Há um género de espetáculo que os portugueses conhecem bem, mais fiel do que qualquer telenovela e com muito menos guionistas competentes: o espetáculo dos partidos a decidirem, semana sim, semana também, o que é que acreditam.
Não é bem uma decisão. É antes uma sondagem que se traveste de convicção. Hoje o partido é a favor de X porque X sobe três pontos nas redes sociais. Amanhã é contra X, porque um estudo qualquer, feito por um instituto que ninguém consegue localizar num mapa, diz que X já não agrada aos indecisos de Leiria. Os princípios, esses, ficam guardados na gaveta ao lado das promessas eleitorais, por baixo de um maço de comunicados de imprensa nunca lidos. Chama-se a isto, tecnicamente, “escuta ativa do eleitorado”. Chama-se a isto, honestamente, não ter espinha dorsal.
O resultado é previsível: partidos que já não sabem apontar, com uma mão no coração, aquilo em que acreditam sem primeiro verificar aquilo em que o eleitorado acredita que eles deviam acreditar. A identidade deixou de ser uma bússola e passou a ser um vento. Sopra para ali, vamos para ali. Sopra para acolá, adaptamo-nos, com a agilidade de quem sempre pensou assim, mesmo que ontem tenha jurado o contrário em direto.
E depois há a segunda parte do espetáculo, que costuma acontecer nos bastidores mas que, com a devoção de um ritual, acaba sempre por vir a público: a guerra santa interna. Todo o partido tem, nas suas fileiras, um grupo de eleitos que descobriu, num lampejo messiânico, ser o único depositário da verdadeira doutrina. Os outros, coitados, andam desviados, contaminados por não se sabe bem que pecado original, pragmatismo, talvez, ou a ousadia de discordar num pormenor.
Assiste-se então a guerras fratricidas travadas com uma ferocidade que nenhum adversário externo jamais provocou. O inimigo de fora é apenas um adversário de conveniência, o inimigo de dentro, esse sim, merece as armas todas. Moções de censura, cartas abertas, vazamentos cronometrados à imprensa na véspera de um congresso, tudo em nome da pureza ideológica, e tudo, coincidentemente, a poucas semanas de uma eleição interna. Os puritanos da verdade raramente perdem: quando não ganham o poder, ganham pelo menos a certeza reconfortante de que a culpa foi sempre dos outros.
Por fim, o terceiro ato, o mais silencioso e por isso o mais perigoso: a distância cada vez maior entre quem decide e quem vive as consequências das decisões. Processos com irregularidades que só saem à luz quando já não há remédio, contratações que passam ao lado de todas as regras que os próprios partidos aprovaram, e uma incapacidade notável de perceber que a realidade lá fora não é a mesma que se discute nos corredores fechados das sedes partidárias.
Vive-se em bolhas climatizadas, onde a informação circula entre os mesmos dez telefonemas e as mesmas dez opiniões, todas devidamente confirmadas umas pelas outras. Depois, quando é preciso falar com o cidadão comum, a comunicação sai estranha, cheia de jargão técnico e vazia de sentido prático, como se estivessem a explicar a alguém de fora aquilo que nem eles próprios entendem bem. E assim se vai, gota a gota, estupidificando o eleitorado, não porque o eleitorado seja estúpido, mas porque se lhe oferece, sistematicamente, menos substância e mais espetáculo, menos explicação e mais slogan, até que a política deixa de ser um exercício de cidadania e passa a ser um jogo de adivinhas em que ninguém sabe as regras exceto quem as escreve.
Convém, a esta altura, tirar o dedo de cima dos outros e apontá-lo, por instantes, a mim próprio. Escrevo isto como militante de um partido, não como espetador arrumado na bancada. E seria cómodo fingir que este circo é sempre dos outros, que a bolha é sempre a bolha alheia e que os puritanos da verdade nascem invariavelmente nas fileiras adversárias. Não nasceram. Também eu, nalgum momento, defendi posições com mais fervor do que dúvida, também eu troquei o “pode ser que eu esteja errado” pelo conforto de estar certo em público, também eu contribuí, com um comunicado mais afiado do que devia ou uma intervenção pensada a pensar no aplauso e não no argumento, para este mesmo espetáculo que aqui critico. Ninguém milita durante anos sem, nalgum momento, ter sido também parte do problema que denuncia. A pergunta séria não é se pertenço à exceção, é se tenho a honestidade de perceber quando estou, eu também, a comportar-me como um puritano da verdade, e a coragem de recuar antes que isso se torne identidade.
No fim, sobra o mesmo diagnóstico de sempre, disfarçado de novidade em cada ciclo eleitoral: partidos sem identidade porque a identidade dá menos votos do que a ausência dela, guerras internas travadas por quem confunde conquistar o poder com merecer o poder, e uma distância da realidade tão confortável que já nem incomoda quem lá está instalado.
Talvez a verdadeira reforma política não precise de mais uma lei, nem de mais um congresso, nem de mais uma comissão. Precise, isso sim, de gente disposta a acreditar em algo mesmo quando isso não dá votos, a discordar sem declarar guerra, e a sair da bolha o tempo suficiente para lembrar-se de que a política existe para servir quem vive fora dela, e não para entreter quem lá dentro já se esqueceu de porque entrou.