"Estamos a combater a incitação ao ódio antissemita a nível global, mas quando vem de dentro, de entre nós, é simplesmente intolerável", afirmou Netanyahu num vídeo publicado nas redes sociais, em reação ao filme que reproduz testemunhos sobre abusos com recurso a inteligência artificial das forças israelitas na Faixa de Gaza e que recebeu o Prémio Especial do Júri no último Festival de Veneza.
O chefe do Governo comentou que "os dois realizadores israelitas retratam as Forças de Defesa de Israel como se fossem criminosos de guerra e são aplaudidos no Festival de Veneza", aludindo à longa ovação que o filme recebeu na sua apresentação, na passada quinta-feira.
Na sua mensagem por vídeo, Netanyahu associou o documentário a declarações do antigo general e atual líder do partido de oposição Democratas, Yair Golan, quando no ano passado disse que Israel "está a matar bebés em Gaza como um 'hobby'".
O primeiro-ministro procurou também ligar o filme ao partido Yashar, liderado pelo antigo comandante do exército Gadi Eisenkot, referido que tem por sua vez um acordo eleitoral com Yair Golan para as legislativas marcadas para 27 de outubro.
Eisenkot, principal adversário do Likud de Netanyahu e que tem surgido na liderança da generalidade das sondagens, criticou o documentário no domingo, comentando que "Naza" oferece uma imagem "distorcida e unilateral" do conflito no enclave palestiniano e prejudica os soldados israelitas.
Outros líderes da oposição já criticaram igualmente o conteúdo do documentário.
"Naza" (acrónimo hebraico utilizado pelo exército para se referir a danos colaterais) baseia-se em 24 testemunhos anónimos de membros do exército e dos serviços de informações e questiona a estratégia empregue por Israel na Faixa de Gaza e práticas que conduziram a baixas civis em grande escala.
Em concreto, o filme aborda o uso de tecnologia e sistemas de inteligência artificial para identificar alvos sem intervenção humana, o que já foi negado pelas forças armadas, em comunicado divulgado após a projeção no Festival de Veneza, ao mesmo tempo que questionava a identidade e a fiabilidade dos entrevistados.
O comandante do exército, Eyal Zamir, acusou hoje o documentário de tentar "minar a legitimidade" de Israel e das suas forças armadas, e ordenou um estudo sobre as medidas legais contra o filme e os seus autores.
"Com base no que foi publicado até à data, este não é um filme que critique as Forças de Defesa de Israel, nem uma tentativa de estabelecer a verdade. Baseia-se em calúnias de sangue, distorções deliberadas da realidade e acusações graves e falsas contra soldados e comandantes", declarou o chefe militar em comunicado.
Zamir alegou que o exército israelita age "de acordo com o Direito internacional e os seus padrões éticos" e afirmou que as suas tropas se esforçam por reduzir o número de civis afetados nas suas operações.
O comunicado acrescenta que o chefe das forças armadas ordenou a criação de uma equipa para preparar uma resposta às alegações do documentário, estudar possíveis ações legais e verificar se foram utilizados materiais confidenciais sem autorização durante a sua produção.
Antes do chefe do Governo e do comandante do exército, o ministro da Cultura israelita indicou que tomará medidas para revogar a cidadania dos realizadores do documentário.
"Como ministro da Cultura, agirei imediatamente para revogar a cidadania israelita destes criadores vis por traição contra o país", disse Miki Zohar numa mensagem na rede social X.
Zohar acusou Yuval Abraham e Rachel Szor de terem um "ódio ardente e autodestrutivo" e de estarem "dispostos a prejudicar a sua pátria para receberem aplausos dos antissemitas do mundo"., juntando-se a palavras de condenação do ministro da Segurança Nacional, o ultranacionalista Itamar Ben-Gvir, que classificou os cineastas como "uma vergonha e uma desgraça para todo o povo de Israel".
Já hoje, o ministro da Cultura pediu hoje um inquérito para identificar as fontes usadas no filme.
Yuval Abraham e Rachel Szor dirigiram também, com os palestinianos Basel Adra e Hamdan Ballal, o documentário "No Other Land", vencedor de um Oscar em 2025, sobre o plano israelita de destruição e desalojamento dos habitantes palestinianos de uma aldeia na Cisjordânia.
A guerra na Faixa de Gaza foi desencadeada pelos ataques liderados pelo grupo islamita Hamas em 07 de outubro de 2023 no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1.200 pessoas e 251 foram feitas reféns.
Em retaliação, Israel lançou uma operação militar em grande escala no enclave, que causou mais de 73 mil mortos, segundo as autoridades locais controladas pelo Hamas, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.
Desde o início do atual cessar-fogo, acordado em outubro do ano passado, as autoridades da Faixa de Gaza contabilizam mais de 1.300 palestinianos mortos em ataques das forças israelitas, que mantêm altas restrições à entrada de jornalistas e observadores independentes no território.
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