"O 13 de agosto abriu-me os olhos. Já não queria pactuar com aquilo." O dia em que Berlim acordou com um Muro

A infância de Detlef Jablonski podia ser um romance de Charles Dickens.

Nasceu em 1955 na prisão de Jerichow, na República Democrática Alemã (RDA), onde a sua mãe estava a cumprir pena. Aos dois meses, foi entregue aos cuidados da família da tia, onde os maus-tratos eram diários. “Eu era tratado como um criado. Fazia as compras, ia buscar carvão, cortava madeira, polia sapatos, fazia as limpezas”, conta ao Observador o alemão, agora com 71 anos. “Se não fizesse o que ela dizia, era açoitado.”

Durante esses tempos, a família recebia habitualmente a visita de uma mulher. O que Detlef não sabia ao início é que se tratava da sua mãe, que entretanto se tinha mudado para Berlim Ocidental, o lado da capital alemã que pertencia à República Federal Alemã (RFA).

Detlef Jablonski

A mãe de Detlef não era caso único. Ao longo das primeiras décadas desde que Berlim fora partida em duas, ficando dividida numa RDA comunista (sob a esfera de influência da União Soviética) e numa RFA ocidental (sob a esfera de influência de norte-americanos, britânicos e franceses), era comum muitos berlinenses trocarem Berlim Oriental pela Ocidental.

O fenómeno intensificava-se e a Alemanha de Leste ia sofrendo uma hemorragia de trabalhadores: entre 1949 e 1961, dois milhões e meio de pessoas atravessaram a linha de demarcação, 80% delas através da fronteira que dividia Berlim. Eram sobretudo trabalhadores qualificados: 7.500 médicos, 1.200 dentistas, centenas de milhares de trabalhadores técnicos, de acordo com os números da historiadora Katja Hoyer.

Procuravam sobretudo uma vida melhor no Ocidente capitalista. À altura, circulava uma anedota que ilustrava as dificuldades na RDA: “Sabiam que Adão e Eva eram na verdade alemães de Leste? Não tinham roupa, tiveram de partilhar uma maçã e faziam-nos acreditar que viviam no Paraíso.”

O contraste entre as duas Berlim não podia ser maior, como testemunhou Burkhart Veigel, que chegou a Berlim Ocidental vindo da Turíngia em abril de 1961 para estudar Medicina. “Ia ao teatro em Berlim Oriental duas ou três vezes por semana. Durante as minhas visitas, nunca conheci ninguém no Leste — parecia-me que ali toda a gente tinha ‘fechado as persianas’”, recorda agora ao Observador o médico de 88 anos. “O facto de tudo ser mais escuro do que em Berlim Ocidental e de as pessoas desviarem timidamente o olhar quando me cruzava com elas era estranho. Sentia-me sempre aliviado quando entrava no S-Bahn de volta a Berlim Ocidental.

DR

Burkhart Veigel

Quatro meses depois, tudo mudaria. O líder da RDA, Walter Ulbricht, concluiu que a hemorragia de habitantes não podia continuar. A “Operação Rosa” foi colocada em marcha, com o beneplácito do líder soviético, Nikita Kruschev. Tudo aconteceria na noite de 13 para 14 de agosto de 1961, o dia que ficaria marcado na História com um nome: Stacheldrahtsonntag, o “Domingo do Arame Farpado”.

“Sabem qual é a missão. Marchem”

Apenas dois meses antes, Ulbricht tinha negado qualquer intenção de separar as duas Berlim. “Primeiro-secretário, a criação de uma Berlim neutral, na sua opinião, significa que vai haver uma fronteira no Portão de Brandemburgo?”, questionou uma correspondente de Berlim Ocidental na conferência de imprensa convocada pelo líder, para a qual foram convidados jornalistas da RFA — eram mais de 300 os presentes. “Ninguém tenciona construir um muro”, respondeu Ulbricht.

Não era verdade. À altura, já o primeiro-secretário estava envolvido em longas conversas com Kruschev sobre como estancar a fuga de berlinenses da RDA. E já tinha nomeado um homem para tratar dos preparativos: Erich Honecker, secretário de segurança do Partido que viria a substituir Ulbricht dali a menos de dez anos.