É fácil fazer memes com alguns momentos do desfile de robôs da semana passada na China. Algumas tropeçaram, outros pareciam desajeitados e houve momentos caricatos. Mas seria um erro descartá-los. Uma imagem, em particular, ficou-me na cabeça: filas de robôs humanoides a marchar em sintonia, coordenados e a evoluir exponencialmente de ano para ano.
Não se tratou apenas de um espetáculo. Foi um sinal. Disse ao mundo aquilo que quem acompanha esta indústria já sabe: na China, a robótica é um projeto industrial e uma prioridade nacional. O objetivo não era demonstrar que os robôs humanoides vão substituir trabalhadores amanhã, mas mostrar que a China está a construir o ecossistema necessário para que estas máquinas sejam úteis e produzidas em grande escala.
A Europa devia prestar atenção. Durante demasiado tempo, tratámos a robótica apenas como uma ferramenta de produtividade. E, sendo isso, é hoje algo muito mais importante: uma resposta à escassez de mão de obra, um pilar de soberania industrial e uma tecnologia que poderá ajudar a definir o poder económico e estratégico das nações.
Os dados da demografia europeia são implacáveis. Estamos a envelhecer, as taxas de natalidade são baixas e a população em idade ativa está a diminuir. Nas próximas décadas, vamos precisar de mais trabalhadores em áreas criticas como os cuidados a idosos, hospitais, agricultura, energia, indústria, construção e defesa. A imigração, a requalificação e uma maior participação no mercado de trabalho ajudarão mas são insuficientes.
É por isso que os robôs não são um luxo nem um sonho longínquo. São, já hoje, parte da solução. É verdade que em alguns casos, a automação vai substituir postos de trabalho, e seria ingénuo fingir o contrário. Mas o desafio da Europa não é o excesso de máquinas e sim a falta de pessoas. A verdadeira questão é quem fará o trabalho quando não houver braços suficientes.
Temos excelentes universidades, engenharia de primeira, experiência em automação industrial e enormes competências em sistemas onde a segurança e a fiabilidade são críticas. Mas a próxima corrida será ganha pela capacidade de combinar hardware com inteligência artificial, sensores, chips, software, dados e, por fim, implementação em escala.
É aqui que a Europa corre o risco de ficar para trás. Os Estados Unidos continuam a liderar em inteligência artificial de ponta, plataformas cloud, chips avançados e capital de risco. A China está a aproximar-se rapidamente e pode já estar à frente em áreas decisivas como a aplicação industrial da IA, a integração entre robótica e produção, os dados industriais e a velocidade de comercialização.
É neste contexto que devemos olhar para os robôs do desfile. Não foram uma prova de que a tecnologia está madura, mas uma demonstração de que a China está a aprender fazendo. Constrói máquinas, coloca-as a funcionar, recolhe dados, corrige erros e volta a tentar. É assim que se constroem indústrias.
O perigo para a Europa é continuarmos excelentes em componentes, investigação e regulação enquanto perdemos a corrida pelas plataformas. Podemos desenhar os robôs mais seguros do mundo e acabar a comprar em escala a outros países. Arriscamos tornar-nos especialistas a regular o futuro sem sermos capazes de o construir.
Convém dizê-lo com clareza: o problema não é a China em particular, mas a dependência em geral. Depender dos Estados Unidos para a inteligência artificial, a cloud e os chips comporta os seus próprios riscos, como se percebeu ao ver a facilidade com que o acesso a tecnologia se transforma em arma diplomática. A diferença é que um robô não é apenas uma máquina. É um sistema de trabalho, de recolha de dados e de infraestrutura.
Não faz sentido imaginar um cenário distópico à la I, Robot. O risco é bem menos cinematográfico: hospitais, fábricas ou redes elétricas dependentes de robôs cujo software, atualizações, sensores ou componentes são controlados por uma potência estrangeira desalinhada, seja ela qual for.
A Europa já sente o preço da dependência com o gás russo, as cadeias de abastecimento durante a pandemia, os semicondutores e os minerais críticos. A robótica pode ser a próxima dependência, e talvez uma das mais importantes, porque, a prazo estas máquinas permearão toda a sociedade.
A resposta não deve ser fechar a Europa ao mundo. Mas os setores estratégicos exigem resiliência. Em vez de mais um plano genérico, precisamos de metas concretas: um objetivo comum de densidade robótica nas indústrias críticas, à imagem das metas climáticas. Devemos desenvolver normas europeias que garantam que qualquer robô usado em infraestruturas criticas possa funcionar sem depender de servidores ou atualizações estrangeiras. Sem controlo sobre o software e os dados, não há soberania que resista.
E é preciso escala. Um mercado único da robótica, com certificação acelerada. E poder de compra do Estado como primeiro cliente das empresas Europeias, tal como os nossos concorrentes sempre fizeram.
As grandes empresas também têm responsabilidades. Uma parceria com um fabricante estrangeiro pode parecer uma excelente decisão de procurement hoje. Mas, antes de colocar operações críticas numa plataforma que não se controla, é preciso perguntar quem detém os dados, o software, as atualizações e os componentes.
O desfile chinês mostrou a sua direção, disciplina e ambição. A Europa tem talento, empresas e, sobretudo, uma necessidade crescente de automatizar. O que precisa é de deixar de tratar a robótica como um nicho tecnológico e começar a tratá-la como infraestrutura essencial.
Para uma Europa envelhecida, uma política robusta para a robótica não é opcional. É uma das condições para que o continente continue produtivo, independente e soberano.