"Acredito que os adeptos e os clubes esperam mais do VAR e da possibilidade de intervir em mais situações, mas também há um caminho por fazer no sentido de perceber até que ponto é que estamos preparados para cada vez mais intervenções em situações não tão factuais, mas de interpretação", assumiu à agência Lusa o antigo 'juiz' e atual comentador televisivo, de 47 anos e com jogos dirigidos na II Liga.
Portugal foi um dos pioneiros no lançamento do VAR, um sistema tecnológico que fornece imagens vídeo para auxiliar à distância os árbitros de campo, aprovado em 2016 pelo International Board (IFAB), entidade reguladora das regras do futebol, sendo utilizado na I Liga desde 2017/18.
"Hoje já se percebe que o árbitro erra porque não está tão bem colocado e só teve uma vez para ver. Os adeptos não aceitam é que o VAR tenha uma opinião diferente da sua quando há 10 ângulos. Os lances de interpretação vão ser uma discussão em torno do VAR, mas há mais caminho a fazer na educação e na capacidade de as pessoas perceberem certas situações do jogo do que na definição da intervenção do VAR", analisou Jorge Faustino.
Perante um erro claro e óbvio ou incidente grave não detetado, o protocolo já previa assistência em golos, penáltis, cartões vermelhos diretos e erros de identidade na advertência ou expulsão, situações às quais se juntam para 2026/27 a revisão dos pontapés de canto atribuídos incorretamente.
"Acho que existirá sempre ruído. Depois, depende de quem é que a época está a correr melhor ou pior. Muitas vezes, a época até está a correr bem a certos clubes, mas estes fazem logo ataques preventivos para poderem ter já alguma coisa para dizer se começar a correr mal. Esse ruído tem pouco a ver com a arbitragem, que é sempre o alvo mais fácil para atacar, e mais com a estratégia de comunicação e a gestão de crise dos clubes", admitiu.
Os 'juízes' receberam várias orientações do novo diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), João Ferreira, incluindo, entre outras, "tentar decidir bem e mais rápido no VAR" e "aumentar o tempo útil de jogo", que ronda os 55% no escalão principal desde 2021/22, segundo a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP).
"Até às alterações desta época, estava do lado do árbitro muito do ónus de tentar acelerar os recomeços, porque os tempos não estavam estipulados. A partir do momento em que o IFAB define cinco segundos para a execução de um pontapé de baliza ou um lançamento lateral e 10 na saída de um jogador numa substituição, passam a ser situações factuais e fica mais fácil para os árbitros fazerem cumprir a lei", observou Jorge Faustino.
Outra via para diminuir as perdas de tempo é a saída de um futebolista de campo por um minuto quando o guarda-redes da respetiva equipa forçar uma pausa para instruções táticas ou quebrar o ritmo do encontro, medida que, com a autorização do IFAB, já será experimentada em alguns países.
Convicto de que as novidades nas leis do jogo vão beneficiar "a velocidade e a dinâmica da partida e a proteção dos futebolistas e da tomada de decisão dos árbitros", Jorge Faustino pede "critério uniforme" e espera uma "época mais bem-sucedida do que a anterior" para o setor, que ainda não tem a tecnologia semiautomática de fora de jogo ao dispor em Portugal.
"Seria uma medida excelente, mas tenho algumas dúvidas sobre como acontecerá. Além dos custos, a implementação da tecnologia implica questões logísticas, nomeadamente na colocação das câmaras com certos ângulos, e há alguns estádios que têm desafios grandes nisso", concluiu.