O vírus do Nilo Ocidental é o novo inimigo de saúde pública na Europa. Este ano, já houve 54 vítimas mortais na Itália e 36 na Grécia — e mais de 1.400 casos no continente. Segundo o que João Ribeiro, infecciologista da NOVA Medical School, conta à NiT, também já foi identificado em Portugal.
Caso não esteja familiarizado com esta doença, pertence à mesma família onde se encontram a dengue e a febre amarela. A transmissão é feita, em grande parte, através da picada de mosquitos do género Culex.
A história da patologia começou a ser documentada em 1937, no Uganda. Durante décadas, esteve associado a África, ao Médio Oriente e a algumas regiões da Ásia. A partir daí, chegou a outras partes do mundo. “Posteriormente espalhou-se pelas Américas — entrou nos Estados Unidos em 1999 — e tornou-se também uma doença endemo-epidémica em várias zonas da Europa, sobretudo no sul, centro e leste europeu”, refere João Ribeiro.
Itália, Grécia, Roménia, Hungria e Espanha estão entre os países europeus onde a circulação do vírus tem sido observada mais frequentemente. A expansão para novas zonas está relacionada com vários fatores ambientais. “As alterações climáticas têm um papel muito importante”, afirma o especialista.
Temperaturas mais elevadas, períodos de verão mais longos e invernos com temperaturas mais amenas podem prolongar a atividade dos mosquitos e favorecer a multiplicação do vírus no interior destes insetos.
Há ainda outros elementos envolvidos. As alterações nos padrões de chuva, a presença de águas paradas, as zonas húmidas, os movimentos das aves migratórias e as mudanças ambientais podem criar condições para a manutenção do ciclo de transmissão. “Não é simplesmente o mosquito que está a ‘viajar’ de país para país”, esclarece o médico. “O Culex já existe em grande parte da Europa. O que está a mudar são as condições que permitem que o ciclo mosquito–ave–mosquito se mantenha durante mais tempo e em novas regiões”.
E Portugal não fica de fora da lista. “Portugal teve já um caso humano adquirido localmente no Algarve em 2015 e temos tido deteções repetidas da infeção em cavalos”, explica João Ribeiro. Em 2025, foram registados focos nestes animais em Lisboa e Vale do Tejo e no Alentejo.
Apesar destes dados, o especialista não considera que Portugal esteja perante uma epidemia iminente. “Eu não diria que estamos perante uma epidemia iminente em Portugal. Diria que existe um risco real que justifica vigilância, sobretudo durante os meses mais quentes.” Nos dados europeus disponíveis até 17 de setembro, Portugal não tinha registado casos humanos adquiridos localmente nesta época de transmissão.
Uma picada de um mosquito infetado não tem de resultar numa doença grave. Na verdade, cerca de 80 por cento das pessoas infetadas não têm qualquer sintoma. Entre os restantes casos, 20 por cento desenvolvem uma doença febril e menos de um por cento criam um doença neurológica grave.
Quando surgem sintomas, podem incluir febre, dor de cabeça, dores musculares e articulares, cansaço e mal-estar. Também podem ocorrer náuseas, vómitos, diarreia ou uma erupção cutânea. “Os sintomas aparecem habitualmente entre dois e 14 dias depois da picada do mosquito infetado”, explica o médico.
Há sinais que exigem outra atenção. Alterações do estado de consciência, desorientação, rigidez da nuca, tremores, convulsões, fraqueza muscular ou paralisia podem indicar envolvimento do sistema nervoso. “Aí estamos perante a possibilidade de doença grave e é necessária avaliação hospitalar”, alerta.
“O vírus pode atingir o sistema nervoso central e provocar meningite, encefalite ou uma síndrome semelhante a poliomielite, com paralisia flácida aguda.” Os casos mais graves podem exigir internamento e cuidados intensivos, com alguns doentes a necessitar de suporte ventilatório.
A recuperação também não é igual para todos. “Alguns doentes ficam com sequelas neurológicas ou fadiga prolongada.” A doença pode provocar a morte, com maior risco entre pessoas idosas, imunodeprimidas ou com algumas doenças crónicas. Até 3 de setembro, 78 por cento dos casos registados na Europa tinham resultado em hospitalização e 60 por cento apresentavam sintomas neurológicos, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças.
A prevenção passa por reduzir a exposição aos mosquitos e impedir que encontrem locais onde possam reproduzir-se. “Não existe uma vacina aprovada para utilização em seres humanos, por isso a nossa principal arma é evitar a picada do mosquito e controlar a sua reprodução.” O especialista recomenda ainda o uso de repelente, em particular no final da tarde e durante a noite, roupa que cubra os braços e as pernas quando existe atividade de mosquitos e redes nas janelas.
Há ainda uma medida que pode ser aplicada em casa. “Um prato de um vaso, um balde, um recipiente abandonado ou água acumulada num jardim podem ser suficientes para permitir a reprodução dos mosquitos.” A eliminação destes pontos de água reduz os locais disponíveis para a reprodução dos insetos.
Se forem detetados novos casos em Portugal, a resposta terá de envolver várias áreas. “Aquilo que temos de fazer é impedir que a circulação aumente e, sobretudo, impedir que se transforme num problema importante de saúde humana.” A estratégia inclui vigilância dos casos humanos, dos mosquitos, das aves e dos cavalos.
Quando existe transmissão numa determinada região, podem ser reforçadas as medidas de controlo. “Podemos intensificar o controlo dos mosquitos, utilizar larvicidas ou adulticidas quando indicado, reforçar a informação à população e aumentar a vigilância clínica.”
Não existe, contudo, um tratamento específico capaz de eliminar o vírus. Por isso, para João Ribeiro, a resposta passa menos pelo medo e mais pela vigilância. “Prevenir a transmissão, detetar precocemente a circulação e reconhecer rapidamente os casos graves são as nossas melhores armas.”