Kremlin responde a Le Pen: "Rússia não representa uma ameaça para França"

"A Rússia não representa uma ameaça para a França ou para qualquer outro país europeu. O Presidente [Vladimir] Putin já o disse várias vezes. Não temos disputas com nenhum Estado europeu que possam levar a graves desentendimentos", afirmou o porta-voz da presidência russa, na sua conferência de imprensa diária por telefone.

Peskov reagia a uma declaração dos principais dirigentes do partido União Nacional – Marine Le Pen e Jordan Bardella – na qual avisaram que as políticas de Paris não seriam influenciadas pelas "ameaças" e "intimidação" de Moscovo, no seguimento do anúncio da apropriação dos ativos da filial russa da rede francesa Auchan.

"Rejeitamos categoricamente estas alegações. Não as aceitamos", declarou o porta-voz do Kremlin.

Esta reação surge no mesmo dia em que o ex-presidente russo Dmitri Medvedev disse que considera agora a União Nacional um partido "russófobo" e próximo dos "nazis em Kiev", após ter rompido com as suas posições anteriores de distanciamento à condenação de Paris e da União Europeia à invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022.

"Aparentemente, o partido de Le Pen é agora apenas mais um partido europeu comum: a russofobia e o apoio aos nazis em Kiev", escreveu Medvedev, atual secretário adjunto do Conselho de Segurança Nacional, na rede X, referindo-se a Marine Le Pen, apresentada nas sondagens como favorita às presidenciais de 2027.

O antigo líder do Kremlin (2008-2012) comentou que Le Pen considerou a recente tomada de posse dos ativos da Auchan como "um ato hostil", ignorando "milhares de sanções" contra os russos em França, além do envio de mísseis para "os degenerados" em Kiev.

"Isto foi amigável?", questionou Medvedev, conhecido pelas suas posições radicais e ameaçadoras contra o Ocidente desde o início do conflito na Ucrânia.

Numa declaração conjunta divulgada no sábado, Marine Le Pen e Jordan Bardella afirmaram que a Rússia não podia "esperar ditar a política francesa, direta ou indiretamente, através de intimidação, ameaças, desestabilização ou pressão psicológica".

O posicionamento dos dirigentes da extrema-direita francesa condenou ainda "veementemente" a decisão de Moscovo de assumir o controlo de ativos pertencentes a empresas europeias que ainda operam na Rússia, como a multinacional suíça Nestlé e a Auchan, classificando-a como um "ato hostil" que "mina diretamente os interesses e os direitos" das empresas.

"Nenhuma provocação, nenhuma operação clandestina e nenhuma ação desestabilizadora poderá levar a França a facilitar a conquista dos objetivos de guerra da Rússia na Ucrânia", advertiram Le Pen e Bardella na sua declaração.

Marine Le Pen é frequentemente criticada pelos seus opositores por posições consideradas conciliatórias em relação ao Presidente russo, em contraste com a linha seguida pelo Presidente Emmanuel Macron e pelo bloco europeu.

O chefe da diplomacia de Paris, Jean-Noel Barrot, referiu-se na semana passada ao aumento das táticas de intimidação russa contra a Europa, após vários incidentes no espaço europeu e da NATO atribuídos a Moscovo, e afirmou que a França está a preparar-se para qualquer ameaça de agressão e manterá o seu apoio à Ucrânia.

Depois de visar várias empresas europeias, Vladimir Putin emitiu hoje um decreto que autoriza uma companhia russa a controlar temporariamente as atividades de uma fábrica de embalagens alimentares dos Estados Unidos.

De acordo com um decreto presidencial hoje publicado, a totalidade das ações da "Aptar Vladimir" está a ser transferida sob "administração temporária" para o grupo russo "H&N".

Segundo o 'site' da empresa, citado pela agência France-Presse (AFP), a fábrica Aptar Vladimir, localizada a cerca de 170 quilómetros a leste de Moscovo, faz parte das divisões de alimentos e bebidas do grupo norte-americano Apta, e produz embalagens de plástico.

A Aptar, com sede no estado norte-americano de Illinois, afirma empregar 14.000 pessoas em 20 países.

A empresa que vai assegurar os seus ativos na Rússia, a H&N, é a Logika Moloka, um grupo que já tinha adquirido a subsidiária russa da gigante alimentar francesa Danone em 2023 e é controlado por um sobrinho do líder checheno Ramzan Kadyrov.

Na passada quinta-feira, por decreto de Putin, os ativos russos da Nestlé e dos grupos franceses Auchan e FM Logistic, bem como a antiga subsidiária russa da Leroy Merlin, foram colocados sob "administração temporária" numa única empresa russa.

O Kremlin justificou a decisão alegando que estas empresas pertenciam a países "não amigáveis", enquanto Paris pediu a Moscovo que revertesse a aquisição.

Desde a invasão da Ucrânia e aplicação de sanções económicas impostas por países ocidentais a Moscovo, muitas multinacionais abandonaram a Rússia, outras suspenderam as suas operações ou viram os seus bens confiscados e transferidos para empresas russas.

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