Há dias, num voo, tive o privilégio de viajar ao lado do Sr. António. Quando o avião aterrou, ainda longe do terminal, começou o espetáculo habitual. O ruído dos cintos de segurança a desapertarem-se, passageiros de pé, compartimentos abertos, mochilas às costas e gente a tentar avançar por um corredor bloqueado.
O Sr. António e eu permanecíamos sentados. Observava calmamente o ambiente à nossa volta quando me perguntou: “Padre, porque é que as pessoas têm tanta pressa?”.
A pergunta não me deixou indiferente. Realmente para quê tanta pressa se todos nos voltaríamos a encontrar no mesmo autocarro que nos levaria ao terminal de saída?
Talvez passemos a vida inteira a acreditar que a felicidade pertence aos que chegam primeiro. Num aeroporto cruzamo-nos com pessoas de todo o mundo, ouvimos línguas diferentes, vemos famílias, peregrinos, executivos, crianças excitadas e avós cansados. Todos correm! Naquele momento de saída do avião pensei que talvez Sartre tivesse alguma razão quando escreveu que «o inferno são os outros» . Mas, olhando melhor, percebi que os outros também podem ser o nosso céu.
Afinal, os aeroportos estão cheios de oportunidades para a amabilidade.
Na escada rolante quando deixamos passar quem tem mais pressa. No sorriso para a funcionária do check-in que ficará a trabalhar enquanto nós vamos descansar quinze dias. Na paciência quando a nossa mala é a feliz contemplada para uma inspeção adicional. Na delicadeza com a hospedeira que talvez venha de um voo de longo curso e esteja preocupada com os filhos. Há um sem numero de oportunidades para sorrir e ser amável nos aeroportos. O problema é que a pressa nem sempre nos deixa aproveitá-las.
Para isso proponho um exercício: imaginar Jesus numa viagem de avião. Não me parece um assim tão difícil.
Consigo imaginá-Lo no controlo de segurança, sem reclamar da fila, sem olhar constantemente para o relógio. Sem suspirar porque o passageiro da frente demorou mais do que devia.
Consigo imaginá-Lo a abrir a mochila quando lhe pedem para retirar os líquidos. E a tirar cuidadosamente a bolsa de líquidos que Nossa Senhora Lhe teria comprado quando Ele era criança.
Consigo imaginá-Lo a meter conversa com a pessoa do lado. Nós passamos metade da viagem a rezar para que ninguém se sente ao nosso lado. Jesus provavelmente passaria metade da viagem a interessar-Se genuinamente pela história daquela pessoa.
Consigo imaginá-Lo a olhar pela janela e a rezar. Afinal, durante a Sua vida gostava de subir às montanhas para estar a sós com o Pai. Também se reza bem a dez mil metros de altitude.
Consigo imaginá-Lo a ajudar alguém a colocar a mala no compartimento superior. A agradecer à tripulação. A sorrir a uma criança que chora. E até consigo imaginá-Lo a deixar a casa de banho do avião limpa para quem viesse a seguir.
Consigo imaginá-Lo a permanecer sentado quando o avião aterra. Sem correr para o corredor. Sem disputar espaço. Teria uma extraordinária capacidade de transformar a espera em encontro, os atrasos em oportunidade e as pessoas em prioridade.
Gosto de imaginar Jesus conformado quando o avião estaciona longe do terminal e é preciso apanhar o autocarro.
Fiquei a pensar nisto quando saía do avião acompanhado do Sr. António. Sorriu e despedimo-nos. Afinal, ninguém ganhou a corrida.
Talvez tenha ganho quem aproveitou a viagem. Quem falou com a pessoa do lado. Quem desejou boa viagem. Quem agradeceu. Quem sorriu. Quem tornou o caminho mais leve para os outros.
Como padre, acontece-me frequentemente que alguém me peça uma bênção no avião. Talvez as pessoas se sintam mais seguras ao ver um padre a bordo. Mas penso muitas vezes que existe outra bênção de viagem ao alcance de todos: a amabilidade.
Li recentemente um livro muito recomendável, O Poder Oculto da Amabilidade. O título diz quase tudo. O aeroporto é um desses lugares onde essa força escondida se torna visível. As férias não começam quando chegamos ao destino. Começam quando deixamos de correr. Com amabilidade, como Jesus. Boas férias!
Peço desculpa aos leitores que viajam de automóvel, de autocarro ou de comboio. Tenho a certeza de que saberão encontrar exemplos semelhantes. Afinal, a pressa não é um exclusivo dos aviões e dos aeroportos.