Não foi só Cristiano Ronaldo. Como Jorge Jesus virou a seleção do avesso

Três jogos, três vitórias. À margem da rota de colisão com Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus vai convencendo como selecionador nacional, com a equipa das quinas a começar a mostrar alguns sinais da nova identidade, afastando-se, cada vez mais, da herança de Roberto Martínez. 

Em Copenhaga, frente à Dinamarca, a seleção nacional protagonizou a melhor exibição com Jorge Jesus no comando técnico, de acordo com a avaliação do próprio, e quiçá no momento de maior pressão. 

Na véspera, Cristiano Ronaldo havia abandonado o estágio da seleção nacional, depois de não ter gostado das declarações do selecionador. Ainda assim, Portugal deu uma resposta cabal ao mundo, que estava de olhos postos no Parken Stadium. 

O resultado de 4-2 foi apenas uma consequência natural do que aconteceu, ao longo de 90 minutos, dentro do relvado. Portugal teve personalidade com bola, soube reagir quando a perdeu e revelou-se letal na hora de visar a baliza nórdica. 

Os dados disponibilizados pela GoalPoint são expressivos. Portugal superou a Dinamarca em remates enquadrados (10 contra três), ocasiões flagrantes de golo (seis contra uma) e mais ações na área adversária (28 contra 27). 

Os nórdicos, por sua vez, conseguiram levar a melhor na eficácia de passes verticais (71% contra 68%) e na posse de bola (54%). 

Estes números ganham especial importância quando comparados com o que acontecera um ano e meio antes, em março de 2025. Portugal visitava a Dinamarca, na 1.ª mão dos quartos de final da Liga das Nações, e o desfecho foi bastante distinto. 

Para lá da derrota (0-1), precisamente no mesmo estádio, a seleção nacional, então comandada por Roberto Martínez, foi 'atropelada' pelos nórdicos, que apenas não dominaram no capítulo da posse de bola. De resto, a seleção lusa teve zero (!) ocasiões flagrantes de golo criadas. 

[ 🇩🇰 Dinamarca 2-4 Portugal 🇵🇹 ]
Dinamarqueses levaram "cum pau"

Grande exibição colectiva da Selecção, com Gonçalo Ramos e Bruno Fernandes em alta rotação, cada um na "sua parte", frente a Hjulmand, Froholdt e Cia

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— GoalPoint (@_Goalpoint) October 1, 2026

Portugal acabaria por dar a volta à eliminatória em Alvalade, seguindo para a final four, onde bateu Alemanha e Espanha para se sagrar o grande vencedor da competição. 

O que mudou num ano e meio?

No entanto, muita coisa mudou desde então. Olhando apenas para estas duas visitas ao Parken, a base de jogadores mantém-se, mas com algumas diferenças. 

Cristiano Ronaldo já não figura no onze e deu lugar a um Gonçalo Ramos que não precisa de muitas oportunidades para fazer golos. 

O avançado português até foi titular no primeiro jogo da era Jorge Jesus, alinhando 67 minutos frente ao País de Gales, mas assinou uma exibição perdulária, desperdiçando um par de grandes oportunidades. CR7 até chegou a festejar um golo, mas acabaria por ver o VAR anular o lance por fora de jogo. 

Ramos, por sua vez, marcou contra a Noruega e contra a Dinamarca, apesar de ter praticamente os mesmos remates enquadrados de CR7. 

Também no número de toques na bola e de perdas de posse há uma aproximação entre ambos. 

Gonçalo Ramos ganha maior dimensão no momento defensivo, sendo bem mais ativo em cortes, interceções e alívios. 

Assim sendo, o avançado do Milan consegue aliar uma percentagem de eficácia bastante alta à contribuição defensiva, ao mesmo tempo que oferece apoios frontais de forma recorrente, permitindo à equipa abrir espaços e descobrir novas formas de procurar o golo - algo que as estatísticas nem sempre conseguem expor. 

Comparativo Cristiano Ronaldo/Gonçalo Ramos (dados Sofascore)

  Remates enquadrados Toques na bola Perdas de bola Cortes Interceções  Alívios
Ronaldo (vs Gales) 2 27 5 0 0 0
Ramos (vs Noruega) 1 28 9 3 2 0
Ramos (vs Dinamarca) 2 30 2 0 0 1

Bernardo sem espaço? 

Ao mesmo tempo, a nova era na seleção nacional parece reduzir, ainda mais, o espaço de Bernardo Silva. Em três jogos, o jogador que assinou pelo Real Madrid no verão apenas teve direito a escassos minutos na Noruega, estando, inclusive, atrás de Francisco Trincão (entrou primeiro na Noruega e foi opção na Dinamarca) na hierarquia de JJ. 

No entanto, esta perda de influência do criativo de 31 anos já vem do Mundial2026, ainda com o antecessor de Jesus. Bernardo até arrancou como titular frente à RD Congo, mas acabaria por ser relegado ao banco de suplentes, sendo utilizado em todos os jogos seguintes, à exceção da Colômbia. 

Com Jesus, treinador com quem já se havia cruzado no Benfica, tendo até saído por falta de oportunidades, Bernardo Silva estará longe de ser primeira opção, até porque o sistema tático não é o mais adequado para as suas características. 

Linha defensiva estabelecida 

Jorge Jesus está, agora, de baterias apontadas ao novo embate com a Noruega, desta feita, no Estádio do Dragão, mas o onze base parece estar cada vez mais implementado.

Para lá da titularidade de Gonçalo Ramos, a linha defensiva composta por João Cancelo, Rúben Dias, Renato Veiga e Nuno Mendes parece estar para durar, juntando-se o indiscutível Diogo Costa na baliza. No meio-campo, Rúben Neves e João Palhinha vão ombrear pelo lugar de médio mais recuado, ao passo que Vitinha é o eleito para jogar na posição 8. 

Nas alas, a contribuição defensiva de Pedro Neto vai valendo-lhe um lugar na equipa inicial, embora Francisco Conceição e Rafael Leão também sejam opções valorizadas por Jorge Jesus.

Por fim, Bruno Fernandes e João Félix também são jogadores com titularidade garantida, salvo qualquer problema físico. 

De todo o modo, estes são apenas os primeiros indicadores da nova era da seleção nacional, cujo principal objetivo, imediato, passar por reconquistar a Liga das Nações, antes de fazer mira ao Euro2028. 

Portugal esquece Cristiano Ronaldo e outro mago pega na batuta nórdica

Portugal esquece Cristiano Ronaldo e outro mago pega na batuta nórdica

As notas do jogo entre a Dinamarca e Portugal, a contar para a terceira jornada da fase de grupos da Liga das Nações, que não contou com Cristiano Ronaldo, mas sim com Bruno Fernandes a dar mestria nórdica na vitória lusa.

Davide Rodrigues Araújo | 07:48 - 02/10/2026