O bicentenário de Eugénia de Montijo

Embora não fosse esse o seu verdadeiro nome, a mulher do Imperador Napoleão III passou à História como Eugénia de Montijo, designação esta que eclipsou as suas origens e a sua remota relação com Portugal. Tendo nascido em Granada, a 5 de Maio de 1826, ocorre em 2026 o bicentenário do seu nascimento.

A Imperatriz Eugénia casou, em Janeiro de 1853, com Napoleão III, o sobrinho de Napoleão Bonaparte que lhe sucedeu no trono imperial, pois o único filho de Napoleão I, embora chamado Napoleão II, nunca reinou. Napoleão III tinha sido previamente eleito presidente da República francesa e, a 2 de Dezembro de 1852, foi proclamado Imperador. É já nesta qualidade que casa, pouco depois, com a espanhola Eugénia de Montijo. Deste casamento só nasceu um filho, o Príncipe Imperial Napoleão Eugénio que, em 1879, foi morto em combate, pelos zulus, na África austral, sem deixar geração.

Para assegurar a continuidade da dinastia Bonaparte, Napoleão III procurou uma mulher digna de com ele partilhar o trono imperial. Mas uma das candidatas foi tão permissiva que o Imperador chegou à conclusão de que não era uma pessoa idónea para o efeito, pois ‘à mulher de César não lhe basta ser honesta, deve também parecê-lo’.

O Imperador optou então por Eugénia de Montijo, de lendária beleza. Quando manifestou interesse em ir aos aposentos dela, a futura Imperatriz, que não era ingénua, nem leviana – Victor Hugo dizia que ‘o pudor é a epiderme da alma’ – disse-lhe que o caminho para o seu quarto passava pela capela! Napoleão III percebeu então que, só por via do Sacramento do Matrimónio, poderia aceder àquela íntegra dama, cuja firme resposta era prova da sua aptidão moral para ser uma digna ‘mulher de César’.

Napoleão III era filho de Luís Bonaparte, Rei da Holanda, e da Rainha Hortense, que era filha do primeiro casamento da Imperatriz Josefina, a primeira mulher de Napoleão I. A Rainha Hortense da Holanda era irmã de Eugénio, que foi o pai de Amélia de Leuchtenberg, que casou com D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil; e de Augusto de Leuchtenberg, que casou, a 26 de Janeiro de 1835, na Sé de Lisboa, com a Rainha D. Maria II, tendo morrido a 28 de Março desse ano, no Palácio das Necessidades, sem geração. D. Maria II casou depois com Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, o Rei consorte D. Fernando II, e foram os pais de D. Pedro V e D. Luís I, cuja descendência se extinguiu com a morte, sem filhos, de D. Manuel II.

Pela sua ascendência paterna, Eugénia de Montijo descendia de Juana de Borja, a qual era irmã do célebre Papa Alexandre VI, que foi pai de César, de Lucrécia e de Giovanni Borgia, o avô paterno de São Francisco de Borja. Este santo foi Vice-Rei da Catalunha e Duque de Gandia, tendo casado com a nossa compatriota Leonor de Castro e Melo de Menezes, de quem teve geração espanhola e portuguesa. Foi a morte da formosíssima Isabel, que era filha de D. Manuel I e mulher de Carlos V, que despoletou a radical mudança da sua vida: ante o cadáver da Imperatriz, o Duque de Gandia não mais quis servir senhor que lhe pudesse morrer. Já religioso jesuíta, foi o segundo sucessor de Santo Inácio de Loyola à frente da Companhia de Jesus. (No século XX, aconteceria, com um Duque de Alba por casamento, uma conversão inversa, mas essa é outra história!).

A mulher de Napoleão III, que oficialmente se chamava “Maria Eugénia de Guzmán Portocarrero e Palafox” (Almanach de Gotha, 1879, pág. 16), era conhecida como Eugénia de Montijo. Usou socialmente o nome desta povoação espanhola da província de Badajoz, homónima da que existe no distrito de Setúbal, porque seu pai e avó paterna foram Condes de Montijo e, como tal, eram tratados. Esta sua avó era, pela sua varonia, nona neta de Juan Pacheco e de Maria Portocarrero; sendo ele neto paterno e materno de dois portugueses: Martim Vasques da Cunha e D. João Fernandes Pacheco, respectivamente. Sua mulher era igualmente de origem portuguesa: a sua família apelidava-se originariamente Portocarreiro, mas como alguns dos seus membros emigraram para Castela e aí se notabilizaram, passando a chamar-se Portocarrero, o mesmo fizeram os seus parentes portugueses, para garantirem a unidade da família.

Também o Guzmán, ou Gusmão, tem relação com o nosso país. A esta família pertencia D. Leonor de Gusmão, que casou com o 4.º Duque de Bragança, que a assassinou por infundada suspeita de adultério: se as aparências importam, mais relevante é a presunção de inocência, que só uma sentença firme pode desmentir. Melhor sorte teve D. Luísa de Gusmão, que foi Rainha de Portugal pelo seu casamento com o então 8.º Duque de Bragança, que viria a ser o nosso Rei D. João IV. Apesar de espanhola, D. Luísa de Gusmão foi partidária da independência portuguesa, pois dizia que mais valia ser rainha por um dia, do que duquesa toda a vida. O rei que a fez rainha também coroou Nossa Senhora da Conceição, que é, desde então, Padroeira e Rainha de Portugal!

Se Eugénia recebeu de seu marido o estatuto imperial que, segundo São Francisco de Borja, pouco vale, Napoleão III ficou a dever à sua mulher várias lições de moral que, para a salvação eterna, valem muito mais. A este propósito conta-se que, um dia, o Imperador perguntou à mulher: ‘Sabeis a diferença entre a vossa pessoa e um espelho?’. ‘Não’, respondeu Eugénia. ‘É que o espelho reflecte, mas vós não …’. A Imperatriz não se ficou e respondeu logo: ‘E vós sabeis qual a diferença entre a vossa pessoa e um espelho?’. Ante a negativa do marido, acrescentou: ‘É que o espelho é polido, e vós não!’ (Arautos dos Evangelho, nº 278, Julho 2026, pág. 33).

Um ex-príncipe britânico, embora não tenha sido condenado judicialmente, protagonizou atitudes impróprias e, por isso, foram-lhe retirados os títulos de príncipe e de duque. Um ex-cunhado do Rei de Espanha, aproveitando-se dessa sua condição, cometeu vários crimes, pelos quais foi condenado a uma pena efectiva de prisão. Estes casos são excepcionais, mas fazem pertinente esta evocação da exemplaridade moral de Eugénia de Montijo.

Os que estão constituídos em autoridade devem ter presente que esse seu estatuto, mais do que conferir direitos, impõe deveres. Por isso, o seu incumprimento não pode ficar impune, como não ficou nos casos recentes do que foi cunhado de Filipe VI de Espanha e duque de Palma de Maiorca e que voltou a ser, apenas, o senhor Iñaki Urdangarin; e do ex-príncipe e ex-duque de York, irmão de Carlos III, e que agora é, simplesmente, o mister André Mountbatten-Windsor.