Kid Icarus é uma daquelas franquias da Nintendo que nunca deixam de existir. Elas podem até ficar esquecidas no limbo durante algum tempo, mas eventualmente ressurgem para a felicidade dos fãs.
Pit, o protagonista de Kid Icarus, passou anos praticamente esquecido, até ser resgatado por Masahiro Sakurai em Super Smash Bros. Brawl, no Wii. Pouco depois, ganhou um dos retornos mais surpreendentes da história da Nintendo com Kid Icarus: Uprising, lançado para o Nintendo 3DS em 2012. Desde então o silêncio voltou a imperar.
Mais de uma década depois, a pergunta continua sendo inevitável: será que a Nintendo finalmente está planejando um novo Kid Icarus?
Não há, neste momento, confirmação de um novo jogo. Também não existe anúncio oficial de um remake ou remaster de Uprising. Ainda assim, a franquia tem algo que muitas séries esquecidas não possuem: personagens reconhecíveis, identidade própria e uma base criada por Uprising que poderia ser aproveitada em uma nova aventura.
Olhando para o histórico de Pit, talvez seja cedo demais para dizer que Kid Icarus está morto.
Uma franquia que nasceu duas vezes
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| O game original inovou ao trazer uma jogabilidade de voo em um estilo de plataforma |
O primeiro Kid Icarus chegou ao NES em 1986 e apresentou Pit, um pequeno anjo encarregado de enfrentar as forças de Medusa. O jogo misturava plataforma, exploração e ação em uma estrutura bastante particular para a época.
Três anos depois, a série recebeu Kid Icarus: Of Myths and Monsters, lançado para Game Boy. A aventura portátil manteve a essência do original e, durante muito tempo, foi a última aparição de Pit como protagonista de um jogo próprio. Foi justamente aí que começou o longo período de esquecimento.
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| Kid Icarus também teve um jogo para Game Boy |
Pit passou décadas sem receber uma nova aventura, enquanto a Nintendo concentrava seus esforços em personagens como Mario, Link, Kirby e Donkey Kong. A situação só começou a mudar quando o anjo reapareceu em Super Smash Bros. Brawl, em 2008.
A escolha parecia, no mínimo, curiosa. Por que resgatar justamente um personagem que estava há tantos anos sem protagonizar um jogo? A resposta não demorou a aparecer.
Super Smash Bros. salvou Kid Icarus
A presença de Pit em Smash Bros. não serviu apenas para aumentar o elenco do jogo de luta. Ela acabou funcionando como uma espécie de termômetro para descobrir se ainda havia interesse no personagem.
Durante o desenvolvimento de Uprising, Sakurai explicou que o retorno de Pit em Super Smash Bros. Brawl fez muita gente perguntar se não seria possível produzir um novo Kid Icarus. O próprio desenvolvedor enxergou uma oportunidade de recuperar uma série que estava parada — e o resultado foi bem diferente do esperado.
Kid Icarus: Uprising não tentou simplesmente reproduzir o jogo do NES nem seguir um caminho seguro. Em vez disso, transformou Pit em protagonista de um shooter sobre trilhos extremamente veloz, alternando batalhas aéreas e combates terrestres. O resultado foi uma experiência bastante diferente, incrementada pelo efeito 3D e pela possibilidade de reunir os amigos para jogar.
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| Uprising mesclou combates em solo e no ar de modo único |
O game trouxe uma campanha extensa, nove categorias de armas, sistema de intensidade, multiplayer para até seis jogadores e uma quantidade impressionante de conteúdo. A própria Nintendo destacava a combinação entre combates no ar e no solo como um dos pilares da experiência.
Na época, Uprising recebeu elogios justamente por sua ambição. A análise publicada pelo Nintendo Blast em 2012 destacou os gráficos, a trilha sonora orquestrada, a variedade de armas e o multiplayer, embora os controles, um tanto desconfortáveis, tenham sido apontados como um dos principais problemas.
Um recomeço com ponto de partida
Se a Nintendo decidisse produzir um novo jogo hoje, não precisaria começar do zero. Isso porque Uprising criou uma mitologia muito maior para a franquia.
Pit deixou de ser apenas o herói que enfrenta Medusa e ganhou uma relação divertida com Palutena, a deusa da luz. Dark Pit também surgiu como um contraponto ao protagonista, com personalidade e motivações próprias. Medusa, Viridi, Hades e outros personagens ajudaram a transformar o universo de Kid Icarus em algo muito mais rico do que aquele apresentado nos jogos originais.
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| Personagens como Palutena fortaleceram a franquia |
Palutena e Dark Pit, inclusive, foram incorporados ao universo de Super Smash Bros., mantendo os personagens em evidência mesmo durante o longo período sem uma nova aventura. Como todos já foram apresentados, uma eventual sequência não precisaria gastar tempo reconstruindo a origem desse universo, como ocorreu no título para Nintendo 3DS.
A prisão do 3DS
Para se chegar a uma sequência, contudo, existe um obstáculo gigantesco. Kid Icarus: Uprising foi concebido especificamente para o Nintendo 3DS, pois dependia da tela dupla, do efeito de profundidade e de um esquema de controles bastante particular. O multiplayer também foi pensado para a jogatina local, aproveitando os recursos do portátil.
Além disso, com o fechamento da eShop do 3DS em 2023, o acesso oficial ao título ficou restrito às cópias já adquiridas. A aventura de Pit acabou presa a uma geração, o que torna um relançamento moderno particularmente interessante.
Por outro lado, nada impediria a Nintendo de pensar em um remaster usando a capacidade do Nintendo Switch 2. Uma versão atualizada poderia resolver justamente os maiores obstáculos do original: adaptar os controles, melhorar a apresentação visual e encontrar uma solução para as funcionalidades que dependiam do hardware do 3DS.
E se fosse um novo Kid Icarus?
A melhor ideia seria a Nintendo pensar em algo maior: um game totalmente novo, usando a história e os personagens já consagrados, mas com uma pegada diferente.
Imagine um novo Kid Icarus mantendo a estrutura de ação do 3DS, mas expandindo suas possibilidades. Com o potencial atual, seria possível trabalhar com mundos maiores e mais detalhados, além de uma alternância mais livre entre as batalhas em voo e aquelas no chão.
Isso, é claro, sem mencionar as variações de armas e os chefes gigantescos, que se tornaram marcas da última aventura de Pit. Associado ao sistema de intensidade, funcionando como uma espécie de dificuldade dinâmica, esse conceito permitiria que tanto novatos quanto veteranos encontrassem um desafio adequado.
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| O multiplayer foi um dos destaques no 3DS |
O multiplayer também poderia ganhar um papel maior. Imagine como a fórmula de Uprising poderia ser transportada para uma experiência online, com partidas competitivas e cooperativas, diferentes modos e até eventos temporários. Seria uma maneira interessante de transformar uma franquia esquecida em uma propriedade capaz de receber conteúdo durante vários anos.
Mas quem faria?
Kid Icarus: Uprising foi desenvolvido pela Project Sora sob direção de Masahiro Sakurai. O estúdio, entretanto, não existe mais. Isso significa que uma eventual sequência precisaria encontrar uma nova equipe capaz de entender o que fazia o título funcionar.
Repetir a fórmula seria arriscado, ainda mais por se tratar de uma mistura incomum de shooter, ação, elementos de RPG, humor, batalhas terrestres e aéreas. Esse caos todo funcionava porque Sakurai conseguiu trazer sua própria identidade para o projeto. Por isso, uma nova aventura teria de encontrar sua própria personalidade.
A solução mais clara — e também a mais difícil — pode ser reinventar a mecânica da série. Na atualidade, é difícil não imaginar um mundo aberto, algo mais próximo de The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom, que poderia combinar com o estilo e a mitologia da série.
Só que esse seria um projeto altamente ambicioso e que dificilmente passaria despercebido pelo público e pelo mercado.
A Nintendo ainda se lembra de Pit
Apesar do silêncio da Nintendo, existe um detalhe que não pode ser ignorado: a empresa não tem medo de ressuscitar franquias antigas. Fire Emblem e Metroid são alguns dos principais exemplos dessa estratégia.
É claro que existe uma diferença enorme entre dizer que uma franquia tem potencial e afirmar que um novo jogo está sendo produzido. Uprising deixou uma base sólida, Pit e Palutena continuam conhecidos graças a Smash Bros. e o universo criado por Sakurai tem personagens suficientes para sustentar uma nova história.
Talvez a Nintendo esteja simplesmente esperando o momento certo. E, convenhamos, seria muito apropriado se o anjo que passou mais de 20 anos esperando por uma nova aventura tivesse de esperar mais um pouco.
A diferença é que, em vez de vir caminhando, a ressurreição de Kid Icarus poderia ocorrer com ele já voando, literalmente — nem que seja para morrer ao ir em direção ao Sol, como ocorreu na história original de Ícaro.
Revisão: Cristiane Amarante



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