História de Ceuta desde que passou a ser espanhola

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E o resto é história.

É apenas fumaça.

Dominando em Coimbra, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Entende?

Não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais este episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Na semana passada nós falamos da história de Ceuta, mas ela é tão rica e fascinante que não coube apenas em um episódio. Por isso, cá estamos de novo. Há oito dias nós estivemos a conversar longamente sobre a Ceuta até a segunda metade do século XVII, quando ela ainda fazia parte do Reino de Portugal e ficou prometido para hoje cobrir os últimos 350 a 400 anos da história de Ceuta, quando ela passou a ser espanhola. Rui, deu para ver no último episódio que tu te entusiasmaste mesmo muito a estudar a história daqueles 18 ou 19 quilômetros quadrados de terra africana.

O meu interesse não depende da área em que estão.

Não tens temas favoritos?

Não é por área.

O teu coração é atração.

Não há áreas suficientemente pequenas para...

Para todo o teu interesse. Exatamente, estou a ver. Tu consegues fazer grandes episódios mesmo de poucos metros quadrados.

Com territórios pequenos.

De poucos metros quadrados, certíssimo. E este, de fato, é muito pequeno, 18, 19 metros quadrados. Quilômetros quadrados. Desculpa, quilômetros quadrados, mas tu um dia vais chegar aos metros.

Exato. Esperemos.

O que eu te perguntava é se aquilo que nos tens para contar hoje sobre a Ceuta espanhola é tão fascinante como aquilo que nos contaste sobre a Ceuta portuguesa.

Eu aqui deveria ser patriota e dizer: claro que não.

Nada é tão bonito.

Como é que uma história sem os portugueses podia ser tão interessante?

Sem a bandeira portuguesa. Não pode ser tão bonita.

Mas é interessante. Não só a história da Ceuta espanhola, mas a história também do reino de Marrocos, de que é preciso falar para perceber a Ceuta espanhola. E Marrocos provavelmente é um país de que nós, em geral, não conhecemos muito a história, mas acontece ser o segundo país geograficamente mais próximo de Portugal. Um voo a Madrid leva 1h20, um voo a Casablanca leva 1h30, portanto, praticamente estão à mesma distância, mas não estão à mesma distância em termos de atenção. E talvez valha a pena aproveitar esta ocasião então para falar um bocadinho também da história de Marrocos.

Então, mas estávamos em 1640, não é?

Vamos fazer o ponto da situação. Portanto, em 1640, há a restauração em Portugal, o Duque de Bragança, Dom João, é aclamado Rei de Portugal, fica a ser Dom João IV.

Atiramos espanhóis pela janela.

Espanhóis não, por acaso foi um português.

É verdade. É um traidor. Mas não houve ninguém a ser lançado pela janela em Ceuta.

Não, os comandantes da praça de Ceuta, portugueses, decidiram permanecer fiéis àqueles que para eles eram o rei de Portugal, Filipe III de Portugal, o IV de Espanha. A situação ficou assim e em 1668...

E relembra lá porque é que eles gostavam mais de espanhóis do que dos portugueses.

Por várias razões. Por um lado, porque as famílias que dominavam em Ceuta tinham bastantes interesses.

E Espanha ficava mais perto.

E talvez algumas razões de queixa do Duque de Bragança, futuro Dom João IV, e também porque Espanha ficava muito mais perto e já era muito importante na manutenção de Ceuta, em termos de abastecimentos e da defesa de Ceuta.

Portanto, em 1640 ficaram do lado de Espanha, mas na verdade não ficou logo aceite em papel.

Não ficaram do lado de Espanha, ficaram ao lado do rei de Portugal, que era rei de Espanha também. Foi em 1668 que verdadeiramente Ceuta deixou de ser portuguesa. Quando o rei de Espanha reconheceu a separação do Reino de Portugal, portanto, a independência portuguesa, Portugal, ao fim de 28 anos de guerra, nesse tratado de paz, cedeu a praça de Ceuta à Espanha. Portanto, foi então, em 1668, que verdadeiramente passou a ser espanhola.

Só para esclarecer os nossos ouvintes, que não é tipo Olivença, é oficialmente espanhola. Foi reconhecido.

Foi cedido por tratado à Espanha.

Só ficaram com uma bandeira muito parecida com a de Lisboa.

O que ficaram foi com a bandeira de Lisboa, com as armas portuguesas. O que é que ficou a ser a Ceuta espanhola? Basicamente, o que era antes no tempo dos portugueses. Portanto, é uma pequena cidade na costa, muralhada, com dois ou três milhares de moradores e a maior parte desses moradores ou residentes são militares e as suas famílias.

Certo. Até porque não houve muita mudança. Também não houve muita descontinuidade.

Acabou por haver depois descontinuidade ao longo do tempo da população. Aquilo tornou-se cada vez mais espanhol, depois eram espanhóis. Ceuta não era a única praça espanhola no norte de África. A Espanha tinha também Melilla.

E ainda tem.

Tinha conquistado em 1497, fica bastante distante de Ceuta, fica a 250 km de distância de Ceuta, por mar. Fica também mais distante da Península Ibérica do que Ceuta. Ceuta fica a 20 km de distância da Península Ibérica, Melilla fica a 180. E além disso, além destas duas praças, cidades, vamos dizer assim, Espanha tinha também, e depois até aumentou um bocadinho ao longo do tempo, um cordão de pequenas ilhas ou de promontórios rochosos na costa, sobretudo mediterrânica do atual Marrocos. Portanto, eram tudo pontos fáceis de defender e de abastecer por mar, onde por vezes tinha pequenos fortes com guarnições militares, e fundamentalmente eram quatro. Portanto, além de Ceuta e de Melilla, havia essas quatro que os espanhóis chamam de praças de soberania, e que são o Peñón de Vélez de la Gomera Que tem espanhol desde 1508, é uma coisa pequenina, 1,4 km quadrados. São tudo coisas muito pequeninas. Além deste penhor de Belés de Lago Homera, tem o penhor de Alhucemas, que além do penhor de Alhucemas, tem mais duas ilhas. Tem esta fortaleza desde 1559 e depois, mais tarde, no século XIX, vem juntar as chamadas Ilhas Chafarinas, que são três ilhas, até já muito perto da Argélia, e que são também praças de soberania espanhola.

Mas havia lá gente a viver, é isso? Pouca gente, mas alguma gente, é isso?

Por vezes, por exemplo, numa outra também considerada praça de soberania, que é a ilha de Perejil, que está associada a Ceuta, é desocupada, não tem lá ninguém, mas é considerada também parte disto. E nestas ilhas, algumas não, algumas não têm nada, outras têm umas dezenas de militares espanhóis. Vai dependendo ao longo do tempo o número que lá está.

E hoje alguma destas coisas é espanhola?

Sim, são todas espanholas ainda. Estas praças de soberania, eu só estou a falar das praças de soberania que ficaram sempre espanholas.

Ou seja, hoje em dia, além de Ceuta e Melilha, que toda a gente sabe, ainda há mais umas ilhotas.

O penhão de Vélez de La Gomera, o penhão de Alhucemas, as Ilhas Chafarinas, a ilha de Perejil, são todos espanhóis. Para imaginarmos a situação de Marrocos é como na costa portuguesa as Berlengas serem inglesas ou uma coisa qualquer assim. São ilhas muito próximas da costa marroquina, mas que são praças de soberania espanhola. E há séculos, não é uma coisa do século XIX, da época do colonialismo moderno. Agora, as praças do norte da África, durante muito tempo, não são uma grande prioridade espanhola. A grande prioridade espanhola em relação aos muçulmanos não é o norte da África, é durante muito tempo a própria Espanha, uma vez que no fim do século XVI, por exemplo, um terço da população de Valência é muçulmana, Valência, em Espanha. Um quinto da população de Aragão ainda é muçulmana, portanto os castelhanhos e os aragoneses tinham conquistado o reino de Granada no fim do século XVI, mas tinham ficado centenas de milhares de muçulmanos ainda em Espanha. Isso é um problema para a Espanha. É um problema porque estão constantemente a suscitar revoltas. Há o receio de que eles possam entrar em alguma aliança, essas comunidades muçulmanas espanholas, com os otomanos, que são os rivais da Espanha no Mediterrâneo, no século XVI e no século XVII. E no princípio do século XVII, o governo de Espanha decide, aliás, isso vai decorrer entre 1609 e 1614, a deportação dos muçulmanos. Portanto, 300 mil muçulmanos são deportados de Espanha para o norte de África. É uma espécie de limpar.

Mas não vão pra Ceuta.

Vão pra todos os lados no norte de África. Tetuão, por exemplo, é basicamente uma cidade andaluza, isto é, do Andaluz, como os muçulmanos chamavam a Península Ibérica. Eles vão ter uma importância muito grande no que é hoje Marrocos. Aliás, há muitas famílias marroquinas ainda hoje que têm a memória de terem vindo da Península Ibérica, até pelos nomes deles, que às vezes fazem lembrar nomes espanhóis, por exemplo, Torres, Turris, Al Turris, Torres. São famílias originárias da Península Ibérica. Esta é a preocupação da Espanha, não é tanto conquistar Marrocos nem fazer nada com essas coisas, é sobretudo no princípio do século XVII, expurgar a população de muçulmanos. A tranquilidade de Ceuta e das fortalezas e das praças de soberania espanholas dependeu muito da evolução política em Marrocos. No princípio do século XVII, já dissemos aqui, quase todo o Marrocos era governado pelo sultão Almançor, o vencedor de Alcácer-Quibir em 1578. Almançor tentou manter-se independente entre os espanhóis e os otomanos, o que quer dizer que no seu tempo, Ceuta esteve mais ou menos descansada, ainda no tempo português, mas já sob Filipe II, o rei de Portugal sendo Filipe II, portanto Ceuta está descansada. Quando Almançor morre no princípio do século XVII, a monarquia dos Sádida, isto é da dinastia de que Almançor fazia parte, os Sádidas, a monarquia dos Sádidas desfez e Marrocos entrou numa espécie de anarquia outra vez, como tinha estado durante uma grande parte do século XVI, guerra civil, as tribos a competirem entre si, vários candidatos a sultão em várias cidades, Marraquexe, Fez, toda gente tinha um candidato a sultão. Finalmente, aparece uma nova família que vai constituir uma nova dinastia, que é a dinastia dos Alauitas. Estes Alauitas, há um sultão, alguém que se propõe ser sultão e que acaba por, em meados do século XVII, entre 1666 e 1668, consegue conquistar Fez e Marraquexe, que são as duas principais cidades de Marrocos. Os Alauitas são uma família árabe, não são berberes, são árabes, ao contrário de outros sultões, outras famílias de sultões marroquinos mais antigos. Estes são árabes, tal como os Sádidas. É uma família árabe de sharifs, isto é, descendentes do profeta Maomé, sharif em árabe quer dizer nobre ou elevado, não tem nada a ver com o xerife inglês, quer dizer chefe de distrito.

E dos cowboys também.

Não tem nada a ver com isso. É uma família de sharifs que tinha vindo para Marrocos Provavelmente nos séculos XII ou XIII tinha-se estabelecido em Marrocos. Nos séculos XII ou XIII, no século XVII torna-se a família dos sultões-

E as alauítas são mais agressivas para com Espanha.

Os alauítas ainda hoje são a dinastia reinante em Marrocos. Sim, os alauítas são muito mais hostis aos cristãos, à presença cristã do que tinham sido os sadis. Enfim, os sadis também tinham sido, mas em termos de Espanha tinham estado mais acordados. Os alauítas também vão recusar a tutela otomana, portanto eles não querem ficar na dependência dos otomanos, que controlavam nominalmente uma grande parte do norte de África, o atual Egito, a Líbia, a Tunísia, uma parte da Argélia estava mais ou menos sob o controlo ou sob a suzerania, às vezes bastante vaga, dos otomanos. Marrocos tentou evitar a tutela otomana, mas também tenta com os alauítas livrar-se das fortalezas europeias, sobretudo Ceuta e Melilha, basicamente porque a guerra santa contra os cristãos era uma forma também destes sultões unirem as várias tribos e até as desviarem de conflitos internos para um conflito externo. E portanto entre 1694 e 1727, isto é, durante 30 anos, Ceuta esteve sob permanente ataque dos marroquinos. Cercada, bombardeamentos de artilharia, ataque constante, é o mais longo cerco da história, esteve cercada por um exército marroquino, ataque permanente. O cerco só acabou quando o sultão Ismail morreu, quando o sultão que estava ali à frente morreu, e Marrocos caiu outra vez numa guerra civil, mas entretanto outra alauíta conseguiu unir outra vez Marrocos.

Mas quanto a isso, esteve sob ataque, mas nunca conquistada.

Nunca conquistada, sempre sob ataque, por isso é que esteve 30 anos sob cerco. E acabou quando o Ismail morreu. Em 1790, 91, já no fim do século XVIII, novo cerco, um novo ataque enorme de um novo sultão, o Yazid. É um ataque que obriga a Espanha a deslocar cerca de 12 mil soldados para Ceuta para defender Ceuta. Portanto, Ceuta esteve sob bombardeamento de artilharia, cercada, etc. E portanto, durante este tempo todo, isto é, no fim do século XVII, princípio do século XVIII, e agora muito certamente os portugueses que olhavam para a situação de Ceuta deviam ter pensado: "Que ótimo que foi nós termos livrado disto."

Não estamos a ficar aqui.

Aliás, Portugal saiu de Mazagão em 1779 e imagina Ceuta. É verdade que podíamos pensar: bem, se os portugueses estivessem em Ceuta, talvez também tivessem abandonado Ceuta. Ceuta tinha uma importância que Mazagão não tinha. Talvez tivessem resistido em Ceuta, mas teria sido certamente um esforço gigantesco para Portugal defender Ceuta e com maiores dificuldades até com Espanha. Espanha tinha ali uma pequena distância, 20 quilómetros de mar para chegar a Ceuta. Se a praça tivesse sido portuguesa, teria sido muito mais difícil mantê-la perante estes ataques muito persistentes destes sultões alauítas de Marrocos.

Ok, muito bem. Terminou aqui esta nossa primeira parte. Nós voltamos já a seguir. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar de Ceuta, mas no tempo em que deixou de ser portuguesa e que já é espanhola, até ao presente. Ainda estamos um pouco longe do presente. Tu estavas a dizer que tinha chegado uma nova dinastia a Marrocos e que ela era mais hostil a Espanha e que basicamente Espanha esteve cercada durante muito tempo e constantemente atacada. Diz-me só uma coisa, porque tu no último programa explicaste bem a importância histórica que Ceuta tinha para Portugal, mas não tinha para Espanha ou tinha? Porquê tanto esforço?

Tinha uma importância estratégica. Isto é, era uma forma de controlar o Estreito de Gibraltar e portanto controlar as passagens do Atlântico para o Mediterrâneo, era muito importante. Enfim, os espanhóis ainda nessa altura, até o princípio do século XVIII ainda tinham Gibraltar, mas tendo Ceuta tinham as portas do Mediterrâneo nas suas mãos, era uma coisa muito importante e depois era uma questão de prestígio também. Ceuta tinha voltado a ser cristã, porque já tinha sido cristã antes da invasão e ocupação muçulmana, tinha voltado a ser cristã em 1415 e havia uma relutância de serem os espanhóis a perder agora uma praça da cristandade no norte de África. Agora, a verdade é que a Espanha não pôde fazer muito em Marrocos durante os séculos XVII e XVIII. Nestes séculos, são séculos que a Espanha atravessa começando a perder as receitas que tinha da América, isto é, tornam-se cada vez menos importantes devido ao esgotamento das minas de prata na América, que tinha sido a grande fonte de receita da monarquia espanhola no século XVI. Há quebras de população, a população diminui, há epidemias de peste em Espanha, há muita inflação, portanto uma grande desorganização financeira. No princípio do século XVIII, a Espanha é mesmo palco de uma guerra entre as potências europeias. Cada potência europeia tem um candidato diferente à coroa de Espanha, uma vez que os Habsburgos acabaram. Foi a guerra da sucessão de Espanha. A Espanha deixou de ser uma grande potência para passar a ser um território de disputa entre as grandes potências europeias e depois, no princípio do século XIX, foi outra vez palco de guerras entre as potências europeias, nesse caso entre a França e a Inglaterra, devido à invasão francesa, que leva também à perda do império americano da Espanha. E nesta altura, por exemplo, Ceuta é ocupada pelos ingleses. Entre 1810 e 1815, Ceuta é ocupada pelos ingleses, já tinham Gibraltar, ocupam também Ceuta.

Por causa das tropas napoleónicas.

A Espanha está ocupada pelos franceses e eles receiam que os franceses depois também se apossem de Ceuta. Portanto, durante estes séculos, Ceuta não muda. Em 1800 é a mesma praça militar de 1600, de 200 anos antes, do tempo dos portugueses, devia ter a mesma população, uns 3000 residentes, na maior parte militares, e as coisas só começam a mudar em meados do século 19. Como eu disse há pouco, a costa do norte da África, do Egito a Marrocos, está sob a soberania teórica do sultão otomano, de Constantinopla, mas na prática, o que vai acontecendo, sobretudo no século 19, é que estes governadores otomanos vão se tornando independentes do Egito, na Tunísia, na Argélia, e vão passando a ignorar quaisquer instruções ou qualquer autoridade do sultão em Constantinopla. O que se vão constituir aqui são ninhos de piratas. Argél é um dos grandes ninhos de pirataria no Mediterrâneo e é também um grande mercado de escravos, isto é, de gente que é capturada na Europa e depois é vendida como escravos nestas praças do norte de África. E isso leva, em 1830, a uma intervenção da França no norte de África. E precisamente a França conquista Argél para pôr termo à pirataria magrebinana no Mediterrâneo e a partir dessa conquista da cidade de Argél começa a ocupar e a conquistar nos anos seguintes aquilo que vem a ser a Argélia. Isto é uma colônia francesa.

Mas tudo por causa da pirataria, essencialmente?

A pirataria é gravíssima. As pessoas não fazem ideia do que isto era.

É que nós temos aquela ideia de que piratas é o Errol Flynn e o Capitão Drake.

Isso são centenas de barcos piratas que-

No século 19

No princípio do século 19 que andam à volta das costas europeias a caçar gente, a roubar barcos, a assaltar barcos. Isto era insuportável.

E não acabou no século 19.

Os próprios Estados Unidos fazem uma intervenção no Mediterrâneo por causa da pirataria, de ataques a barcos americanos, que eles consideram demais e também atacam o norte de África. Toda a gente constantemente mandava barcos para o norte de África para atacar estes postos, claro que eles fugiam e voltavam depois a fazer a mesma coisa. Isto era uma coisa absolutamente insuportável.

Era um enxame.

E a França vai conquistar, a Inglaterra também vai estabelecer depois um protetorado sobre o Egito. Digamos que o norte de África começa a ser ocupado pelas potências europeias. A Espanha não tem os meios da França, também não tem os meios da Inglaterra, mas tem razões também para se voltar a interessar por Marrocos no século 19. São três razões, basicamente. A primeira é que também tem de se defender de ataques marroquinos. No caso da Espanha, é o problema de autoridades religiosas marroquinas que pregam a guerra santa por causa até da Argélia, mas que depois têm como alvo, sobretudo, Ceuta. Por exemplo, Ceuta é atacada em 1844, em 1845, em 1848, através de jihadas, isto é, de guerras santas, que são estimuladas pela invasão francesa da Argélia, mas que de facto, aqueles que estão em Marrocos dizem: "Vamos fazer guerra aos europeus."

Mas quando diz atacada é o quê? Bombardeamentos e essas coisas?

Artilharia. Sim, os marroquinos têm acesso à tecnologia de tipo europeu, quer através dos otomanos, quer através de potências europeias que lhes fornecem armamento. Por exemplo, a Inglaterra durante muito tempo apoia Marrocos, oferece espingardas.

Canhões.

Canhões, essas coisas todas. Nós estamos a falar de arcos e flechas. Aliás, eles já desde o século 16 eram ótimos a usar armas de fogo. Uma das vantagens que eles tiveram em Alcácer-Quibir é que tinham muito mais armas de fogo do que os portugueses, o que lhes deu a vantagem sobre o exército português em 1578. Eles eram muito mais expeditos a usar armas de fogo, isso vinha dos otomanos. Os otomanos também eram dos grandes especialistas a usar armas de fogo em combate e tinham treinado e ajudado os marroquinos a adquirir isso. Mas Espanha tem essa primeira razão que é defender as suas praças de soberania destes ataques marroquinos. E depois tem um outro problema que é defender também uma área de influência, porque os franceses, assediados por gente que vem de Marrocos e que os vai incomodar na Argélia, acabam também por começar a entrar em Marrocos, como em 1844, por exemplo, uma expedição francesa para punir o apoio que os marroquinos estavam a dar àquilo que os franceses considerariam os rebeldes argelinos. A Espanha começa a ver que a França está na Argélia, a pouco e pouco vai deslizar para Marrocos. Isso nós não fizemos nada. Marrocos vai se tornar uma zona também de ocupação francesa. Os ingleses também têm outra forma de entrar, através, por exemplo, de tratados comerciais. Eles fazem um tratado comercial com o sultão de Marrocos em 1856, mais uma vez os espanhóis a verem outra potência europeia a entrar em Marrocos. E finalmente, a Espanha tem uma outra razão, que é o século 19 espanhol, a primeira metade e até uma parte da segunda metade também, é de conflitos políticos em Espanha Há muitas guerras civis e uma expedição militar a Marrocos funciona como uma guerra santa em Marrocos para uma forma de unir os espanhóis para um objetivo externo. É isso que faz um governo liberal, que é o governo do general Leopoldo O'Donnell. É uma situação política, é um governo entre 1858 e 1863. O O'Donnell é um general espanhol. O espanhol O'Donnell. O'Donnell, sim. Os espanhóis têm muita gente de fora, porque isto era uma monarquia europeia, continental, e há muita gente com nomes estrangeiros, sobretudo militares, de famílias que já eram espanholas, mas que tinham vindo pra Espanha ou serviam os reis de Espanha há muito tempo. Mas o general O'Donnell faz um grande esforço para unir os vários liberais em guerras civis e uma das ideias dele é esta expedição militar a Marrocos em 1859, 60. A Espanha envia cerca de 50 mil soldados, é uma expedição muito grande. Aquilo que eles fazem é conquistar Tetuã, que é uma das cidades importantes, a cidade mais importante do norte de Marrocos. É a primeira nova conquista ibérica no norte da África em 300 anos, desde o século XVI não se tinha conquistado nada. Onde é que fica Tetuã? Tetuã fica no norte de Marrocos. É a cidade mais importante do norte de Marrocos, não fica ao pé de Ceuta, mas nessa zona lá em cima. E depois é Fez, que fica mais abaixo, e Marraquexe, que fica mais no sul de Marrocos. A expedição, curiosamente, é um desastre em termos de baixas, porque os espanhóis tiveram 4 mil mortos, quase 8% do corpo expedicionário. A maior parte, como é costume nestas aventuras militares desta época, morre de doenças, de cólera, sobretudo, mas encantou o público espanhol. Os espanhóis acharam aquilo incrível. Estavam outra vez a conquistar coisas fora de Espanha. Os espanhóis não ficaram com Tetuã, acabaram por devolver ao sultão, mas o sultão, em troca, reconheceu a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilha. Foi num tratado de 1860, o sultão de Marrocos reconheceu que Ceuta e Melilha eram espanholas, eram praças espanholas e a partir daí acabaram os ataques, acabaram os cercos. Portanto, desde 1860. 1860. Acabaram os ataques- Mais tarde houve problemas, mas no século XIX fica mais calmo. Aliás, nesta altura, o mais importante desta expedição de 1860 pra história de Espanha é que Marrocos começou a se tornar historicamente importante para os militares espanhóis. Esta expedição de 1860 teve como efeito dar um grande prestígio e tornar uma estrela em Espanha um dos generais espanhóis que comandou, que foi o general Prim, e que vai tornar-se, por causa deste prestígio que ele adquiriu nesta expedição de 1860, um dos grandes orquestradores e mestres da política espanhola nos anos seguintes. E não vai ser o último general espanhol que adquire prestígio no norte da África e depois vai se tornar historicamente importante na política. Não há outro. Há um outro que nós vamos falar daqui a pouco. Agora, a Espanha não adquiriu mais nada do que esse reconhecimento da soberania pelo sultão de Ceuta e Melilha. Por quê? Porque a Inglaterra proibiu a Espanha de fazer conquistas em Marrocos. Aliás, obrigou mesmo a Espanha a devolver Tetuã. Foi precisamente a Inglaterra que disse: "Não, vocês não conquistam absolutamente nada aqui." A Espanha nunca pôde, em meados do século XIX, nunca pôde ter em relação a Marrocos as aspirações que a França tinha em relação à Argélia, de fazer da Argélia uma colônia francesa. Para Ceuta, esta guerra foi importante porque acabaram finalmente os ataques e também se alargou o perímetro das muralhas, isto é, deixou de estar apenas confinada à praça que os portugueses tinham deixado para adquirir os tais 18 ou 19 quilômetros quadrados que tem hoje, com os morros, etc. Alargou-se. Em 1863, a Espanha também fez outra coisa, deu a Ceuta o estatuto de porto livre, Ceuta e aliás também a Melilha, o que as tornou historicamente importantes para o comércio com Marrocos. Quando tu dizes porto livre, já era livre de impostos? Livre de impostos, de alfândegas livres, onde se pagava ou não se pagava, ou pagava-se muito pouco para entrar e a partir daí era um ponto de distribuição de produtos vindos da Europa, que eram consumidos em Marrocos. Isso fez com que a população evoluísse finalmente dos 3 mil que tinha em 1800, e que devia ser o mesmo que tinha em 1640, para 11 mil em 1877. Triplica durante esta época. E havia marroquinos? São quase todos espanhóis. Não, os marroquinos até 1868 são proibidos de residir em Ceuta e em Melilha. Não há marroquinos, é tudo espanhóis ou de outras nacionalidades, franceses, ingleses, gente que vai ali comerciar, etc. Certo. E foram felizes para sempre? Ainda viriam a ser mais felizes, porque as coisas voltaram a mudar no princípio do século XX. Marrocos começou a tornar-se, no princípio do século XX, objeto de atenção das várias potências europeias. O pretexto foi a revolta de várias tribos contra o sultão, isto é, de repente, Marrocos pareceu uma anarquia. E a França, que estava ali ao lado, na Argélia, aproveitou para propor ao sultão um protetorado. Isto é, do sultão tornar-se um protegido Da França. Isso foi conseguido em 1912, o sultão aceitou essa proteção. No princípio do século XX, a França não está querendo fazer de Marrocos uma colônia. A Argélia é uma colônia, Marrocos não é, Marrocos é um protetorado, o que quer dizer que o governo de Marrocos continua a ser o do sultão, mas está sob a tutela francesa em duas áreas fundamentais, que é as relações externas, quem representa externamente Marrocos é a França, e nas finanças, são os franceses que regulam as finanças do Estado marroquino. Claro, isto representa um controle quase total de soberania sobre Marrocos. Era, por exemplo, o que a Inglaterra fazia no Egito nesta altura. Há as autoridades egípcias, a administração egípcia, mas depois tem esta tutela britânica. Era também assim que a Grã-Bretanha dominava a Índia. Não era através do governo direto, era através do protetorado sob os marajás indianos. Havia os governos indianos, mas depois tutelados pelo governo britânico. Continua a haver um sultão, o sultão é que é o soberano, mas é aconselhado, entre aspas, por militares e por diplomatas franceses que dizem o que o sultão deve fazer. É óbvio que depois os franceses aproveitaram esta situação para obter favores para os negociantes franceses e empresários franceses, e também para divulgar o francês como língua de educação entre as elites marroquinas, e até hoje ainda continua a ter uma importância grande. A França, nesta altura, não pôde deixar a Espanha de fora. Não por generosidade, mas basicamente porque a Inglaterra não quis que a França ficasse com todo o Marrocos e, sobretudo, não quis que a França ficasse com o norte de Marrocos, isto é, com a parte de Marrocos que tocava imediatamente com o Estreito de Gibraltar. E a solução que foi arranjada foi haver um co-protetorado com a Espanha, isto é, uma parte de Marrocos estar sob o protetorado francês e outra parte, o norte, a costa e as montanhas do Rife, quer dizer, o norte de Marrocos ficarem sob o protetorado espanhol.

Ou seja, aí não só Ceuta e Melilha.

Não, agora é Tetuã, é toda aquela zona. A Espanha estava muito interessada nisso, porque a Espanha tinha perdido todo o resto do seu império na guerra com os Estados Unidos em 1898, isto é, Cuba, as Filipinas. Tinha provocado uma grande crise em Espanha e, portanto, a possibilidade de compensar através de uma zona de influência em Marrocos era importante, embora, claro, de maneira nenhuma estava em pé de igualdade com a França, porque a França ficou com quase todo o Marrocos, incluindo as cidades mais importantes, Fez, Marraquexe, e sobretudo com o sultão. Isto é, o sultão ficou a residir na parte francesa e depois nomeava um delegado para a parte espanhola. Esse delegado era nomeado assim: os espanhóis faziam uma lista de dois nomes e depois o sultão escolhia um deles para ser delegado. A área de influência da Espanha é à volta de Ceuta e de Melilha, digamos assim, é o norte, com as montanhas do Rife, e a importância que Ceuta e Melilha têm nesta altura é que são as bases militares a partir das quais os espanhóis vão tentar estabelecer a sua autoridade na parte de Marrocos que lhes coube como protetorado. Ora bem, o protetorado espanhol sobre o norte de Marrocos foi estabelecido em 1912 e seis anos depois, em 1918, Ceuta e Melilha ainda não tinham comunicações seguras por terra entre si. Isto dá uma ideia dos limites da ocupação espanhola. E por quê? É porque se o sultão aceitou o protetorado, as tribos das montanhas do Rife, do norte de Marrocos, não aceitaram o protetorado espanhol, aliás, também não aceitaram o protetorado francês. E as montanhas do Rife, só para dar ideia, Marrocos é um país extraordinariamente montanhoso, as montanhas do Rife no interior norte de Marrocos chegam aos 2400 metros de altura e são de difícil acesso. Já eram e ainda eram neste princípio do século XIX. São povoadas, essas montanhas do Rife, por tribos de berberes, muitos deles ainda não estão arabizados. São tribos que estavam em constante revolta contra o sultão, isto é, que já não reconheciam a autoridade do sultão e agora também não vão reconhecer a autoridade espanhola. É uma zona de constante resistência contra influências externas, estas montanhas do Rife. E é estas montanhas do Rife que os espanhóis vão ter de pacificar, como se dizia na linguagem colonial do princípio do século XX. Quando o fosso tecnológico não é assim tão grande entre as tropas europeias e estas tribos armadas. Estas tribos tinham acesso a armas modernas, a espingardas, a artilharia, e tinham também uma vantagem: como Marrocos estava dividido entre espanhóis e franceses, eles quando estavam um pouco mais aflitos com os espanhóis, fugiam pro lado francês, quando estavam mais aflitos com os franceses, fugiam pro lado espanhol. E depois, como as potências europeias geralmente eram muito mázinhas umas para as outras fora da Europa, também na Europa, mas fora da Europa também, queria dizer que os espanhóis protegiam um bocado os rebeldes do lado francês e os franceses protegiam um bocadinho os rebeldes do lado espanhol. A tática espanhola de ocupação também não ajudava a grande sucesso. O que os espanhóis começaram a fazer? Começaram a estabelecer fortes. E eram fortes de madeira Com 21 soldados cada um.

21?

É, pequenos, mas protegidos por sacos de areia e arame farpado, e que iam ficando nestas montanhas e que basicamente iam ficando isolados. Tinham de ser abastecidos de tudo, incluindo água, alimentos, munições. Portanto, estes 20 soldados estavam completamente dependentes do abastecimento, em caminhos que eram extremamente difíceis e onde os comboios de animais espanhóis eram constantemente atacados pelas tribos berberes revoltadas. Os fortes não tinham grandes comunicações entre si. Funcionava o sistema de luzes para fazer sinais para fazer coisas assim.

E fumo, não?

Provavelmente. Isso é mais índios americanos. Mas basicamente estes fortes, à medida que foram sendo colocados no terreno, iam ficando isolados uns dos outros. Portanto, de repente, a grande preocupação espanhola é abastecer estes fortes pra impedir que eles sejam conquistados e as guarnições massacradas pelas tribos berberes. O grande meio para dominar estas regiões foi sempre o de aproveitar as divisões entre as tribos. As tribos estavam divididas e em guerras, às vezes, entre si e portanto, o grande meio que tinham tido os sultões e agora as potências europeias era chegar lá e tentar estabelecer relações com umas contra as outras e ainda assim adquirindo influência no local. O que aconteceu, pra azar dos espanhóis, é que em 1921, há um chefe berbere chamado Abdel Krim. Tem uma história curiosa. Ele começou por trabalhar em Melilha, em Espanha, como tradutor, e depois como jornalista, colaborando em jornais espanhóis, etc. Foi adquirindo, portanto, uma educação europeia, e essa educação europeia veio com o nacionalismo e a vontade de se libertar da influência europeia. E em 1921, ele vai fomentar uma revolta de tribos e dar-lhes um objetivo que é a proclamação da República do Riff. Isto é, fazer uma república em Marrocos. Ele é nitidamente alguém que está muito europeizado. As suas ideias são de democracia, de socialismo, etc. É um homem desse gênero. Aliás, ele em 1924, 1925, se eu não me engano, vai pedir até o reconhecimento da República do Riff à Liga das Nações, o equivalente das Nações Unidas da altura, vai pedir que reconheçam a República do Riff. Os espanhóis tentam pôr cobro a esta República do Riff, acabar com esta revolta do Abdel Krim nas montanhas do Riff e em julho de 1921 arranjam uma grande expedição, umas dezenas de milhares de homens, a partir de Melilha, que vão tentar reocupar o Riff e pôr cobro a esta república. O que vai acontecer é que à medida que a expedição vai entrando pelas montanhas, as linhas de abastecimento vão se tornando cada vez mais longas e os rebeldes berberes vão cortando as linhas de abastecimento e em determinada altura os chefes da expedição percebem que não podem continuar a avançar porque vão ficar sem munições, sem alimentos, portanto vão ter de recuar. E como as retiradas são talvez das operações militares mais difíceis de todas, porque há sempre um risco dos exércitos se desorganizarem nas retiradas. E foi esse risco que os espanhóis correram e foi isso mesmo que aconteceu. Isto é, o exército espanhol desorganiza-se quando está a retirar, até porque está constantemente a ser atacado e a partir daí dá-se um desastre enorme. É o chamado desastre de Annual. Annual é o nome de uma aldeia a partir da qual os espanhóis começaram a retirar. As tribos do Riff caem em cima dos espanhóis. É um massacre gigantesco. A Espanha teve cerca de 13 mil mortos em duas semanas. Isto não é o Little Big Horn com 200 mortos, são 13 mil mortos. Quer dizer, só pra terem uma ideia, são três vezes mais mortos em combate do que Portugal teve em 13 anos de guerras em África entre 1961 e 1974. Os espanhóis tiveram quatro vezes isso em três semanas. Portanto, é um desastre gigantesco. As tribos do Riff ocupam toda a costa. Ceuta e Melilha ficam outra vez cercadas. Melilha é atacada pelas tribos, que aliás não conquistam Melilha pura e simplesmente porque se distraem a pilhar os subúrbios e, portanto, acabam por não conquistar a cidade. Isto causa um drama gigantesco em Espanha. É uma humilhação tremenda. Os militares acusam os políticos, os políticos acusam os militares, os militares acusam os políticos dizendo: "Não nos deram os meios necessários para a expedição militar." Os políticos, obviamente, ao entender: "Estamos rodeados de militares incompetentes que não sabem o que fazem e que foram eles que fizeram isto."

A Primeira Guerra Mundial tinha terminado há pouco tempo, tem alguma coisa a ver com isso?

Provavelmente havia muitas armas que talvez tivessem escorrido para as tribos do Riff se abastecerem com contrabando de armas vindo de todo lado. Este desastre de Annual leva ao golpe e à ditadura militar do general Primo de Rivera em Espanha. Portanto, Primo de Rivera toma o poder.

E é uma consequência direta?

Diretamente do desastre. O desastre é uma coisa Incrível. Espanha fica estupefacta e prostrada, obviamente com toda a Europa a rir-se deles, de um desastre deste tamanho no norte de África, com tribos das montanhas que conseguiram infligir uma mortandade desta. É preciso ver, por exemplo, militares espanhóis nunca recuperaram daquilo que depois quando eles voltaram ao Rife, encontrar aquelas zonas da montanha cobertas de cadáveres de espanhóis, que tinham sido todos mutilados, as cabeças cortadas, etc. Aquilo é uma coisa horrível para o exército espanhol. Primo de Rivera, com base nisso, porque obviamente os militares acusam o sistema parlamentar, o liberalismo, de negligência, de terem enfraquecido a Espanha. Primo de Rivera toma conta do poder, estabelece uma ditadura militar com a colaboração do rei Afonso XIII. Mas é curioso que em 1923, tanto Primo de Rivera como o rei Afonso XIII inclinam-se a abandonar o protetorado. A ideia deles é que a Espanha tem de abandonar o protetorado. Isto é muito custoso, é muito difícil, nós não temos meios para isto. Aliás, há muitos postos militares espanhóis que são completamente abandonados nesta altura. O que é que vai fazer diferença? O que vai fazer diferença é um pouco de excesso de Abd el-Krim. Ele torna-se uma figura famosa, é capa da Time nos Estados Unidos. De repente, era o homem que derrotou a Espanha, derrotou uma potência europeia. E depois de derrotar a Espanha, acha que pode também derrotar a França. Derrotou uma, derrota a outra e tenta entrar na zona francesa de Marrocos, tenta conquistar Fez, tenta derrubar o sultão e estabelecer a República do Rife, fazer uma república em Marrocos. E aí os franceses dizem: "já chega." Tudo bem, enquanto andou ali a massacrar os espanhóis, até capaz de ter tido alguma graça, mas agora já não tem. E a França envia um exército bastante grande, comandado aliás pelo general Pétain, que era um dos generais franceses da Primeira Guerra Mundial. São 120 mil soldados. A Espanha, entretanto, também por causa disso, acha que finalmente também tem que fazer qualquer coisa, isto em 1925, e envia também 75 mil soldados. Estamos a falar de quase 200 mil soldados que finalmente conseguem abafar a revolta das montanhas no Rife, conseguem obter a rendição de Abd el-Krim em 1926. Ele fica prisioneiro dos franceses, vai ser libertado na década de 40 e depois vai pro Egito, onde se torna um dos grandes heróis do nacionalismo árabe. Ele morre em 1963. É admirado por todos, ele depois estabelece contactos com o Hồ Chí Minh no Vietname, é o grande campeão das lutas contra os europeus e obviamente tinha sido um grande vencedor. Qual é a situação de Ceuta nesta altura? A situação de Ceuta é que foi a principal base militar durante este tempo, a principal base militar espanhola. Não é a capital do protetorado, a capital do protetorado espanhol é Tetuão, e a capital do protetorado francês é Rabat. Mas Ceuta é a grande base militar e transforma-se completamente. Entre 1900 e 1930, a população de Ceuta passa de 13 mil habitantes para 50 mil, quase quintuplica.

Mas isso justifica-se apenas pelos militares?

Os militares é muito importante, uma grande parte dos residentes são militares, mas também porque é construído um novo porto e esse novo porto é o porto mais importante do Estreito de Gibraltar e passa a ser o grande porto do norte de Marrocos. Só mais tarde é que Tânger vai começar a crescer, o porto de Tânger vai começar a crescer. E é nesta altura, anos 30, que a cidade vai crescer, vai adquirir avenidas, novos bairros. Já não tem nada a ver com a Ceuta portuguesa de 1640.

Menos na bandeira.

Menos na bandeira. Embora, claro, há sempre uma característica militar e administrativa, mas essa característica militar e administrativa é mais importante em Melilha. Melilha é um centro mais militar e administrativo do que Ceuta.

Bom, e aí ficam amigos?

Com os marroquinos ficam mais ou menos amigos, só que Ceuta vai ter um importante papel na história de Espanha. Aliás, Marrocos. Em 1936, Ceuta é uma das bases do levantamento nacionalista contra a República Espanhola, do levantamento dos nacionalistas espanhóis. Ceuta, Melilha, Tetuão, em 18 de julho de 1936, são dos sítios onde o golpe militar contra a República tem grande sucesso. O Exército de África fica imediatamente contra a República em Madrid e o general Franco, que estava nas Canárias, vai para Ceuta no dia 19 de julho, no dia seguinte, e Ceuta torna-se a principal base da rebelião militar contra a República, a par de Pamplona, no norte de Espanha. Mas esta é a mesma maior base, é Ceuta e é Marrocos, e o protetorado de Marrocos e o exército espanhol que lá está. É só a partir do dia 5 de agosto que o exército, o chamado Exército de África, que é assim que é chamado às tropas espanholas que estão em Marrocos, começa a passar de Ceuta para Sevilha por barco e depois em aviões fornecidos pela Alemanha e pela Itália E com o exército de África vão milhares de voluntários marroquinos. O exército do general Franco, que vai combater a guerra civil entre 1936 e 1939, tem 80 mil marroquinos chamados mouros. Voluntários recrutados.

E recebiam dinheiro, imagino eu.

E eram pagos, etc. São os mouros, as tropas mouras, que são o grande terror dos republicanos, porque tendem a não fazer prisioneiros, são os costumes da montanha do Rife, não fazem prisioneiros e não distinguem entre militares e civis. É tudo tratado da mesma maneira. O general Franco parte à conquista da Espanha republicana a partir de Marrocos, a partir de Ceuta, e Franco é um africanista, é o chamado africanista, é um soldado de África. Ele foi pela Melilla quando tinha 19 anos. Esteve lá 10 anos à frente da Legião Estrangeira Espanhola. E foi aí que adquiriu a reputação militar e a fama política que explicam que se tivesse tornado o mais jovem general em Espanha e na Europa em 1926, aos 33 anos. Ele tornou-se general aos 33 anos, precisamente pelo que fez em Marrocos. A coragem, a capacidade que tinha demonstrado em Marrocos. E há duas coisas que geralmente se acha que ele trouxe de Marrocos. Um é a dureza. A guerra era duríssima em Marrocos e a guerra civil em Espanha vai ser também duríssima com estes oficiais treinados em Marrocos e habituados a fazer a guerra nas montanhas do Rife. A decapitação dos prisioneiros era uma coisa banal, precisamente, a gente tinha cabeças espetadas em baionetas, etc. E outra coisa que Franco traz de Marrocos é um grande desprezo pelos políticos. Aquela coisa do abandono, o abandonismo, como ele diz. Aquela tendência que eles têm para, por causa de questões financeiras e outras, tenderem a abandonar Marrocos. Franco tem um grande culto do Norte de África. Ele vê no Norte de África um prolongamento do andaluz, da Andaluzia muçulmana. E ele acha que Marrocos verdadeiramente é uma espécie de uma Espanha antes da expulsão dos muçulmanos e pode vir a ser outra vez esse mundo de convivência, como ele dizia, de coexistência entre cristãos e muçulmanos. O protetorado espanhol de Marrocos era uma espécie de integração outra vez em Espanha, de uma sociedade que verdadeiramente era uma sociedade que tinha vindo de Espanha, com aquelas centenas de milhares de muçulmanos que tinham sido expulsos no princípio do século XVII e que Francisco Franco estava agora a reintegrar outra vez em Espanha. Esta é um pouco a ideologia dele, esta ideologia, aliás, estranha de reconstituir o andaluz em África.

Mas depois veio a Segunda Guerra Mundial.

Na Segunda Guerra Mundial, Franco tem grandes expectativas. Ele acha que é a ocasião para a Espanha, depois da derrota da França em 1940, ficar com o lugar da França em Marrocos.

Não tem essa expectativa?

Não tem essa expectativa, quer mesmo isso e é isso que propõe a Hitler, e Hitler diz: "Nem pensar, não lhe vou dar o Marrocos francês pra arranjar problemas com a França. Já tenho a França ocupada e quero manter a França tranquila. Não vou começar a privar a França das suas possessões, aqui o protetorado." E esta é uma das razões, aliás, para as quais Franco acha que não há interesse entrar na guerra ao lado da Alemanha, se a Alemanha não lhe está a querer dar nada. Ele queria o Marrocos francês. Depois da Segunda Guerra Mundial, depois de 1945, Franco tem uma política que pode parecer agora inesperada, mas que faz algum sentido. Ele vai apoiar o nacionalismo marroquino. Vai dar apoio contra a França.

Já que não pode ser espanhol.

Permite uma imprensa nacionalista árabe na zona de proteção espanhola, no protetorado espanhol. Há uma imprensa nacionalista árabe contra os franceses, etc. Permite partidos políticos árabes. Os partidos políticos estavam proibidos em Espanha, mas havia partidos políticos árabes no protetorado de Marrocos. O protetorado de Marrocos tinha mais liberdades do que a Espanha sob a ditadura do general Franco. É uma coisa curiosa. Qual é o plano de Franco? O plano de Franco basicamente é aliar-se ao nacionalismo árabe que está no pós-guerra, nos anos 40 e 50, a levantar-se no Egito, no Medio Oriente, no Norte de África, etc. E ele quer fazer da Espanha, a tal Espanha que vem do andaluz, uma espécie de parceiro europeu e cristão do nacionalismo árabe. Agora, verdadeiramente, aquilo que ele faz e não faz é ditado mais uma vez pela França, que tem muito mais poder. É a França que em 1956, quando já está com uma guerra na Argélia, decide que tem de largar Marrocos e deixa regressar o sultão. Eles entretanto tinham exilado o sultão, o sultão Mohamed quinto, mas agora em 1956 admitem o regresso do sultão e a 2 de março anunciam o fim do protetorado. Dizem que a 2 de março de 1956 a França anuncia o fim do protetorado e a Espanha não tem remédio. A 16 de março, isto é, 10 dias depois anuncia também o fim do protetorado espanhol. Por que ao anunciar o fim do protetorado e retira do protetorado espanhol, Tetuã, etc. Por que fica com Ceuta, Melilha e as outras praças de soberania?

Como nós explicamos no programa passado, é o único território na África continental que Pertence a um Estado europeu.

A um Estado europeu.

Nos dias de hoje. Há ilhas, mas não há nada em território africano, a não ser Ceuta e Melilha.

Ceuta e Melilha, exatamente. O argumento espanhol é que Ceuta e Melilha não faziam parte do protetorado. Isto é, não eram parte do protetorado, eram territórios espanhóis habitados quase só por espanhóis. Depois de 1868 e até à década de 80, os marroquinos podiam residir, mas não se tornavam cidadãos espanhóis, portanto, eram estrangeiros residentes em Ceuta e Melilha. Só os espanhóis em Ceuta e Melilha é que eram cidadãos. Portanto, não eram colónias, eram parte da Espanha, tinha sido sempre parte da Espanha antes da cortesia.

Mesmo para as Nações Unidas, não eram colónias para as Nações Unidas.

As Nações Unidas também não os reconheceram como colónias. É uma população espanhola que lá está, não é uma população marroquina dominada pela Espanha, é uma população só de espanhóis. Aliás, Ceuta até 1995 é um município da província de Cádiz, faz parte da malha administrativa de Espanha.

E Marrocos como é que reage a isso?

Como é que reage a isto? Reage de uma maneira extraordinariamente ambígua. A política dos dois reis que importa agora aqui, que é o rei Mohamed V, que entretanto se tornou rei, isto é, ele em 1957 trocou o título de sultão pelo título de rei, que lhe deve ter parecido mais europeu, digamos assim. O rei Mohamed V e depois o seu filho, o rei Hassan II, a partir de 1961 e até 1999, agora é o Mohamed VI, que é o rei de Marrocos. Estes reis da dinastia alauita têm de ser ambíguos. Por quê? Porque por um lado eles querem manter boas relações com as potências europeias. E aliás, por isso, por exemplo, eles também vão insistir muito na ascendência do Al-Andaluz, isto é, da ideia de que Marrocos é, em parte, uma construção de muçulmanos europeus vindos da Europa. Estas famílias expulsas da Espanha que fizeram, em grande medida, Marrocos, portanto, que o seu Islão é um Islão um pouquinho diferente, mais tolerante. Eles imaginam-se muito à margem da África. Durante muito tempo, Marrocos não fez parte da Organização da Unidade Africana. E para percebermos isto é preciso só uma referência, talvez à geografia de Marrocos. É que Marrocos é basicamente uma espécie de ilha no norte de África. Por quê? Porque está separado do resto do norte de África pelas montanhas do Atlas, que são montanhas gigantescas, chegam aos 4000 metros de altitude, e pelo deserto do Saara, que funciona como uma espécie de mar, isto é, isola também Marrocos. Eles podem permitir-se uma identidade bastante diferente do resto do continente africano, que é isso que eles cultivam e que permite a estes reis afirmarem uma proximidade à Europa e ao Ocidente, que é uma parte da política deles. Para além, eles são obviamente descendentes do profeta e portanto extraordinariamente piedosos, uma família que diz que é descendente da família do profeta Maomé, são muito piedosos, mas próximos da Europa. Isso obviamente inclina-os a não arranjar problemas com potências europeias, sobretudo com a Espanha, a propósito de Ceuta e de Melilha, eles não têm interesse em ter esse conflito. Mas, por outro lado, estes reis, tanto Mohamed V como Hassan II, têm problemas sérios, têm problemas de separatismo berbere. Isto é, aquelas tribos do Rife continuam a revoltar-se no Marrocos independente. Em 1958, há uma grande revolta no Rife contra o rei de Marrocos e, por outro lado, têm problemas com o nacionalismo árabe, que é muito popular entre os militares.

Tu tens falado muitas vezes entre berberes e árabes.

Sim, falei disso da última vez. Basicamente, os berberes são a população nativa do norte de África, falam línguas que são línguas berberes. Terão sido cristãos no tempo do Império Romano e a partir da invasão e ocupação muçulmana nos séculos sétimo, oitavo, nono, começam a ser arabizados. Isto é, por um lado, há exércitos árabes que entram no norte de África e que chegam a Marrocos e que entram também na península ibérica. Portanto, há árabes que começam a estabelecer lá, mas sobretudo a cultura árabe começa a disseminar-se, aliás, ligada à religião. O Corão está escrito em árabe, é preciso saber árabe. E, portanto, há uma parte da população que começa a ser Ou começa a dizer que é árabe no sentido em que alguns imaginariamente reivindicam descendência de árabes ou começa a ser arabizada, isto é, a falar árabe. E portanto, há estas duas dimensões, a dimensão, por exemplo, nas cidades que são arabizadas, etc. E a dimensão berbere, sobretudo no norte de Marrocos, no Rif, onde a população fala berbere, tem uma identidade própria das tribos, etc.

São muçulmanos, mas não se consideram árabes.

Toda a gente é muçulmana, mas não se consideram eles próprios árabes. Eles consideram-se berberes e fazem parte das tribos locais. E portanto, os sultões e depois estes reis de Marrocos têm de conciliar as duas coisas, tentar manter a unidade do reino de Marrocos entre árabes. Mas além deste problema de separatismo berbere, há o problema do nacionalismo árabe. O nacionalismo árabe tem uma grande influência junto dos militares, sobretudo dos jovens militares. E nos anos 40 e 50, isso vai levar a que haja golpes militares que derrubam as várias monarquias árabes na Líbia, no Egito, no Iraque, para estabelecer-se repúblicas nacionalistas. Por exemplo, no caso do Egito com o Nasser, que se torna a grande figura do mundo árabe e começa a exportar a sua ideologia nacionalista para os outros países árabes. Este nacionalismo árabe é extremamente hostil a estas monarquias que eles veem como monarquias tradicionalistas e bastante próximas dos europeus, e dos ocidentais. E portanto, sobretudo Hassan II vai enfrentar vários golpes militares. Um dos mais graves é em 1972, quando ele faz uma visita à França, quando vem de França no avião, o seu avião é atacado pela Força Aérea Marroquina. Seis aviões atacam, metralham o avião. Conta-se uma história curiosa, tentam derrubar o avião do rei, um avião grande de transporte de passageiros. Conta-se uma história curiosa, mas é uma lenda, que é o próprio Hassan II teria ido para o cockpit do avião e entrado em contacto com os caças e tinha dito: "O rei já morreu, não disparem mais, que o rei já está morto". Aliás, "o tirano já está morto, não disparem mais". Mas ele escapa-se milagrosamente. Numa entrevista que são as memórias dele publicada na década de 90, pedem-lhe uma explicação: "Mas como é que conseguiu sobreviver àquilo? O avião estava crivado de balas, etc." E ele diz: "Não, porque eu faço as minhas orações". Ele até diz ao jornalista francês que o está a entrevistar: "Eu vou lhe dar a explicação, você vai se rir, mas é mesmo aquilo que eu acredito. Eu faço as minhas orações e sou protegido por Deus. E foi basicamente por assim que eu sobrevivi." Enfim, como descendente do profeta, faz as suas orações e é protegido por Deus. Mas o que isso faz? Isso faz com que interesse a estes reis, que era Mohammed V, que era Hassan II, fazer algum ruído sobre a presença espanhola. No caso de Ceuta e Melilha, eles usam aquele argumento geográfico, não podem usar um argumento demográfico, não há população marroquina lá, mas dizem que o território está rodeado de Marrocos, não tem ligação à Península Ibérica, portanto devia ser marroquino. Mas Marrocos não precisa de fazer nesta altura, nos anos 50, 60, 70, uma grande pressão sobre Ceuta e Melilha, porque tem uma outra área de influência espanhola mais interessante. É que a Espanha tinha o protetorado do norte de Marrocos, mas também tinha outros territórios a sul de Marrocos. Isso é importante. A Espanha tem dois territórios que são relativamente grandes, que é o território do Ifni e o território do Saara espanhol. São áreas muito grandes na costa atlântica marroquina, muito pouco povoadas. Estão basicamente em frente das Ilhas Canárias. E foi por isso que no fim do século XIX a Espanha resolveu ocupar aquelas áreas. Estas áreas também em 1956, quando acaba o protetorado, a Espanha diz que não fazem parte do protetorado. A Espanha admite que são colônias, mas não fazem parte de Marrocos. Aliás, a França também tinha colônias ao sul, tinha a Mauritânia, por exemplo, que é um grande território, que é uma colônia francesa. Agora, Marrocos não o reconhece como tal. Marrocos acha que são parte de Marrocos. Aliás, vai também reivindicar a Mauritânia. Tanto a Mauritânia como o Saara espanhol. E é aí que os reis de Marrocos, sobretudo Hassan II, vão fazer mais pressão. No fim dos anos 50, vão constituir um exército de libertação de Marrocos que vai atacar o Ifni, a colônia do Ifni, no sul. Em 1957, 58, a Espanha vai acabar por ceder. Acaba por ceder, isto é, entregar a maior parte do território a Marrocos e retirar em 1969. Isso é a Espanha do general Franco, atenção.

Certo.

E no caso do Saara espanhol.

O Saara espanhol é o que eles chamam Saara Ocidental.

O Saara Ocidental. O Saara espanhol mantém uma Uma tutela durante mais tempo por uma razão: há outros países do norte de África interessados no Sara espanhol, não é só Marrocos. Também há Mauritânia e Argélia. Isto é, estão interessados no Sara espanhol. A Mauritânia acha que o Sara espanhol é parte da Mauritânia, tal como Marrocos acha que faz parte de Marrocos. A Argélia não diz que aquilo é parte da Argélia e por isso vai apoiar os independentistas do Sara espanhol, que é a Frente Polisário.

Já foram um tema muito importante, incluindo em Portugal.

Incluindo em Portugal, sim, por causa até da captura de pescadores portugueses, etc., ao largo do Sara Ocidental. A Espanha, em 1975, ainda sob o general Franco, concorda em retirar as suas forças e os seus residentes. E o que acontece a seguir é que tanto Marrocos, como a Mauritânia, como a Argélia, através da Frente Polisário, tentam tomar conta do território. Isso dá uma guerra constante no antigo Sara espanhol até à década de 90. Há quase uma guerra, aliás, entre Marrocos e Argélia, chegam quase à beira de uma guerra. Hoje, Marrocos ocupa dois terços deste antigo Sara espanhol. O outro terço é ocupado pela Frente Polisário, uma vez que a Mauritânia acabou por desistir do Sara Ocidental. A Frente Polisário continua a ter o apoio da Argélia, Marrocos e Argélia têm péssimas relações. E Marrocos construiu, para defender a sua parte no Sara Ocidental, um muro de 2500 km que separa a parte marroquina da parte da Frente Polisário.

E hoje em dia ainda é uma questão em disputa e não resolvida.

É o maior campo de minas do mundo que está ali. Porque o muro tem um campo de minas também à volta. A Frente Polisário controla cerca de 90 mil km² do Sara espanhol, um terreno maior do que Portugal, mas ali é tudo maior do que Portugal e tem cerca de 200 mil saaris sob o seu controle.

E é metade da Argélia.

Isto é uma coisa curiosa, como é que Marrocos entra no Sara Ocidental? Entra em 1975 através da chamada famosa Marcha Verde. A Marcha Verde é basicamente um movimento de 350 mil pessoas, organizado pelo rei de Marrocos, 350 mil marroquinos que entram no Sara Ocidental no ano de 1975 para tomar conta do Sara Ocidental. E basicamente, durante muito tempo, o receio de Ceuta é de uma Marcha Verde marroquina, isto é, dezenas de milhares de marroquinos entrarem em Ceuta e entrarem em Melilha. É por isso que nos anos 90 começam a se reforçar a vedação do perímetro da cidade. Mas verdadeiramente, o facto de Marrocos não reconhecer a soberania espanhola em Ceuta e Melilha agora, apesar do sultão ter reconhecido em 1860, mas agora atualmente não reconhece, isso vem a beneficiar Ceuta. E vem a beneficiar Ceuta por quê? Porque Marrocos, ao não reconhecer as fronteiras, também não tem alfândegas com Ceuta e Melilha, não tem postos fronteiriços, porque acha que não há fronteira ali, só a Espanha é que tem. O que isso fez na década de 60? Fez com que fosse possível aos marroquinos entrarem em Ceuta e Melilha, comprarem produtos europeus e levá-los pra Marrocos, sem passar por alfândegas. Isso criou um comércio, uma espécie de contrabando tolerado. Os marroquinos não podiam ficar em Ceuta, tinham apenas licença de entrar até à meia-noite, mas era o suficiente para ir lá abastecer-se nas lojas e regressarem a Marrocos. E portanto, da década de 60, na década de 70, cerca de 30 mil marroquinos por dia entravam em Ceuta, faziam compras e depois regressavam a Marrocos, onde uma parte deles se dedicava a vender os produtos que tinha comprado em Marrocos e que entravam em Marrocos sem os impostos alfandegários que teriam sido cobrados noutros postos de entrada marroquinos, mas ali em Ceuta, não.

Uma espécie de contrabando oficial.

Sim, completamente oficial. Isto permitiu o grande desenvolvimento e a prosperidade de Ceuta nos anos 60 e 70.

E das zonas ali à volta de Marrocos.

Toda aquelas zonas, sim, porque são os marroquinos à volta das zonas que têm esta licença espanhola pra entrar em Marrocos. É um comércio vantajoso. Por volta do ano 2000 era calculado em mil milhões de euros anuais. Isto só vai a decair depois com o desenvolvimento de Tânger e depois com o acordo comercial de Marrocos com a União Europeia em 2010. Mas por exemplo, o tráfico de cannabis, da haxixe, ainda é extraordinariamente importante nesta região. Ceuta é uma zona próspera, chega aos 80 mil, e o que se começa a tornar decisivo na questão de Ceuta é a demografia. A população residente aumenta bastante, 84 mil hoje, já não são os 3 mil do tempo de Portugal e de meados do século 19. Mas até aos anos 60 a população está a aumentar por imigrantes espanhóis, espanhóis que vêm da península Ibérica e que se estabelecem em Ceuta, que é uma zona extraordinariamente próspera, comercial, etc. Agora há também muitos imigrantes marroquinos Isto é, marroquinos que se começam a estabelecer em Ceuta. A população muçulmana vai crescer de cerca de 18% na década de 1980 para cerca de 40% hoje. Já começa a ficar metade. Em Ceuta são sobretudo muçulmanos de fala árabe, em Melilha são sobretudo berberes, de língua berbere. Isso explica uma coisa curiosa: em 1995, a Espanha decide fazer destas cidades, cidades autónomas. E Marrocos não gosta nada disso, por causa de Melilha, porque teme que o aumento da população berbere em Melilha leve um dia Melilha ser governado por uma espécie de Câmara Municipal berbere e poder tornar-se um centro de separatismo berbere no norte de Marrocos. Isto é uma coisa curiosa, Marrocos está mais preocupado com o facto de os marroquinos se tornarem maioria em Melilha do que os espanhóis, por causa de que esses marroquinos são berberes em Melilha, ao contrário de em Ceuta, são arabizados, de cultura árabe. Era muito difícil impedir essa circulação, uma vez que a diferença entre o PIB per capita espanhol e marroquino é tão grande, no ano 2000 era 14 vezes. Só para terem uma ideia, também havia uma grande imigração entre o México e os Estados Unidos. A diferença do PIB entre o México e os Estados Unidos é de seis vezes.

É uma grande diferença.

Em Marrocos são 14. Entre Marrocos e a Espanha são 14.

Há muita gente a querer sair.

A querer sair para lá. Até aos anos 1980 os muçulmanos não têm direito à nacionalidade, mas a partir daí começam a ter direito à nacionalidade e nitidamente estão a tornar-se cada vez mais importantes como parte da população de Ceuta. E a questão não é bem o território ou a terra, são as pessoas. E as coisas ainda continuam, apesar de tudo, a favorecer a Espanha. Em 2006, há uma sondagem entre os muçulmanos de Ceuta e é curioso. Perguntam-lhes se querem ficar sob soberania espanhola ou sob soberania marroquina. E metade deles dizem que não sabem. O que é curioso já, dizem: "Não tenho opinião sobre isso." Metade não tem opinião. Na metade que tem opinião, a maioria esmagadora quer a Espanha.

Pois.

Isto é, do total, são 10% que querem Marrocos, 40% querem ficar com a Espanha. Portanto, o destino do território não é tanto decidido por considerações geográficas, se está num continente ou está no outro continente, se está em África ou está na Europa. É a comunidade que lá está, que são 80 mil cidadãos espanhóis, uns cristãos, outros muçulmanos. Não é um território africano ocupado por um Estado europeu, é uma comunidade de cidadãos que querem livremente continuar a ser espanhóis. Aliás, tal como Constantinopla e a Trácia Oriental não são um território europeu ocupado por um Estado asiático, a Turquia, mas são uma comunidade de 13 milhões de cidadãos turcos que obviamente querem permanecer turcos, não querem ser, por exemplo, gregos. Portanto, a questão de Ceuta não é tanto a questão da terra, da geografia, é a questão das pessoas e da nacionalidade que essas pessoas querem manter e, por enquanto, querem permanecer espanhóis.

Muito bem. E assim termina esta edição de "O Resto é História", depois de dois episódios dedicados a Ceuta. Para a semana voltamos com outros temas. Até lá.

E o resto é história. É apenas pomba! Do incêntrico Abra, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura.

Atenção! Atenção!

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.