Lá pelo final dos anos 1980, nossa mãe trabalhava como professora primária na E.E. Antonio Fontana, na pequena cidade paulista de Frutal do Campo.
Os alunos eram em geral bem pobres, filhos de lavradores, ou eles próprios empregados na roça, em parte como espantadores de pomba (rodavam as plantações de bicicleta estourando rojões para afastar as amargosas comedoras de brotos).
O recreio era um dos territórios seguros contra a fome, e ela ajudava a não faltar magia. Quando chegava, limpando a sola das botonas de cano alto no raspador de ferro da entrada da escola, com saias longas, brincões reluzentes e o cabelo preto cacheado volumoso, as crianças disparavam para abraçá-la. Dava um certo ciúmes, mas eram as dores de ser filho de uma celebridade.
Um dia, soube que uma sobrinha aspirante a confeiteira descartaria um lote de barras de chocolate de dois quilos. Era uma marca barata, e achou horríveis, rançosos, o que confirmamos ao experimentá-los.
Rosana experimentou, ignorou nossas caretas, e reivindicou os tabletes para si. Comprou forminhas de ovos de Páscoa de 100 gramas, maços de papel de embrulho, fitas, e colocou a casa inteira na linha de produção: naquele ano, muitos dos alunos comeriam um ovo de Páscoa pela primeira vez. Ficamos contrariados, e com vergonha das crianças. Alguns disseram depois: "O melhor chocolate que já comi".
Sem conhecer a pobreza, não entendemos nada —ela entendeu tudo. Nascida em Assis, viveu numa casa simples, apelidada de taperinha, e foi deixada criança para ser criada pela tia Iolanda, enquanto os pais foram tentar a vida em Osasco. Teve uma única boneca na vida, com roupinha de aeromoça, que uma outra menina quebrou (décadas depois, ainda contava isso com dor).
Formou-se no magistério, depois em pedagogia, cursou parte de letras. Tornou-se uma leitora rápida, de ler Dostoiévski numa sentada. Era uma alfabetizadora de poderes mágicos —criança, adulto, com ela todo mundo aprendia rápido. Perguntada pela nora Alessandra sobre a fórmula para educar, resumiu: "Muito amor e rédea curta".
Logo se tornou diretora de escolas estaduais, e passou por várias. Por volta dos 13 anos, conheceu duas paixões: o marido músico, com quem ficou até os 40 (e teve também a filha Daniela, que morreu na primeira semana de vida), e as canções de Elvis Presley, que a acompanharam até o fim da vida, aos 70 anos, no dia 14 de julho.
No começo de seu velório, "Always on my Mind" tocou em sua homenagem. No final, depois das três orações, os amigos acompanharam com palmas o compasso de "La Bamba", na versão de Los Lobos, a música que incendiava a pista nos bailes do Havaí de Frutal do Campo que ela organizava, repletos de colares de flores e de fartura.
As prendas deliciosas (frutas, frangos, leitões), ela conseguia por doação dos sitiantes e comerciantes da região, o que lhe deu a fama de "pidoncha". As festas, percebidas como superproduções, eram organizadas em prol do caixa da escola. No dia seguinte, porém, ela madrugava para fazer a contabilidade e no final dizia: "Ufa, empatou". No fim, era tudo em prol da magia, "de una poca de gracia".