Hugo Gonçalves tem construído um percurso robusto no campo da produção literária. Depois de romances como Deus Pátria Família (2021) e Revolução (2023), O Império do Fim, lançado agora com o selo da editora habitual, vem sedimentar o autor como sendo profícuo no retrato que dá do Portugal do século XX, particularmente na forma como mostra de que forma certos acontecimentos históricos têm implicações nas vidas privadas.
Em Deus Pátria Família Gonçalves criou uma realidade alternativa em que, durante a Segunda Guerra Mundial, Portugal recebia os refugiados que fugiam de uma Europa em guerra. Em Revolução, fez a família Storm, mostrando a unidade familiar como fundamental na construção do carácter, dos traumas, dos posicionamentos – do futuro, portanto. Enquanto se vê a vida dentro de uma casa, vê-se ainda o que se passa fora das suas paredes, com um país a erguer-se após quase 50 anos de um regime ditatorial, passando pelo PREC, até aos primeiros anos da democracia. Em O Império do Fim, mete-se em África e, a partir daí, na guerra colonial e no processo de descolonização.
Logo à cabeça, temos uma amizade de infância. Cosme, branco, filho de colonos portugueses, cresce em Luanda e é amigo de Mouzinho, angolano e negro, que virá a ser guerrilheiro. Na adolescência, ainda se dá o caso de se apaixonarem os dois pela mesma mulher. A guerra há-de trocar as voltas à infância, pondo-os em lados opostos da vida. Cosme torna-se alferes e combate nas chamadas “Terras do Fim do Mundo”, e Mouzinho virá a encarar a guerra colonial como uma guerra de libertação.
O romance começa logo no epicentro da guerra, e vemos Cosme a conhecer “a agonia das mães negras, a mendigar rações de combate, o choro de fome das crianças pequenas” (p. 48). Sobretudo, por muito que o romance seja denso – e é-o, com a informação bem trabalhada, bem apresentada, com vários elementos cruzados –, o leitor consegue ver tudo isto a partir do olhar da personagem, a cujo fio fica logo ligado. E, como já vai para a acção sabendo que haverá um relação de infância posta à prova, olha para os fenómenos sociais, políticos e bélicos como agentes de influência nessa relação – o indivíduo é, por isso, primordial no romance, que ultrapassa a ideia de conflito entre dois exércitos. O processo histórico impõe entre Cosme e Mouzinho uma diferença que, até então, não determinava a relação entre ambos, e a partir daí transformam-se em opostos.
A guerra surge como um lugar de suspensão das regras, e em concomitância da moral. Impera o tem-de-ser. E, após a experiência militar, Cosme segue para Lisboa, voltando as costas ao país que conheceu e que não era o seu. Ali, a queda do império implica rasgar a vida interior, vendo colapsar os fios que lhe teceram a vida, e nisto faz lembrar O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. Em ambos os romances, a descolonização não aparece como um fenómeno sem caras, sem vidas, sem dramas individuais, espécie de sucessão de datas, decisões políticas ou movimento populacionais. Em vez disso, é tratado como a implicação real na vida deste ou daquele – como as consequências na vida de alguém cujo lugar que julgava seu deixa de o ser.
Título: “O Império do Fim” | Autor: Hugo Gonçalves | Editora: Companhia das Letras | Páginas: 416
Ao mesmo tempo, todos os relatos são exuberantes. A língua de Hugo Gonçalves é viva e não perde tempo com contemplações inócuas ou formulações a armar ao literário, sendo, por isso, literária em todas as acepções, ora violenta, ora terna. Veja-se:
“Os afamados crepúsculos africanos até podiam servir de tónico para os rapazes ali degredados, e, em futuros almoços de família, com filhos e netos, seriam recordações mais aproprieadas do que as fodas impingidas numa cubata. África tinha-lhes revelado a sua condição de bichos precários e extremados, algo a que nenhum escapava, fosse no desamparo das diarreias, fosse no medo que antecedia um combate ou na inutilidade que vinha depois. Em África, eram carniceiros e missionários da boa vontade, virgens à força e putanheiros de ocasião, bêbedos com armas e saudosistas da comida da mãe; eram crianças numa cruzada orquestrada por adultos, cadáveres à espera do caixão. Ficavam cacimbados, coxos, manetas, eunucos, arrependidos e escangalhados. Demoliam senzalas e construíam aldeias, ofereciam vacinas e tiros nos cornos, trocavam rações de combate por mamarrachos em pau-preto, deixavam filhos e traziam gonorreia, tiravam uma vida de manhã para salvar outra à tarde.” (p 160)
E o que mais surpreende é que esta intensidade nunca se perde. Em cada parágrafo, parece que Hugo Gonçalves desafia o fôlego, e depois vem mais outro, com uma prosa que nos atira à cara a brutalidade da vida, da guerra, e não perde tempo em romantismos ou formulações nacionalistas. Antes pelo contrário, e é por isso que O Império do Fim funciona tão bem. A personagem de Cosme dá ao romance uma sensação de permanente deslocação, e também isso é vida a acontecer, e vida que traz tensão ao texto. Ao longo do romance, parece que se está sempre por um fio, sempre no limite, e a própria prosa parece uma entidade viva a ir comer os recantos da história e da psique das personagens, que vão saltitando entre o presente e a memória. Esta última tem particular importância no sentido em que, mesmo quando se esvai, não leva o que acontece. Mesmo com envelhecimentos, mudanças, distâncias, as consequências e as feridas continuam em chamas. O reencontro de Cosme com Mouzinho traz para a cena não apenas duas relações diferentes com a guerra – um combateu numa guerra, outro usou a guerra para lutar pela independência –, e ajuda a concatenar os elementos da História e da intimidade.
Finda a leitura, percebe-se que o império acaba, mas a história continua a respirar, e que o que termina enquanto acontecimento, ou páginas de livro de estudo, ainda vive durante décadas, seja como memória, ferida, dúvida ou até literatura. Hugo Gonçalves, enfrentando o fim de um império, deu asas ao que fica quando um império acaba.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.