"Não há nada de novo na declaração [de Ortega]. Por outras palavras, a Nicarágua não se vai tornar agora um regime ditatorial só porque corre o risco de não ter mais eleições. Já era, nada mudou, (...) pois antes não havia eleições a sério, eram simulacros", declarou o investigador Marcelo Moriconi, professor auxiliar convidado do Centro de Estudos Internacionais (CEI-ISCTE).
Ortega descartou explicitamente, no domingo, qualquer possibilidade de alternância democrática no país, ao afirmar que o seu regime não permitirá processos eleitorais que ponham em risco o controlo do partido no poder.
A Nicarágua deveria ter eleições presidenciais no fim de 2026, mas uma reforma constitucional sancionada pelo Governo no ano passado transferiu as eleições para 2027. Em 2024, Ortega propôs mudanças na Constituição para dar a si e a sua mulher, Rosario Murillo, poder absoluto sobre os três Poderes do Estado.
O presidente do Parlamento da Nicarágua, controlado pelo partido no poder, anunciou na quarta-feira que os deputados vão votar no início de agosto uma lei para impedir a participação da oposição nas eleições, a pedido do Presidente Ortega.
Segundo o investigador do CEI-ISCTE, Ortega justifica a falta de eleições como forma de evitar a interferência política dos Estados Unidos, ou seja, impedir os norte-americanos de apoiarem e instalarem um candidato.
"O que Ortega diz faz sentido, porque os Estados Unidos têm interferido diretamente nas eleições latino-americanas", admitiu, referindo que o receio do chefe de Estado nicaraguense "é real" e relembrando a prisão pelos EUA do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e as ameaças feitas contra o anterior Governo colombiano.
Segundo o investigador, mesmo que "Ortega ganhasse uma hipotética eleição de forma justa, os Estados Unidos poderiam alegar fraude e usar a força para o afastar do poder".
As declarações de Ortega "enterram ainda mais a já maltratada democracia nicaraguense (...)", "derrubando quaisquer veleidades sobre a continuidade da Revolução Sandinista sob o regime de Ortega, que se tornou um espelho da cruel ditadura hereditária de Somoza", afirmou o historiador Cristiano Pinheiro de Paula Couto, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa (IHC-UNL).
A Revolução Sandinista foi um movimento popular e guerrilheiro na Nicarágua liderado pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). O movimento esquerdista derrubou a ditadura da família Somoza em 1979 e Ortega esteve à frente do governo até 1990.
"Se, como sugeriu Carlos Fuentes, Ortega falava pela América Latina no triunfo da luta de emancipação nicaraguense, hoje --- como qualquer observador honesto pode constatar --- Ortega fala apenas por si mesmo, instrumentalizando o anti-imperialismo e a própria história de uma Revolução que materializou as esperanças de muitos povos oprimidos", disse Couto.
Para o historiador, a esquerda democrática deve condenar, sem ambiguidades, "a aberrante e criminosa perpetuação do regime de Ortega, e pugnar criticamente pela restituição do poder ao verdadeiro protagonista da Revolução Sandinista --- o próprio povo nicaraguense".
A declaração de Ortega no domingo traz um efeito duplo, segundo Giuliano Braga, investigador do Centro de Investigação em Ciência Política na Universidade do Minho (CICP-UMINHO).
"Esta declaração [de domingo] acentuou a crítica ao governo Ortega pelos principais atores ocidentais, como EUA e a União Europeia (UE), nomeadamente quanto à qualidade da democracia e a autocratização do seu governo", indicou Braga, lembrando que o Presidente nicaraguense não está tão preocupado com o que os EUA e a UE pensam sobre seu modo de governar, dado que suas alianças com outras grandes potências como a China continuam cada vez mais fortes.
Segundo o investigador do (CICP-UMINHO), as sanções impostas pelos EUA geraram um efeito aparentemente reverso, que além do possível encerramento da corrida eleitoral de 2027, aumentou o receio do Presidente nicaraguense de uma intervenção dos EUA nas eleições.
Ortega voltou ao poder em 2007 e a última eleição presidencial, em novembro de 2021, foi contestada, já que todos os principais candidatos da oposição foram presos. O Governo tem reprimido com extrema violência as manifestações populares, além de perseguir, prender e deportar os seus opositores.

Nicarágua não permitirá eleições que ameacem controlo do poder
O Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, descartou explicitamente este domingo qualquer possibilidade de alternância democrática no país, ao afirmar que o seu regime não permitirá processos eleitorais que ponham em risco o controlo do partido no poder.
Lusa | 06:43 - 20/07/2026