Em julho de 2026, uma produção de 250 milhões de dólares encheu salas de cinema em todo o mundo com uma história composta há quase três mil anos, num mundo sem escrita, sem cinema e sem qualquer ideia do que viria a ser Portugal. “A Odisseia” de Christopher Nolan arrecadou mais de 264 milhões de dólares no seu fim de semana de estreia, uma das maiores aberturas da carreira do realizador, e devolveu ao debate público uma pergunta que os portugueses deviam, por direito próprio, sentir como sua, porque é que a história de um homem a tentar voltar para casa continua, ao fim de trinta séculos, a comover tanta gente. E porque é que Portugal, um país que construiu praticamente toda a sua identidade coletiva à volta de uma viagem marítima, tem a sua própria resposta a essa pergunta guardada há 454 anos numa estante, em vez de num ecrã IMAX.
Essa resposta chama-se Os Lusíadas, e Camões escreveu-a a pensar exatamente nisto, Homero.
Duas Viagens, o Mesmo Ponto de Partida Literário
Camões não escondeu a sua ambição. Os Lusíadas foram concebidos deliberadamente à imagem dos grandes poemas épicos da Antiguidade, a Ilíada e a Odisseia de Homero, e a Eneida de Virgílio, com o objetivo explícito de dar a Portugal um poema fundador à altura dos que a Grécia e Roma já possuíam. Publicada em 1572, a obra está dividida em dez cantos, num total de 1102 estrofes de oito versos decassílabos, contra os vinte e quatro cantos e pouco mais de doze mil versos da Odisseia. Onde Homero canta o regresso de um único herói, Ulisses, a Ítaca, Camões canta o regresso, ou melhor, a chegada, de um povo inteiro à sua própria dimensão histórica, tendo como fio condutor a viagem real de Vasco da Gama até à Índia, em 1497.
A semelhança mais impressionante entre as duas obras não está nos deuses nem nos monstros, está na própria arquitetura da narrativa. Tal como a Odisseia, Os Lusíadas começam in medias res, a meio da ação, com a frota portuguesa já a navegar no Canal de Moçambique, sem qualquer explicação inicial sobre como ali chegou. E tal como Ulisses, sentado à mesa dos feácios, recorda aos seus anfitriões toda a viagem desde a queda de Troia, também Vasco da Gama, recebido pelo rei de Melinde, interrompe a ação para narrar, em retrospetiva, toda a história de Portugal desde as suas origens. É o mesmo recurso literário, separado por dois mil e duzentos anos, o herói que se torna, ele próprio, narrador da sua própria lenda diante de um estrangeiro.
Monstros Que São, Afinal, Medos
Os académicos que estudam Homero são unânimes num ponto, os monstros da Odisseia, o ciclope Polifemo, as sereias, Cila e Caribdes, não são apenas entretenimento fantástico. São o medo real dos primeiros marinheiros gregos transformado em mito, o desconhecido de rotas marítimas que ainda ninguém tinha cartografado com segurança.
Camões fez exatamente o mesmo, com um monstro inteiramente seu. No Canto V, ao dobrar o Cabo das Tormentas, atual Cabo da Boa Esperança, os navegadores portugueses são confrontados por Adamastor, um gigante de rocha e tempestade que os amaldiçoa e lhes prediz naufrágios futuros. Adamastor não existe em nenhuma mitologia anterior, Camões inventou-o para dar corpo poético ao terror muito real que os navegadores portugueses sentiam ao dobrar aquele ponto do planeta, onde as tempestades eram, e continuam a ser, particularmente violentas. É o Polifemo português, um obstáculo geográfico transformado em criatura, um medo coletivo transformado em inimigo com voz e rosto.
Deuses Que São Estados de Alma
Também os deuses cumprem, nas duas obras, uma função semelhante, personificam forças que, de outra forma, seriam apenas abstrações psicológicas. Poséidon persegue Ulisses por orgulho ferido, depois de o herói lhe cegar o filho Polifemo, e representa a fúria, o impulso e a paixão descontrolada. Baco, na epopeia portuguesa, opõe-se aos portugueses por um motivo semelhante, ciúme, o receio de ver a sua própria fama de conquistador do Oriente ultrapassada por um povo novo. Do lado favorável, Atena guia Ulisses com serenidade e estratégia, enquanto Vénus protege os portugueses por os considerar, através de uma genealogia mítica, quase descendentes dos romanos que também dela descendiam. Em ambos os poemas, o panteão divino funciona como um espelho amplificado das próprias virtudes e fragilidades humanas dos heróis que protege ou persegue.
A Diferença Essencial, Regressar Contra Chegar
Há, no entanto, uma diferença de fundo que separa as duas obras, e que talvez seja a mais reveladora de todas. A Odisseia é, na sua essência, um poema sobre o nostos, o desejo de regressar a casa. Ulisses recusa a imortalidade que Calipso lhe oferece porque prefere a sua humanidade finita, a sua Ítaca, a sua Penélope. Todo o poema é movido por essa saudade de um lugar que já existe e que só falta reencontrar.
Os Lusíadas movem-se na direção contrária. Não são um poema sobre voltar, são um poema sobre chegar a um sítio novo, sobre a glória de expandir o mundo conhecido, mais próximo, nesse sentido, do espírito da Ilíada e da busca de Aquiles pela fama eterna do que do espírito da Odisseia. E, no entanto, mesmo aqui, Camões introduz uma nota de regresso disfarçado, a Ilha dos Amores, no Canto IX, onde Vénus recompensa os navegadores com um paraíso de ninfas antes do regresso final a Portugal, funciona quase como uma Ítaca antecipada, um lar simbólico oferecido a meio da viagem, tal como as ilhas de Circe e Calipso, ainda que de sinal invertido, um prémio em vez de uma prisão.
O Poeta Que Viveu a Própria Epopeia
Há ainda um paralelo que nenhuma análise puramente literária capta, o de que Camões, ao contrário de Homero, viveu de facto uma odisseia própria. Perdeu a visão de um olho em combate no Norte de África. Partiu para o Oriente, onde viveu quase duas décadas, entre Goa, Macau e outras paragens, com fortunas e desgraças constantes. Segundo a tradição, ao naufragar ao largo do rio Mekong, salvou-se a nado, mas recusou-se a largar o manuscrito de Os Lusíadas, mantendo-o acima da água enquanto perdia praticamente tudo o resto. Regressou a Portugal pobre e doente, e morreria também ele, como tantos heróis épicos antes dele, longe do reconhecimento que a sua obra viria a merecer. Se Ulisses é um herói inventado à procura de casa, Camões foi um homem real que, tal como ele, atravessou o mundo conhecido e voltou para escrever sobre isso, apenas para descobrir que a pátria que o esperava já não sabia bem o que fazer com o seu regresso.
Uma Reflexão Camoniana Sobre o Portugal de Hoje
É precisamente aqui, no fim da sua própria obra, que Camões nos deixa a chave mais honesta para pensar Portugal, não só o de 1572, mas também o de hoje. Depois de dez cantos a celebrar a maior glória da história portuguesa, o poeta vira-se, nas últimas estrofes do Canto X, contra o seu próprio país e o seu próprio tempo, lamentando-se de uma pátria que já não valoriza as armas nem as letras, tomada pela ganância e pela pequenez, incapaz de reconhecer o mérito e o engenho quando estes aparecem à sua frente. É um dos gestos mais corajosos e mais tristes de toda a literatura portuguesa, o de um homem que acabou de escrever o maior poema de glória nacional da nossa língua, e que, na última página, admite que essa glória já não encontra eco na realidade que o rodeia.
Talvez seja esse, e não os deuses nem os monstros, o verdadeiro paralelo entre Portugal e a Grécia de Homero. Ambos os povos construíram, num determinado momento da sua história, uma imagem de si próprios tão vasta que o tempo seguinte nunca mais lhes conseguiu estar inteiramente à altura. A Grécia de hoje já não é a de Ulisses, tal como o Portugal de hoje já não é o de Vasco da Gama, e talvez nunca tenha voltado a sê-lo desde que Camões, há quase meio milénio, primeiro o notou e o lamentou. Mas há também, nessa mesma comparação, uma forma de esperança, se um poema conseguiu manter viva, durante três mil anos, a memória de um regresso que a Grécia real talvez nunca tenha vivido exatamente assim, então talvez a função de Os Lusíadas não seja lembrar aos portugueses o que já foram, mas sim perguntar-lhes, a cada geração, incluindo a de 2026, sentada agora numa sala de cinema a ver Ulisses regressar a Ítaca em IMAX, o que ainda estão dispostos a merecer daquilo que um dia foram capazes de fazer.
Mudam-se os tempos, escreveu Camões noutro poema, mudam-se as vontades. Os heróis, esses, parecem continuar sempre a precisar de voltar para casa, seja essa casa Ítaca, seja o Tejo, seja, por três horas, uma sala escura com som IMAX.