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Este é o "Tratar da Saúde" da Rádio Observador, com o doutor João Marques Santos, médico de saúde familiar da CUF. Estamos em setembro, ainda há muita gente de férias, mas este é também o mês dos regressos e, por isso, o cenário repete-se em muitas casas: dores de cabeça, cansaço extremo, perturbações no sono e até dores de barriga com o regresso ao trabalho e às aulas. Doutor João, bom dia.
Olá, bom dia, Maria João.
Afinal, isto é só preguiça ou o nosso corpo adoece mesmo com o fim das férias?
Não é de todo preguiça, atenção. Este mal tem uma explicação: o nosso organismo reage fisicamente a uma transição súbita, atendendo sobretudo a dois grandes pilares. Temos o ritmo circadiano, que é o nosso relógio biológico, e também um sistema neuroendócrino que nos mantém equilibrados.
E como é que essa mudança no relógio biológico se reflete em sintomas tão físicos?
Vamos pensar que nas férias o nosso cérebro vai-se adaptar a um horário mais flexível, maior exposição à luz natural, também a níveis muito mais baixos de exigência no nosso dia a dia, esperemos nós. Quando voltamos abruptamente à nossa rotina diária, há uma desregulação na produção de melatonina, por exemplo, que regula o nosso sono e que vai prejudicar a forma como conseguimos descansar. Ao mesmo tempo, a perspetiva de prazos, de responsabilidades, ativa o nosso eixo de estresse e que vai disparar uma produção de uma hormona que é o cortisol. Este excesso de cortisol vai causar tensão muscular, dor de cabeça, alterações no trânsito intestinal e vai nos fazer sentir estes sintomas que nos referimos.
Ou seja, o estresse traduz-se mesmo em dor física. E em relação às crianças, o impacto do regresso às aulas é mais ou menos a mesma coisa, é idêntico?
É muito semelhante, mas com uma particularidade. Como as crianças muitas vezes ainda não têm maturidade emocional para verbalizarem a ansiedade quando regressam às aulas, o corpo vai começar a falar por elas. É a chamada somatização. Aqui as dores de barriga, matinais, a recusa a comer, a irritabilidade ou os pesadelos são sinais de que o organismo da criança está lentamente a processar esta mudança de ritmo. Apesar das diferenças entre as crianças e os adultos, todos sentimos o impacto de uma mudança súbita de rotinas, portanto, elas vão sentir o mesmo que nós.
Exato. Mas perante tudo isto, o que é que a evidência médica nos diz para prevenir ou minimizar este choque de setembro?
Sim, a palavra-chave é uma transição gradual. Há uma tendência natural para aproveitarmos as férias até ao último segundo, mas na verdade, o nosso cérebro precisa de tempo para se adaptar. Vamos pensar que se três ou cinco dias antes de voltarmos ao trabalho ou à escola, começarmos a deitar e a acordar um bocadinho mais cedo ou mais tarde, com intervalos de 15 a 30 minutos de duração.
Já ajuda nessa transição.
Exatamente, vai fazer isto tudo muito mais gradual. Depois também termos um regresso faseado. Se pudermos escolher regressar ao trabalho, por exemplo, a meio da semana e poucos dias depois termos o fim de semana para voltarmos a descansar, faz com que não tenhamos aquela sensação de exaustão.
Não tinha pensado nisso.
Acaba por ajudar. Uma semana um bocadinho mais curta. E depois também manter umas microférias na nossa agenda. Por exemplo, nos primeiros dias, um dos erros mais comuns é cortar radicalmente com aquilo que fizemos nas férias. Mas, por exemplo, tentar almoçar fora, se conseguirmos apanhar um bocadinho de sol. No final do dia, aproveitar um bocadinho mais o final de tarde. E termos assim um bocadinho ainda o resto daquela vida agradável que tivemos nas férias, nos primeiros dias de trabalho, e torna esta transição um bocadinho mais agradável.
Menos pesada. Portanto, fica a dica: transição suave e sem cortar o lazer do dia a dia. Doutor João, muito obrigada. Até amanhã.
Obrigado. Até amanhã.