Memórias de Marta, por Gabriela Piroli

"As crianças pensam; e as impressões que sentem são duráveis e profundas. Tenho passado por grandes tempestades e nenhuma me deixou mais vestígios do que a que abalou a minha meninice."

Vivi, como Marta, a morte precoce do meu pai. Assim como ela, assisti ao trabalho interminável de minha mãe na busca desvairada de proporcionar-nos uma vida melhor. Minha mãe se chama Marta.

A leitura me colocou num lugar desconfortável e, porque desconfortável, intrigante. Como se o livro fosse menos uma narrativa do que um espelho inclinado: dependendo do ângulo, eu via outra pessoa. Dependendo do ângulo, eu via a mim mesma. Numa linha do tempo flexível que combinava o que eu era hoje, o que eu já tinha sido e o que viveram aqueles que vieram antes de mim.

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Numa edição do romance publicada pela editora mulheres¹ há a reprodução de uma nota de próprio punho pela escritora, na qual ela declara que as cenas brutas do livro foram por ela pressentidas através do muro que existia entre o colégio que ela estudava e um cortiço em São Cristóvão. "Aquele ambiente", diz ela, "inspirou a minha sensibilidade de menina, minha melancolia…"

Me lembro de ouvir falar da vida num cortiço desde muito nova. Minha avó Nazareth, assim como a Ilhoa² do romance, fazia parte do grupo de portugueses que vieram ao Brasil em busca de prosperidade, mas não a encontraram. Meu pai era o mais novo entre os cinco filhos dessa portuguesa que chegou ao Brasil com três anos. Viveram, grande parte da vida, num cortiço na região do Pari, em São Paulo. Meu pai morreu sem conseguir ser o primeiro filho a ter um diploma de nível superior, mas já foi muito além dela, que morreu analfabeta.

Gabriela Prioli — Foto: Acervo Pessoal
Gabriela Prioli — Foto: Acervo Pessoal

Diante dessa referência, eu era rica. Um pouco mais moça, entretanto, a compreensão sobre qual era o meu lugar ficou um pouco mais complexa. Eu era rica em comparação com a vida que teve o meu pai. Era rica porque, num bairro da periferia de São Paulo, eu morava num apartamento enquanto muitos de meus amigos moravam em comunidades. Era rica porque, ao contrário deles, estudava numa escola particular…

E, no entanto, nessa escola que eu frequentava por ter bolsa integral, eu deixava de ser rica. O meu apartamento de cinquenta metros quadrados na Vila Mangalot parecia menor diante dos meus amigos e suas casas de quinhentos metros quadrados em condomínios fechados.

Marta, muito mais vulnerável do que eu, se pergunta: "Por que não teria eu igual direito a possuir tudo, como a Lucinda, sem pedir ou aceitar esmolas? E por que me fazia tão mal essa palavra, a mim, que nada conhecia do mundo?". Ainda criança ela começa a perceber a desigualdade entre sua situação e a de outras meninas, como Lucinda, filha de uma cliente rica de sua mãe.

"A mim, que nada conhecia do mundo". Marta ainda não compreendia inteiramente aquilo que a feria, mas já reconhecia a injustiça.

E, no entanto, o seu lugar psíquico também não é simples. A menina que se ressente da precariedade sentida no contato com a abundância, se sentia superior quando, tendo a possibilidade de frequentar a escola, olhava para os seus vizinhos ainda fora da escola: "Olhei altivamente para minhas companheiras de miséria, sorrindo-me, como sorrira a Lucinda quando a meu lado, em frente ao espelho".

A consciência da desigualdade nasce no olhar para cima, mas a sensação de superioridade nasce no olhar para baixo. A menina ferida pelo sorriso de Lucinda devolve o mesmo sorriso às suas companheiras de miséria, pensando que, assim, pudesse se salvar. Como se fosse possível aliviar uma ferida transformando-a em cicatriz alheia.

A arrogância era um escudo frágil. O caminho era o estudo. Não como vocação, não como ideal, mas como fuga. "Eu não pensava em ser útil, em tornar-me necessária, imprescindível: eu queria ser mestra para não morar em um cortiço mal alumiado, infecto, úmido, nesta terra onde há tantas flores, tanta luz e tantas alegrias."

Reconheci imediatamente essa aspiração. Não era uma fome de grandeza. Era uma fome de distância. Há uma honestidade brutal nisso que nenhuma narrativa de heroísmo consegue substituir. Há muitos para os quais mudar o mundo vem depois da urgência de mudar o próprio mundo.

O cortiço da minha história ficou muito distante de mim. Faz tempo que eu tenho condições materiais de olhar ao redor. Em duas gerações, a distância percorrida é enorme. De uma mulher analfabeta para uma neta doutoranda. E, no entanto, há prisões que sobrevivem à ascensão.

Marta percorreu uma longa distância. Acreditava que a pobreza era o obstáculo. Estudou. Passou no concurso, tornou-se professora, pagou o aluguel, sustentou a mãe. Fez tudo o que pensou que precisava fazer para garantir a si mesma uma vida digna. E ainda assim, descobriu tarde demais que havia outra prisão esperando por ela.

A mãe, já no fim, se preocupava. Não tanto com a filha, mas com o que os outros pensariam dela. "A reputação da mulher é essencialmente melindrosa. Como o cristal puro, o mínimo sopro a enturva". Marta ouviu. E casou com Miranda, sem entusiasmo, sem amor, sem escolha. Venceu o mundo. Foi vencida por ele.

Júlia Lopes de Almeida escreveu em 1889. Eu, em 2026.

Apesar de ter participado da concepção da Academia Brasileira de Letras, seu nome desapareceu da lista final quando a instituição foi fundada. Seu marido, Filinto de Almeida, foi colocado em seu lugar.

Talvez você já tenha sentido o cansaço que não decorre da derrota em si, mas que aparece no momento anterior a ela, quando você percebe que a luta vai continuar para sempre e que o campo nunca estará nivelado. Quando a independência que você conquistou à força não é suficiente para protegê-la do olhar dos outros, da sensação constante de insuficiência, de que você ainda deve alguma coisa ao mundo: um marido, um filho, uma suavidade, um recuo…

O cristal, por mais puro que seja, cansa de resistir ao sopro.

Depois de tudo, Marta cedeu.

Não a culpo.

¹ Citada por Rosana Cassia dos Santos no artigo "Julia Lopes de Almeida: a subversão possível em Memórias de Marta".

² "Ilhoa" é o feminino de "ilhéu" — significa habitante de uma ilha, ou seja, uma mulher que nasceu ou vive numa ilha. É um termo usado sobretudo no contexto português e das ilhas atlânticas (Açores, Madeira, Cabo Verde), mas pode aparecer em textos literários brasileiros do século XIX com esse mesmo sentido.

FONTES:

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue

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