Irão x EUA. "O conflito está a regionalizar-se"

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Gabinete de Guerra hoje com a professora Liliana Reis, especialista em Relações Internacionais. Bom dia, obrigado por se juntar a nós.

Bom dia.

Oitava noite consecutiva de ataques entre as forças norte-americanas e o Irão. Que caminho é que está a levar este conflito com esta intensificação das ações militares entre os dois países?

Bom dia. Bem, neste momento aquilo que nós conseguimos observar é que o conflito está a regionalizar-se. O Irão deixou de responder apenas contra Israel ou diretamente contra as forças norte-americanas e está a intensificar também os ataques contra infraestruturas e bases em países árabes, nomeadamente no Kuwait, no Bahrain e na Jordânia. Aliás, nós já também tivemos a observação de que o Egito e o Catar vieram condenar estes ataques iranianos também no Golfo. Agora, o que nós podemos dizer desde já é que o memorando de entendimento assinado a 17 de junho, e que previa 60 dias para um aprofundamento das negociações e para a abertura da possibilidade da diplomacia funcionar, começa a ficar, não diria esgotado, mas pelo menos paralisado, e não se prevê que em meados de agosto, 17, 18 de agosto, nós possamos efetivamente ter algum avanço significativo. Também tivemos conhecimento nas últimas horas que os Estados Unidos estão a enviar mais aviões de combate para a região e também aviões de reabastecimento. O Wall Street Journal destacou isso na sexta-feira, nomeadamente caças F-35 e F-16. Deve ter uma leitura muito importante. Normalmente, este tipo de projeção de poder militar aéreo antecede uma expansão das opções militares disponíveis. Não significa, necessariamente, que os Estados Unidos vão atacar mais, naturalmente, mas significa que querem estar preparados para o fazer rapidamente e por isso necessitam desta capacidade de projeção de força. Mas também pode ter outra leitura, que os Estados Unidos poderão estar a preparar-se para uma campanha prolongada. Repare, se em Washington estivessem convencidos que o conflito terminaria em poucos dias e avançaríamos novamente para as negociações, não fariam este tipo de esforço. Ora, aquilo que me parece é que o envio destes meios sugere que o Pentágono possa estar também a planear uma operação sustentada e não apenas respostas pontuais aos ataques iranianos às bases norte-americanas. Mas também é, naturalmente, uma mensagem de dissuasão para que o Irão não mantenha estes ataques. Mas deve haver aqui alguma prudência por causa de uma situação: é que o próprio Departamento de Estado norte-americano emitiu um alerta mundial de viagem e recomendou a todos os cidadãos norte-americanos que reforçassem os cuidados devido ao agravamento das tensões no Médio Oriente. E também é um risco de escalada imprevista, naturalmente. Estamos numa fase muito perigosa de escalada regional. E eu acho que foi exatamente por essa leitura que o Egito e o Catar vieram efetivamente condenar os ataques. Repare que o Catar, a par do Paquistão, tem sido um dos principais mediadores deste conflito e devem começar a preocupar-se com a estabilidade regional, mesmo para os próprios países.

Era isso que lhe ia perguntar, que sendo os ataques atingindo países da região, infraestruturas norte-americanas, mas em vários países da região, quem é que pode assumir o papel de pivô para desbloquear este acordo, para além da preocupação e da condenação que o Egito e o Catar têm tido nos últimos dias?

Neste momento, provavelmente apenas o Paquistão é que poderá estar em uma posição mais próxima de trazer o Irão para o diálogo. Ainda assim, aquilo que, pelo menos da leitura que faço, é que nós estamos a assistir uma estratégia clássica de balancing. Repare que a maior parte dos Estados, e não são apenas os estados árabes, não se aproximam dos Estados Unidos ou de qualquer potência hegemônica por qualquer tipo de afinidade ideológica ou normativa. Aproximam-se efetivamente por poder, porque percepcionam que aquela potência hegemônica pode dar proteção e pode dar mais poder aos Estados menores. Ora, se percepcionam ou percepcionarem que a instabilidade provocada pelo Irão representa uma ameaça mais imediata aos seus interesses nacionais, até é provável que outros Estados venham se ajuntar ao Egito e ao Catar nas críticas. E a Guarda Revolucionária Islâmica, que também veio afirmar que os países que acolhem as forças norte-americanas devem estar preparados para receber uma resposta, pode efetivamente ver um dos seus principais objetivos defraudados. O objetivo que vejo principalmente defraudado é a capacidade do Irão agregar vários Estados árabes Contra os Estados Unidos. Ficamos aqui numa posição, pelo menos da leitura que faço, de vantagem clara por parte dos Estados Unidos, a verificar-se uma tendência para que mais Estados condenem estes ataques às bases militares norte-americanas.

E como é que fica o papel de Israel no meio desta intensificação do conflito e desta possibilidade também de evolução do conflito, com mais meios norte-americanos na região do Médio Oriente? E já agora, também, se isso poderá significar a possibilidade de um conflito mais tradicional com as chamadas botas no terreno.

Aquilo que nós vimos esta semana em relação a Israel é que efetivamente Netanyahu veio endurecer as palavras relativamente ao Irão e veio dizer que os ataques poderiam ser muito mais assertivos e muito mais fortes do que aqueles que foram até ao momento, claramente numa lógica de dissuasão. Mas nós não nos podemos esquecer que nós estamos a entrar numa fase, e entraremos também em breve nos Estados Unidos por causa das midterm elections, mas em Israel, efetivamente, parece que Netanyahu já entrou numa fase de discussão de uma política muito mais virada a nível interno. Não nos podemos esquecer que há eleições marcadas para dia 27 de outubro de 2026. Aliás, o Knesset foi dissolvido a 17 de julho, não porque o governo tenha caído, como já vi sugerirem, mas porque necessitava de ser dissolvido para as eleições realizarem-se no quadro previsto em outubro de 2026. Não que esta matéria tenha sido excluída, até porque naturalmente, repare, serão as primeiras eleições depois dos ataques de 7 de outubro e a segurança nacional estará, talvez, na primeira linha de toda a campanha eleitoral em Israel. Mas, neste momento, todos os passos que Netanyahu der, inevitavelmente, terão como objetivo também uma consolidação do seu eleitorado, ou pelo menos uma procura de atender àquilo que são as principais preocupações de todos os israelitas, e por isso é que eu falava na questão da segurança nacional.

Até porque já vai tendo alguma oposição que vai ganhando algum lastro e que esteve também envolvida na resposta aos ataques de 7 de outubro.

Nomeadamente, o chefe do Estado-Maior.

Exato, tem alguns galões para puxar, não é?

Exatamente. O ex-chefe do Estado-Maior está a conseguir capturar para si cada vez mais apoiantes e começa a ser efetivamente uma dor de cabeça para Netanyahu. E aquilo que sinalizava ainda reforça mais a questão de todos os passos militares de Israel, que terão que ser necessariamente muito prudentes, mesmo do ponto de vista tático ou mais operacional, para não serem alvo de crítica por parte de um ex-chefe de Estado-Maior das IDF que, naturalmente, conhecerá muito melhor aquilo que deve ser a condução das operações militares a serem levadas a cabo por Israel.

Professora, deixe-me só passar aqui também pro conflito na Ucrânia e até relacionando, estávamos aqui a falar já de política interna em Israel, na Ucrânia também têm-se registado alguns protestos nos últimos dias por causa da saída do ministro da Defesa.

Do Fedorov.

Exatamente. Com o prolongar dos conflitos, os países vão também começando a revelar mais desgaste e a população, os eleitores, vão começando também a manifestar algum cansaço com as opções políticas que se estão a registar.

Naturalmente, sobretudo em democracias. Aliás, já não é a primeira vez que eu digo, mas naturalmente que as democracias apresentam sempre uma fragilidade superior a qualquer tipo de regimes autocráticos. Repare que a demissão do ministro da Defesa, como sinalizava, do Fedorov, veio levantar também alguma contestação ao próprio Zelenskyy. Primeiro, porque esse ministro era uma figura muito respeitada, não apenas na Ucrânia, mas também em toda a União Europeia, porque tinha sido um dos principais impulsionadores da guerra tecnológica, nomeadamente no desenvolvimento dos drones e da inovação militar e até, aliás, e devo sublinhá-lo, na modernização dos processos de aquisição. E depois, porque efetivamente esta demissão expôs as tensões profundas entre aquilo que é a liderança política e o comando militar de um país que está em guerra, e que naturalmente vai provocando uma erosão muito superior nas lideranças políticas, que são aquelas que respondem pelas opções militares. Agora, aquilo que nós observamos esta semana a propósito da Ucrânia é que a maior vulnerabilidade não vem da Rússia, vem efetivamente das divisões da própria liderança, ainda que os ataques, e isto também deve ser reiterado, os ataques por parte da Rússia à Ucrânia mantiveram-se nos últimos dias e nas últimas horas. E cumpre-me sublinhar em Odessa, em Mykolaiv, em Zaporizhzhia, sobretudo estão agora a procurar intensificar os ataques a infraestruturas portuárias do Mar Negro, como nós tínhamos observado logo no início desta campanha de agressão russa contra a Ucrânia, a propósito da possibilidade, ou mais do que isso, da incapacidade de levar a Ucrânia a ter capacidade para a exportação de cereais, como estamos recordados. E agora, mais uma vez, vemos que o objetivo da Rússia já não se trata apenas de destruir capacidades militares, também se trata de recuperar e reduzir a capacidade exportadora da Ucrânia, nomeadamente ao nível dos cereais. Aliás, mas nós sabemos também desde o início que a Rússia utilizou também a economia e o desgaste psicológico dos ucranianos. Repare, durante o inverno, os ataques por parte da Rússia à Ucrânia são sobretudo a infraestruturas críticas energéticas. Isto é naturalmente para afetar a moral da população ucraniana e inevitavelmente pressionar com isso uma maior contestação ao governo Zelenskyy.

Liliana Reis, muito obrigado por se juntar a nós neste Gabinete de Guerra de domingo com a análise aos conflitos no Médio Oriente e também na Ucrânia.

Muito obrigada e bom dia.