Ao longo de três dias de feira, Bruno Almeida esteve em contacto direto com os compradores de várias nacionalidades. “Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, Irlanda, Roménia, Eslovénia, Itália, Canadá, África, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos”, assinala o representante da marca, destacando que esta relação próxima com os clientes é um dos motivos pelos quais “vale a pena vir à MICAM”. Contudo, chegando ao último dia da feira, nem todos os empresários estavam satisfeitos. Alguns consideram que o evento tem tido menos movimento a cada edição, outros apontam para o cenário internacional e para as incertezas que fazem os clientes evitarem fechar negócios, e há quem olhe para a facilidade dos contactos pelo meio digital como uma alternativa para reduzir custos.
“A MICAM é a maior e a mais importante feira do mundo. Aqui estão as principais marcas, e é aqui onde muita coisa acontece. As empresas, quando vão a uma feira, não é apenas para fazer negócio”, assinala Paulo Gonçalves, diretor executivo da APICCAPS, a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos. “É preciso pegar no sapato, avaliar o peso, a qualidade das matérias-primas. E isso só se faz com contacto”, considera, afirmando que a MICAM “é uma janela para o mundo”, valorizando a importância das empresas portuguesas “viajarem”. “Isto, historicamente, tem dado muito bons resultados às nossas empresas. Nós não temos muitas marcas no setor do calçado — e em praticamente todos os setores de atividade — que sejam reconhecidas internacionalmente. Os clientes não vêm a Portugal à procura da marca, porque infelizmente essas marcas não existem. Quando muito, hoje, há uma melhor reputação de Portugal do que existia no passado.”
É a apostar nesta “reputação” que algumas empresas arriscam criar marcas próprias, enquanto ainda mantêm a operação no formato private label — em que produzem a partir dos designs fornecidos pelas marcas estrangeiras. Pela primeira vez na MICAM, a marca Moshion tem sapatos em pele pintados à mão, numa técnica de pátina em que o diferencial é o saber fazer dos seis artesãos que trabalham na empresa. “Estes sapatos têm uma identidade própria na sua construção. Ao contrário do que é um sapato dito normal, em que as peles já vêm à cor, aqui as peles são sempre naturais, neste caso ou bege ou brancas, e depois idealizamos a cor consoante a estação e o que é pretendido”, conta Desidério Sousa, diretor comercial da Moshion. “Pela experiência que nós tivemos durante estes dois dias e meio de feira, é que esses nichos de mercado estão em todas as partes do mundo. Desde as Américas, Ásia, África, e obviamente na Europa, já tivemos contactos novos de possíveis clientes.”
A herança do saber fazer vem aliada à tecnologia. Cada sapato tem um QR Code, para que os clientes tenham acesso a todas as informações sobre aquele produto, como o tipo de pele utilizado, a sola, a palmilha, ou as cores disponíveis, explica Jorge Fernandes, filho do dono da empresa, e que aproveita para aplicar aquilo que aprendeu na licenciatura em engenharia informática. O jovem também aplicou uma tecnologia NFC utilizada para a troca rápida e digital de contactos com os clientes e um formulário para o envio do lookbook. Os primeiros passos num caminho que deve continuar o legado do pai.
A marca é uma parte da Sojor, empresa familiar de Felgueiras que trabalha com marcas internacionais no setor premium, explica o dono e fundador, Jorge Fernandes — este o pai. Ao longo de 30 anos, acumula clientes em países nórdicos, em França ou Inglaterra, mas também norte-americanos. “O cliente nos EUA também é exigente, mas as dinâmicas são outras. Priorizam o conforto”, assinala Fernandes, que considera que faz sentido apostar neste mercado, numa altura de incertezas na política mundial. “Pagam em dia e valorizam o produto”, afirma.