normalmente associada ao Boom Festival.
Naquele dia, não eram os grandes palcos que chamavam a atenção. Eram as árvores, os caminhos, a água, as plantas, os animais, os espaços recuperados e a dimensão da própria herdade.
Talvez tenha sido essa a maior surpresa deste primeiro encontro: descobrir que a casa do Boom Festival também pode ser um lugar de silêncio.
E houve encontros improváveis: moradores mais velhos da região conversaram com jovens ligados ao universo Boom; pessoas que nunca tinham ido ao festival conheceram quem o organiza; visitantes descobriram os produtos e sabores locais; e instituições, empresas, universidades e comunidade encontraram-se no mesmo território.
No final do dia, entre o concerto de Viola Beiroa e um DJ set de world music, ficou sobretudo uma vontade de continuidade.
Para a organização, esta primeira abertura mostrou que a Boomland pode ser também um ponto de encontro com as populações vizinhas, aprendendo com quem conhece e vive diariamente o território.
E, para muitos visitantes, ficou uma imagem talvez inesperada da Herdade da Granja: um enorme espaço verde onde, mesmo com cerca de mil pessoas a passear, ainda era possível encontrar silêncio, sentar-se debaixo de uma árvore e simplesmente contemplar a paisagem.
Foi, acima de tudo, um dia zen na Boomland, entre natureza, sabores da terra e pessoas que, sendo vizinhas há tantos anos, finalmente se conheceram um pouco melhor.