MSF alertam para desnutrição infantil aguda no sul da Somália

Além disso, 25% das crianças com menos de 5 anos sofrem de "desnutrição grave", de acordo com a avaliação realizada a 21.000 crianças desde o início do ano e um inquérito sobre desnutrição levado a cabo em julho pela MSF, ambos apresentados numa conferência de imprensa em Nairobi.

"Penso que é muito evidente o que vemos no terreno: não há comida suficiente, nem água, nem cuidados médicos", afirmou, na capital queniana, o consultor de saúde da MSF na Somália, Mitchell Sangma.

O inquérito foi realizado em 888 agregados familiares de 14 campos de deslocados em Baidoa e revelou que um terço das famílias tem apenas uma refeição por dia.

"Estamos a assistir a muitas complicações em consequência disto, também no que diz respeito às admissões hospitalares no nosso centro de alimentação terapêutica para doentes", afirmou a gestora de atividades epidemiológicas da MSF na Somália, Chenoa Sankar.

Grande parte desta situação deve-se a uma grave seca que provocou 90% dos 500.000 deslocamentos que ocorreram na Somália no primeiro trimestre do ano, dos quais 85% são de mulheres e crianças, segundo a ONU.

"Nenhuma das famílias que entrevistámos no inquérito tinha acesso a carne, aves, peixe, legumes ou frutas. Por isso, não tinham acesso a óleos nem gorduras. Nós próprios fomos aos mercados e pudemos constatar a escassez destes produtos em geral. E pudemos observar a inflação", acrescentou Sankar.

A tudo isto acresce a situação de insegurança em Baidoa, onde o Exército da Somália combate o grupo terrorista Al-Shebab e, em menor medida, as tropas leais a um líder regional destituído pelo Governo federal na sequência de uma disputa política.

"O impacto na segurança afeta, naturalmente, o acesso diário às comunidades que se encontram fora de determinadas zonas. O acesso não está totalmente bloqueado, mas também não é fácil chegar lá", declarou a coordenadora do projeto da MSF na Somália, Allara Ali, por videoconferência.

Ali referiu ainda que Baidoa é "um reflexo da falta de serviços" em consequência do conflito que assola o país e, em particular, esta região somali, embora tenha salientado que outras cidades mais estáveis também carecem de serviços básicos.

Ali apelou à comunidade internacional para que aja antes de "se declarar a fome" e, assim, evitar "a perda de vidas" em consequência da falta de orçamento para a resposta de emergência, num contexto marcado pelos cortes abruptos na ajuda humanitária impostos desde 2025 pelos Estados Unidos e por vários países europeus.

O Governo Federal da Somália declarou o estado de emergência devido à seca em novembro de 2025, a sua primeira declaração deste tipo desde 2022.

Várias ONG alertaram que a Somália enfrenta mais uma crise alimentar 15 anos depois de ter sofrido uma das suas piores situações de fome, que causou, em 2011, quase 260.000 mortos, metade dos quais crianças.

A Somália vive num estado de conflito e caos desde 1991, quando o ditador Mohamed Siad Barre foi derrubado, o que deixou o país sem um Governo efetivo e nas mãos de milícias islâmicas e senhores da guerra.

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