O discurso do primeiro-ministro e presidente do PSD na Festa do Pontal, na noite de sexta-feira, elencou "as grandes coisas" que o Governo está "a fazer bem" e referiu "um país a crescer, com emprego e com oportunidades". Contudo, os partidos na oposição discordam e, por isso, têm tecido duras críticas às declarações de Luís Montenegro no Algarve.
Do Partido Socialista, o dirigente Filipe Santos Costa disse este sábado que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, está "mais desfasado que a Alice no País das Maravilhas" porque descreve um país que não corresponde à realidade.
"Portugal está pior e os portugueses estão muito piores, os dados desmentem a propaganda da Aliança Democrática (AD). Luís Montenegro está mais desfasado que a Alice no País das Maravilhas", afirmou o socialista à Lusa em reação ao discurso do chefe do Governo e líder social-democrata na 50.ª Festa do Pontal, a tradicional 'rentrée' do PSD, em Albufeira, Faro.
Segundo Filipe Santos Costa, do secretariado nacional do PS, o país descrito por Montenegro não corresponde à realidade porque os dados mostram que a AD está a falhar em tudo aquilo que propôs aos portugueses.
Na oposição, a AD dizia que era fácil pôr o país a crescer mais de 3%, pegou num país a crescer 3% e baixou o crescimento para 1,9%, destacou.
Já o Chega considerou hoje "escandaloso" que o primeiro-ministro tenha ignorado na rentrée "os casos que melindram a credibilidade do Governo", como o ministro da Administração Interna, acusando Luís Montenegro de estar "desligado da vida dos portugueses".
"É escandaloso que o primeiro-ministro simplesmente ignore os casos que melindram absolutamente a credibilidade do Governo. Ignorou completamente as suspeitas graves que neste momento existem sobre o ministro da Administração Interna, porque provavelmente, e aqui se revela, talvez na sua forma mais intensa, está absolutamente comprometido com a situação de Luís Neves", acusou André Ventura num vídeo enviado às redações através do qual reagiu ao discurso da rentrée do primeiro-ministro, Luís Montenegro.
Para o presidente do Chega, o discurso que Montenegro fez na noite de sexta-feira na Festa do Pontal, no Algarve, mostra como o chefe do executivo "está desligado da vida dos portugueses".
"A forma como o primeiro-ministro tentou ignorar completamente o caso do seu ministro da Administração Interna, apesar de todos os portugueses saberem as suspeitas graves que existem, mostra como não é um Governo livre, como não é um primeiro-ministro livre e como não mostra combater os conluios, a corrupção e a falta de transparência", criticou.
Já o Livre considerou que o discurso do primeiro-ministro e líder do PSD na festa do Pontal foi "um verdadeiro elogio da banalidade" de um "Governo esgotado".
A intervenção de Luís Montenegro "mostra sobretudo um governo que está esgotado" sem "uma única ideia para o país" e é "um verdadeiro elogio da banalidade", disse o deputado Paulo Muacho, do Livre, numa declaração em vídeo, assinalando que o chefe do Governo ignorou os problemas do país.
Quando "pede para que se fale menos sobre aquilo que não corre bem", Paulo Muacho afirma que este é "um primeiro-ministro que claramente não está confortável com o trabalho da oposição de apontar os erros e aquilo que vai sendo mal feito".
"Diz-nos que não são apenas números que são pessoas, mas esqueceu-se de falar dos dois milhões de portugueses que continuam em risco de pobreza", acrescentou, citando depois outros números como o "milhão e meio de portugueses que continuam sem ter médico de família" ou os "portugueses que não conseguem pagar a sua habitação porque os preços das casas subiram só no ano 17,6 por cento".
Ainda na noite de sexta-feira, o Partido Comunista Português (PCP) afirmava que "quem estica o salário até ao fim do mês" não se reviu no discurso do primeiro-ministro e presidente do PSD na Festa do Pontal, enquanto o Bloco de Esquerda acusou Luís Montenegro de recorrer à "rábula do costume".
Estas posições foram assumidas por Margarida Botelho, membro do secretariado do Comité Central do PCP, e José Manuel Pureza, coordenador do BE, em reações enviadas à comunicação social.
"O primeiro-ministro falou de governar para as pessoas, mas creio que quem espera para pôr o bebé na creche e não teve vaga, quem espera por aceder a uma urgência e a encontra fechada, quem estica o salário até ao fim do mês e tem muita dificuldade porque está tudo mais caro, não se reviu neste discurso do primeiro-ministro", criticou a dirigente comunista.
Margarida Botelho acusou também o executivo de seguir uma agenda "partilhada com o grande capital, com a União Europeia, com o imperialismo", em que "umas vezes vai buscar apoios ao PS, outras vezes ao Chega e à Iniciativa Liberal".
O líder do BE disse que Luís Montenegro usou a "rábula do costume": "Ouvimos esta noite o Luís Montenegro dizer que lá fora é que dão valor à grande obra do Governo português e que cá dentro as pessoas não se dão conta de tão grande coisa que nós temos. É um bocadinho a rábula do costume de Luís Montenegro. O país está melhor, as pessoas é que não", atirou.
José Manuel Pureza afirmou ainda que o primeiro-ministro transmitiu no discurso que os portugueses são "uns ingratos" por falarem do que corre mal, pedindo a Montenegro que pergunte aos jovens o impacto das falhas na correção dos exames nacionais ou na dificuldade de aceder à habitação.
"Finalmente, em terceiro lugar, o primeiro-ministro veio dizer que o desígnio do Governo é aumentar o rendimento de todas as pessoas, sobretudo aquelas que têm menos. Muito bem, hoje mesmo entrou em vigor o diploma que põe em prática a Prestação Social Única (PSU). E feitas as contas, sabemos que este diploma do governo retira 161 euros a quem beneficia do subsídio de desemprego a partir do sétimo mês de desemprego", acrescentou ainda, referindo que o partido se vai juntar a outras forças para levar o decreto sobre a PSU ao Parlamento.
Mas o que disse Luís Montenegro?
O primeiro-ministro criticou "uma espécie de censura moderna" em que as pessoas só conhecem as polémicas e os incidentes e o mais importante fica "escondido em notas de rodapé", defendendo Portugal "com orgulho em si próprio".
"Não podemos viver uma espécie de censura moderna em que as pessoas só conhecem, sabem e debatem os assuntos mais polémicos, os assuntos de pequenos incidentes, dos pequenos episódios e deixar aquilo que é mais importante escondido em notas de rodapé ou mesmo omitido dos grandes espaços de veicular e comentar a informação", criticou.
O presidente do PSD disse que o partido e o Governo que lidera têm uma cultura política de "fazer mais e não falar assim tanto", o que, admitiu, "irrita muita gente" que queria que o executivo falasse "todos os dias".
O Governo, segundo Montenegro, está concentrado "em fazer de Portugal um país maior" no aproveitamento do território, do seu potencial económico, na modernização do funcionamento do Estado e na resposta às pessoas nas suas necessidades.
Recorde aqui o discurso na íntegra:
Festa do Pontal 2026 https://t.co/KOIn6J2t5v
— PSD (@ppdpsd) August 14, 2026

Entre "resultados" e críticas, Montenegro garante: "Estamos para durar"
Luís Montenegro defendeu, na Festa do Pontal, que o PSD é "um partido de todos" e garantiu que o Governo continuará focado em fazer de Portugal "um país maior". O social-democrata criticou ainda o que classificou como uma "espécie de censura moderna".
Márcia Guímaro Rodrigues com Lusa | 22:05 - 14/08/2026