Depois de Werner Herzog, o Kursaal entrega-se a Naomi Watts. “The Housewife — A Esposa Perfeita”, visto já ontem à noite pela imprensa, que transforma a atriz na grande figura deste segundo dia: uma mulher impecável, um passado monstruoso e uma interpretação suficientemente forte para pôr a temporada dos prémios a olhar para a atriz
San Sebastián acordou para o segundo dia com Naomi Watts no centro da fotografia, do cartaz imaginário e, sobretudo, do filme que mais interessa ver. Depois de Werner Herzog ter recebido ontem o primeiro Prémio Donostia desta edição, hoje é a vez de Watts subir ao palco do Kursaal, às 22h15, para receber das mãos do cineasta espanhol J. A. Bayona a segunda homenagem de carreira do festival, antes de uma nova projeção de The Housewife — A Esposa Perfeita, agora de gala com uma surpreendente primeira obra do realizador canadiano Ben Shirinian, que nós já vimos ontem à noite na sessão de imprensa. A gala será apresentada por Jon Plazaola e o filme voltará depois a ser mostrado ao público. Não é difícil perceber a escolha. Watts e Bayona têm uma história comum chamada O Impossível, filme de 2012 que lhe deu a segunda nomeação ao Oscar de Melhor Atriz; a primeira viera com 21 Gramas, de Alejandro González Iñárritu. Pelo meio, e à volta, ficaram Mulholland Drive, de David Lynch, King Kong, de Peter Jackson, Promessas Perigosas, de David Cronenberg, Funny Games, na segunda versão, em inglês, de Michael Haneke, Enquanto Somos Jovens, de Noah Baumbach, e Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), outra vez de Alejandro González Iñárritu. Não é propriamente um currículo de quem precise que lhe expliquem, a esta australiana de origem, onde fica Hollywood. O Festival recorda precisamente essa capacidade rara de Watts atravessar o cinema de autor, o grande estúdio e a televisão sem nunca parecer turista acidental em nenhum deles.
A dona de casa que não era dona de casa nenhuma
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Comecemos então pelo filme The Housewife — A Esposa Perfeita, apresentado fora da competição, porque homenagens são bonitas, os discursos costumam ter lágrimas e os prémios de carreira ficam muito bem em cima da lareira, mas aquilo que verdadeiramente justifica a noite de hoje chama-se Hermine Braunsteiner Ryan (Naomi Watts). The Housewife passa-se em Nova Iorque, em 1964, e parte da história real da antiga guarda de campos de concentração nazis que conseguiu instalar-se nos EUA, casar com um americano, obter a cidadania e construir no bairro de Queens uma vida tão normal que quase parecia saída de um anúncio de detergente do tempo do “american way of life”. Até aparecer Joseph Lelyveld, jovem jornalista do The New York Times, seguindo uma pista do caçador de nazis Simon Wiesenthal. O verdadeiro Lelyveld publicou a investigação em julho de 1964; Braunsteiner Ryan viria a perder a cidadania americana e seria extraditada, em 1973, para a Alemanha Ocidental, tornando-se a primeira criminosa nazi extraditada dos EUA.
Ben Shirinian, canadiano que aqui se estreia na longa-metragem depois das curtas Lost in Motion, Lost in Motion 2 e Josef et Aimée, pega num argumento de Alyssa Hill que circulava desde a Black Listde 2016 e constrói um filme de 102 minutos onde a grande pergunta não é exatamente “quem é o nazi?”, apesar de durante algum tempo brincar com essa possibilidade, mas uma coisa muito mais perversa: quanto mal estamos dispostos a não ver quando o mal nos oferece bolachas, cose um botão do nosso casaco e mantém a cozinha imaculadamente limpa? Naomi Watts é Hermine, Tye Sheridan interpreta Lelyveld, Luke Evans é Russell Ryan, Michael Imperioli entra como o agente de imigração Anthony DeVito e Lena Olin, esta também num notável come-back como secundária, aparece numa participação pequena mas devastadora, como uma sobrevivente chamada a testemunhar.
E é aqui que convém dizer que A Esposa Perfeita (The Housewife) é um excelente filme, ainda que não seja perfeito; e talvez seja precisamente essa imperfeição que o torna discutível e, portanto, ainda mais interessante. A receção em Toronto, onde teve estreia mundial a 10 de setembro, foi dividida: houve quem acusasse Shirinian de carregar demasiado no melodrama, no tribunal e nos sublinhados narrativos, enquanto outras leituras destacaram Watts como o elemento que mantém tudo de pé. Estou bastante mais perto do segundo grupo. Há momentos em que o argumento explica aquilo que já tínhamos percebido — doença muito contemporânea de um cinema que parece recear que o espectador esteja simultaneamente a olhar para o telemóvel —, mas Shirinian sabe filmar a casa, os objetos, os vestidos coloridos do catálogo do Macy’s, os gestos e aquela domesticidade asséptica como uma prisão construída pela própria personagem.
Naomi Watts e a arte de sorrir enquanto esconde um cadáver histórico
O filme pertence, porém, todinho a Naomi Watts. E é aqui que a expressão regresso em grande precisa de umas aspas. Watts nunca desapareceu: esteve recentemente em Feud: Capote vs. The Swans, onde interpretou Babe Paley e recebeu uma nomeação para o Emmy, protagonizou The Friend, apareceu em Closing Night, de Cody Fern, e continua a trabalhar entre cinema e televisão. Mas uma coisa é estar a trabalhar; outra é receber uma personagem que recorda ao mundo por que motivo David Lynch a transformou numa das atrizes essenciais da sua geração. Neste sentido, sim: The Housewifeé um regresso.
Watts constrói Hermine ao milímetro. Primeiro o sorriso. Depois o sotaque. Depois a postura. Depois o olhar. Depois aquela mão sempre ocupada a limpar, arrumar, cozinhar, servir, compor qualquer coisa, porque controlar uma casa também pode ser uma maneira de controlar uma narrativa. Quando a máscara começa a cair, Watts não muda subitamente de personagem; deixa simplesmente sair aquilo que esteve lá desde o primeiro plano. O guarda-roupa de Anette Cseri faz metade desse trabalho silencioso, passando pelos azuis, cinzentos e negros até ao vestido vermelho com que Hermine celebra a cidadania americana, como se tivesse finalmente comprado não uma peça de roupa, mas uma identidade. Dir-se-ia mesmo um ponto decisivo da interpretação: Watts deixa a ameaça emergir em fragmentos, em vez de a anunciar com trombetas.
Há uma sequência tardia em que aquilo que Hermine guardava emocionalmente — e quase literalmente — no fundo de um armário vem finalmente ao de cima. A partir daí já não vemos apenas uma mulher a defender-se; vemos a personagem que passou o filme inteiro a representar uma mulher diferente. E é esse duplo desempenho que pode começar a colocá-la nas conversas da temporada de prémios. Convém não escrever em setembro a lista de nomeados ao Oscar de março, porque Hollywood gosta bastante de estragar previsões e ainda mais de cobrar pelas campanhas que as alimentam. Mas Watts tem aqui o tipo de interpretação que as faz nascer: transformação sem maquilhagem exibicionista, personagem histórica, enorme arco dramático, duas nomeações anteriores e, sobretudo, uma cena ou duas que qualquer montagem de campanha agradecerá. Zurique já anunciou que lhe entregará o Golden Eye precisamente pela interpretação em The Housewife. San Sebastián oferece-lhe agora algo ainda mais valioso: o momento da consagração.
Muito mais cinema à volta de Naomi
Nem só de Watts vive este sábado, embora hoje pareça viver bastante, mas também é bom para dar algum descanso para uma semana agitada que aí vem. A competição recebe 5 minutos más, de Javier Ruiz Caldera, escrito por Berto Romero e protagonizado por Javier Cámara, Belén Cuesta e o próprio Romero, uma comédia fantástica sobre um casal em crise para quem o tempo começa literalmente a andar cinco minutos para trás. E regressa, claro, Os Miseráveis, que vimos ontem, a monumental adaptação de Victor Hugo assinada por Fred Cavayé, com 178 minutos e Vincent Lindon como Jean Valjean, Tahar Rahim como Javert, Camille Cottin, Noémie Merlant e Benjamin Lavernhe, ou seja, as tais três horas de pão roubado, culpa, perseguição, redenção e revolução, porque Victor Hugo nunca foi homem para resolver um problema em 90 minutos.
Na Perlak, há ainda Tangles, de Leah Nelson, animação sobre Alzheimer com vozes de Julia Louis-Dreyfus, Abbi Jacobson, Bryan Cranston, Beanie Feldstein e Seth Rogen; Fatherland, regresso de Paweł Pawlikowski depois de Guerra Fria, agora seguindo Thomas Mann e a filha Erika através da Alemanha devastada de 1949, com Sandra Hüller e August Diehl; e The Invite — O Convite, de Olivia Wilde, com Penélope Cruz, Edward Norton, Seth Rogen e a própria Wilde, jantar entre vizinhos que promete demonstrar uma das grandes verdades do cinema e da vida: nunca aceitar um convite para jantar num filme quando os anfitriões parecem demasiado interessantes; e que já estreou, aliás, com grande sucesso de público e a funcionar o boca-a-boca em Portugal. É uma jornada carregada, com várias sessões esgotadas e uma cidade já completamente entregue ao mecanismo anual de correr entre o Kursaal, o Victoria Eugenia, os Príncipe e a primeira barra de pintxos que ainda aceite jornalistas com a acreditação pendurada ao pescoço.
Mas o Dia 2 tem um rosto. Às 22h15, J. A. Bayona entregará a Naomi Watts o Prémio Donostia. Em 2012, ele pô-la no meio de um tsunami em O Impossível e ela respondeu com uma nomeação para o Óscar. Quatorze anos depois, Ben Shirinian coloca-a numa cozinha impecável dos subúrbios americanos, dá-lhe um avental, um bolo, uma limonada, um sorriso e um dos passados mais tenebrosos que uma personagem pode esconder. O tsunami, afinal, talvez fosse mais fácil. E quando The Housewife voltar esta noite ao ecrã do Kursaal, a homenagem deixará, por momentos, de ser retrospetiva. Porque os prémios de carreira costumam celebrar aquilo que alguém já fez. Este, graças a Naomi Watts, pode acabar também por celebrar aquilo que ela ainda está a fazer e aquilo que ainda tem para fazer. E isso é bastante mais interessante.