Homenagens, festas e memes de IA: um ano depois, assassinato de Charlie Kirk continua a dividir os EUA

Um ano depois de uma bala ter matado Charlie Kirk enquanto discursava perante milhares de pessoas numa universidade do Utah, a disputa já não é apenas sobre aquilo que o ativista conservador representou em vida. É também sobre quem controla a memória da sua morte.

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Para uma parte da direita dos EUA, Kirk tornou-se um símbolo nacional, homenageado por Donald Trump e transformado numa figura ainda mais central do movimento conservador. No outro extremo, a internet produziu memes, vídeos gerados por inteligência artificial e até iniciativas universitárias que ridicularizam o ativista assassinado.

É esta transformação que o ‘El Confidencial’ analisa no primeiro aniversário da morte do fundador da Turning Point USA, morto a tiro a 10 de setembro de 2025 na Universidade Utah Valley.

Kirk tinha 31 anos. Tyler Robinson, acusado do homicídio, deverá ser julgado depois de um juiz ter considerado este mês que existem provas suficientes para o processo avançar. Robinson declarou-se inocente e poderá enfrentar a pena de morte caso seja condenado.

De ativista a símbolo político

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A transformação começou praticamente no momento da morte.

Ron Eyerman, professor de Sociologia, descreveu o processo como uma “luta por significado”: diferentes grupos tentam definir não apenas quem era a vítima, mas aquilo que o assassinato deve representar politicamente.

No campo conservador, Kirk foi rapidamente elevado à condição de símbolo de uma violência política dirigida contra o próprio movimento.

Onze dias depois do assassinato, dezenas de milhares de pessoas participaram numa enorme cerimónia no State Farm Stadium, no Arizona. Trump culpou a “esquerda radical” pela violência política e anunciou que atribuiria postumamente a Kirk a Medalha Presidencial da Liberdade.

“A arma estava apontada para ele, mas a bala era para todos nós”, afirmou então o presidente dos EUA.

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A organização que Kirk fundou também não desapareceu com ele. Pelo contrário. Um ano depois, a Turning Point USA expandiu significativamente a presença nas escolas secundárias e universidades e continua a tentar mobilizar o eleitorado jovem conservador.

Do outro lado apareceu o meme

Ao mesmo tempo que Kirk era transformado num símbolo político, desenvolvia-se online um fenómeno radicalmente diferente.

O ‘El Confidencial’ cita uma análise da investigadora Liram Stenzler-Koblentz sobre a forma como fóruns e redes sociais desumanizaram Kirk antes e depois do assassinato.

Muito antes do ataque já existiam comentários que fantasiavam com agressões físicas ao ativista e tratavam a eventual violência como entretenimento. Depois da morte, essa lógica ganhou uma nova dimensão.

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A inteligência artificial tornou particularmente fácil fabricar imagens, músicas e vídeos falsos relacionados com Kirk. O PolitiFact documentou, por exemplo, mais de 20 vídeos que alegadamente mostravam artistas como Justin Bieber, Céline Dion e Taylor Swift a interpretar canções de homenagem. Nenhum era verdadeiro.

Outras montagens seguiram na direção oposta, transformando a morte em material para humor e provocação política.

A polémica chegou também às universidades. Na Universidade de Georgetown foi divulgada nas redes sociais uma iniciativa para realizar esta quinta-feira um concurso de sósias de Kirk precisamente no aniversário do assassinato. A publicação recebeu milhares de reações na plataforma universitária Fizz.

Um ano depois, regressam ao lugar onde morreu

A divisão torna-se particularmente visível esta quinta-feira no próprio local do crime.

A Turning Point USA regressa à Universidade Utah Valley para realizar uma cerimónia em memória do fundador, a poucos minutos do local onde Kirk foi baleado. A universidade decidiu encerrar o campus durante o dia e reservar espaço para reflexão.

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A decisão também provocou contestação. Um grupo de estudantes pediu que a instituição não acolhesse aquilo que considera um evento político de extrema-direita, enquanto a direção universitária defendeu que não pode impedir uma organização de utilizar as instalações devido às suas posições políticas.

É precisamente essa disputa que acompanha Charlie Kirk um ano depois da morte.

A direita conservadora continua a prestar-lhe homenagem e a organização que criou cresceu. Os adversários continuam a discutir — e, em alguns casos, a ridicularizar — aquilo que representava. E as ferramentas digitais permitem que ambas as coisas sejam transformadas em conteúdo e espalhadas em segundos.

O assassinato terminou uma vida. Não terminou a batalha política em torno dela.