Morreu cineasta francês Jean-Paul Rappeneau, realizador de "Cyrano de Bergerac"

O realizador, com uma carreira de quase 60 anos, trabalhou com atores como Yves Montand ("Meu Irresistível Selvagem") e Catherine Deneuve ("Escândalo no Castelo"), Jean-Paul Belmondo ("Os Noivos da Revolução") e Isabelle Adjani ("A Vida É Uma Festa"), mas foi com Cyrano de Bergerac, o anti-herói da peça de Edmond Rostand, e o seu amor por Roxane, que o cineasta alcançou o maior sucesso.

Escrito em parceria com Jean-Claude Carrière e protagonizado por Gérard Depardieu, "Cyrano de Bergerac" (1990) conquistou dez milhões de espetadores em todo o mundo, dez prémios César do cinema francês, incluindo o de Melhor Filme e o de Melhor Realizador, e ainda cinco nomeações para os Óscares de 1991.

"Não podíamos simplesmente contentar-nos com uma adaptação visual da peça (...). O verdadeiro desafio do filme é que as personagens falam em verso", explicou o cineasta, citado pela AFP.

Conhecido pelo perfecionismo, Rappeneau escolhia os projetos com cuidado, não hesitando em deixar passar muitos anos entre cada filme, como hoje descreve a agência francesa de notícias.

"Não sou como uma macieira que deixa cair os seus frutos todos os outonos. O meu ritmo é mais como um filme a cada cinco ou seis anos. Não vejo por que razão devemos produzir projetos um após o outro. A não ser que precisemos do dinheiro...", disse à revista Paris Match, em 2015.

Jean-Paul Rappeneau nasceu em 08 de abril de 1932, em Auxerre. Dedicou-se ao estudo de Direito, mas depressa abandonou o curso, na década de 1950, para se dedicar ao cinema. A admiração por "Citizen Kane", de Orson Welles, pesou na decisão.

De início, Rappeneau trabalhou com realizadores como Yves Robert e Louis Malle, para quem escreveu, os argumentos de "As Aventuras de Arsène Lupin" (1959), "Zazie no Metro" (1960) e "Vida Privada" (1962).

A estreia na realização aconteceu em 1958, com a curta-metragem "Chronique provinciale", a que se seguiria, oito anos depois, a primeira longa-metragem, "Escândalo no Castelo" ("La vie de château"), com Catherine Deneuve, como esposa entediada de Philippe Noiret.

Embora o percurso inicial de Rappeneau coincida com a afirmação da Nouvelle Vague, o cineasta manteve-se distante do movimento que marcou o cinema nas décadas de 1950 e 60.

"Com exceção de `O Acossado` [de Jean-Luc Godard] e `Hiroshima Meu Amor` [de Alain Resnais], nenhum dos filmes da Nouvelle Vague me atraiu verdadeiramente", disse Rappeneau, citado pela AFP.

A filmografia de Jean-Paul Rappeneau inclui as longas-metragens "Boa Viagem" (2003), com Adjani, "O Hussardo no Telhado" (1995), com Juliette Binoche, e "Que Famílias!" (2015), com Mathieu Amalric, o seu derradeiro filme.

Como argumentista trabalhou ainda com Philippe de Broca em "O Magnífico" (1973) e "O Homem do Rio" (1964), e Alain Cavalier, em "Duelo na Ilha" (1962), entre outros cineastas.

A ministra francesa da Cultura, Catherine Pégard, reagiu à morte de Rappeneau recordando "um cineasta sensível e alegre, um mestre da graça e da elegância no ecrã".

O presidente do Centro Nacional de Cinema de França, Gaëtan Bruel, por seu lado, disse que Rappeneau "possuía o raro dom de um cinema popular e romântico, em que a precisão do argumento se mistura com movimento, elegância e um formidável gosto pela aventura".

"Quando um filme acaba, sinto-me como um náufrago na praia, à espera da próxima viagem", escreveu Jean Paul Rappeneau nas suas memórias ("Vive allure"), publicadas no ano passado.