Autoentitular-se “Papa Lisboa” também faz parte dessa provocação?
Isso vem dos clientes. Mudei para “Papa Lisboa” cerca de seis meses depois da abertura do Mama. Abri com um perfil que era “Julien Leroy” e, pouco a pouco, os clientes vinham e diziam: “É, tu és o Papa Lisboa, realmente”. Agora, digo sempre aos meus filhos que é uma personagem. O “Papa Lisboa” tem esta coisa de estar nas festas, de vestir-se de uma maneira que normalmente os adultos não fazem. Eu tenho a síndrome de Peter Pan, de nunca querer crescer. O mais difícil para mim é estar calmo; tenho a experiência de empresário, mas gosto muito de me vestir de maneira diferente para um evento, criar uma temática e fazer coisas um pouco loucas. Tenho uma disciplina diária de yoga, meditação e desporto que é essencial para o “Papa Lisboa” estar bem. Esta personagem é um estilo de vida que envolve festa, desporto, viagens e o lado humano de encontrar pessoas. É o que chamamos em francês de “o sal da vida”; sem sal, a cozinha não tem interesse. O sal dá um gosto melhor e mais interessante. Até o Carlos Moedas gosta do “Papa Lisboa”!
Essa criação de personagem e o trabalho de “chocar” vem da sua experiência com marketing?
Sim, faz parte. Há duas coisas. Primeiro, frequentei uma escola de marketing e negócio, onde aprendi as técnicas clássicas. Mas o mais importante foi o meu primeiro trabalho na Walt Disney Company, no Disneyland Park. Ali aprendi que o storytelling é a base de qualquer produto ou serviço que queiras comunicar ou vender. Muitas pessoas dizem que estou no negócio de restaurantes, mas o storytelling é óbvio. Se estás a vender massas ou qualquer coisa, tem de haver uma história. A primeira coisa que faço ao criar uma empresa é definir a história. O Mama é uma personalidade; tem os traços de uma rapariga, de uma mãe que não quer ser clássica, que é generosa, aberta e inclusiva. O tema da inclusão é essencial no posicionamento.
O que importa mais na hora de tomar uma decisão acerca do negócio?
O primeiro ponto é o que eu chamo de”Mamaness”, que é o filtro por onde tem de passar qualquer ideia para ver se fica bem ou se não é Mama. Há muitas ideias boas lá fora que não alinham com o nosso posicionamento. A segunda coisa é o tema da encarnação: mesmo sendo uma personagem ou uma história, a única maneira de ter sucesso é viver essa história como se fosse o “Actor’s Studio”. Eu vivo como o Papa Lisboa 99% do tempo. A única exceção é que, às vezes, tenho de ser o Julien Leroy quando sou o pai dos meus filhos no Liceu Francês, onde o ambiente é um pouco mais clássico.
Mas aí comporta-se de modo diferente? Troca de roupa ou muda o tom de voz, por exemplo?
Nunca! Há uma história: eu estou sempre sem sapatos em casa e no trabalho. Às vezes os managers do Mama dizem que eu não posso fazer isso, mas aquilo é a minha casa. Um dia estava super quente mas tinha chovido um pouco, estava agradável, e fui buscar os meus filhos ao Liceu Francês sem sapatos. Entrei no carro e fui buscá-los. Eles ficaram felizes e perguntaram se podiam tirar os sapatos também, e eu disse que sim, desde que tivessem cuidado com vidros ou coisas perigosas. Lisboa é limpa, caminhas só dois minutos até ao estacionamento, estava tudo bem. Mas recebi uma mensagem da minha mulher 30 minutos depois; três mães tinham mandado mensagem para ela, que é presidente da associação de pais, a dizer que o marido dela não podia estar sem sapatos e que não era um bom exemplo. Nessas alturas tenho de decidir: ou o “Papa Lisboa” diz que faz o que gosta para mostrar aos pequenos que eles podem decidir se os sapatos são ou não para eles, ou sou o Julien Leroy, marido da presidente da associação de pais, e respeito o papel dela. Não pedi desculpas, mas disse que não o faria mais para não molestar os outros. Tenho uma vida rica e intensa, mas não quero que a minha mulher tenha problemas. Essa espécie de desrespeito tem um limite, que é quando incomoda quem está a fazer o seu trabalho. Ajusto-me ao ambiente.
Essa forma de estar descontraída repete-se na família?
Sim. Atrás das portas fazemos muitas festas em casa. Temos sempre música no interior, no exterior, em todos os quartos. Temos malas com vestidos para nos vestirmos de maneira diferente. Os meus filhos têm 15, 14 e 13 anos — são três rapazes, uma equipa de futebol — também dão as suas preocupações ao pai, mas o sentido de humor na família é um valor central. O tema do sexo é omnipresente. Tenho essa versatilidade; posso aparecer na Pride Parade e parecer super gay e as pessoas comentam, mas está tudo bem.
Sente que os seus filhos têm liberdade para falar sobre tudo consigo?
Sim, acho que faz parte desses valores. No nível global da história do mundo nada é tão importante quanto estar no momento presente com as pessoas que amamos, com sentido de humor e num espaço seguro. Quando os nossos filhos eram mais novos, com cerca de 8, 9 e 10 anos, tínhamos o “jantar de gala” ao domingo à noite. Os meninos tinham a responsabilidade de preparar a mesa e vestirem-se de maneira diferente. Cozinhávamos juntos e a regra era que podiam fazer qualquer pergunta. Como podes imaginar, 90% das perguntas de três rapazes de 10 anos eram sobre sexo. Mas depois de alguns jantares, passas para outras coisas. É essencial perceber o corpo e a dimensão emocional. Como pai de rapazes, sinto que tenho a responsabilidade de contrariar a história de alguns influenciadores que vendem que os rapazes são superiores e as raparigas submetidas. Ensino igualdade, respeito e validação.
O Julien vem de uma geração em que esses temas não eram tratados. Como foi a sua criação?
Tenho 52 anos e o meu pai era super “macho”. Não sabia bem onde era a cozinha, nunca o vi pôr nada na máquina de lavar loiça; era muito estilo Mad Men, a ler o jornal com um whisky. Mas ele tinha duas qualidades incríveis: um sentido de humor muito divertido e uma cultura geral super boa por ler o jornal todos os dias. Tenho um irmão com menos um ano e, quando tínhamos oito e nove anos, os meus pais separaram-se e ficámos com a minha mãe. Aprendemos que a mulher é a pessoa mais importante da família. Ela é dentista, trabalhou todos os dias para cuidar de nós e aprendemos a cuidar dela e a respeitá-la. Sou muito feliz com isso, emociona-me positivamente. Ela tem 83 anos e ainda trabalha três dias por semana como dentista em Paris. Adora Portugal, mais do que as casas de Barcelona ou de França. Ela é muito “hippie”, viveu a libertação sexual de 1968 aos 25 anos. Por um lado, tenho esse respeito enorme pela mulher e, por outro, o tema de não respeitar as normas, o lado “Peter Pan” de celebrar a vida e o amor em todas as cores.
É esse espírito que procura incutir também dentro dos seus negócios?
Sim. Fazemos festas, celebramos a vida, temos todas as cores do arco-íris. Vou para a Gay Pride, vou para a política. Gosto de estar com associações de transgéneros. Temos agora três pessoas que mudaram de género nos últimos quatro anos. É um caminho tão difícil, tão duro, fisicamente, socialmente, psicologicamente. Quanto mais dinheiro, empresas e poder tens, mais responsabilidade tens. O Mama cuida dos clientes, mas se não dermos alegria aos empregados, nunca vai funcionar. É um ecossistema para que as pessoas cheguem com problemas e saiam com um sorriso.
Fala muito sobre como encarnou o espírito do Mama Shelter, mas esta é uma marca francesa que já existia antes da abertura do hotel em Lisboa em 2022. Já tinha o edifício há mais tempo — como foi a decisão por esta marca em específico?
Sou dono do edifício e da empresa operacional. Neste negócio dos hotéis há duas opções. Podes criar a tua marca, como por exemplo um “Papa Lisboa”, que é uma ideia para o futuro, em que seria a minha marca e tudo “de casa”, sem se aproveitar de uma marca já existente. Outra opção é procurar uma marca existente, que já tenha muitas coisas feitas a nível de padrões e serviços, e que ajude a ir mais rápido e com mais segurança. Em 2016 comprei o edifício e em 2017 fiz uma consulta com cerca de 40 marcas. Cheguei a um ponto com três marcas, incluindo o Mama Shelter. Foi uma decisão bem simples. Escolhi-a porque achei que este conceito de “restaurante festivo” — um lugar com capacidade de mudar para o modo disco sem ser uma discoteca — tinha uma oportunidade enorme em Lisboa. Há o exemplo do Praia no Parque, acho muito interessante o trabalho do Nuno Santana e somos bons amigos. Há o JNCQUOI e depois há nightclubs, como o Lux ou o Lust in Rio. Mas esse posicionamento de um restaurante que passa para festa numa quarta-feira não havia. Segundo, é um conceito super acessível. Que não é o caso do Praia ou do JNCQUOI. Podes jantar e festejar por 40 euros por pessoa, o que o torna mais inclusivo e acessível.
Neste caso, em Portugal particularmente, o preço pode significar também se o espaço será ou não frequentado pelo público local.
Exatamente. A ideia é não ser tão elitista. Tens de pagar, infelizmente não podemos dar bebida a todos. Mas mesmo com um salário clássico em Lisboa, podes aproveitar o Mama. É um destino de celebração, de grupos, de jantar de mulheres, porque é seguro, tem um design integrado na cultura local, uma comida fresca, não é tão caro, e ainda tem as bebidas. Na altura gostei do conceito e não sabia que teríamos o Covid — a pandemia aconteceu durante a reforma do espaço.
E afetou os planos?
Atrasou bem as obras e a abertura, porque afinal não quis abrir durante o Covid. Mas, seguindo a minha filosofia de vida não-dualista, o que parecia uma má notícia acabou por ser a melhor. Esperei três anos para ter o licenciamento para construir. Estávamos para abrir em dezembro de 2019, o que teria sido uma catástrofe.
Tem liberdade total na gestão ou tem de seguir regras estritas?
Sou super amigo dos fundadores, sinto-me como se fosse o fundador do Mama Shelter Lisboa. A primeira coisa é o conceito original, de 2009 em Paris, com o Philippe Starck, o Jérémie Trigano e o Cyril Aouizerate, que tem muito potencial em Lisboa. A segunda coisa é que tenho mãos livres. Temos de respeitar a ideia geral e o design é escolhido em conjunto, mas sou eu que pago e dou as direções locais. Integramos muitas coisas locais no desenho. O teto foi pintado à mão numa criação única que fizemos com o artista Benilois. A cozinha e a carta são totalmente construídas pela equipa local. A regra é ter pratos para partilhar com produtos 100% frescos. Fizemos provas com o chef Nuno Bandeira e escolhemos a primeira carta, que está a evoluir sempre. Temos o “prato do dia” para cada dia — quarta-feira é piano, que é o nosso best-seller. As batatas fritas são preparadas de uma maneira específica, frescas, e cozinhadas duas vezes. Acho que são as melhores da cidade — e é muito português dizer isto!
E quanto ao Mama Shelter no Porto?
Está em desenvolvimento; sou super amigo dos donos. É um fundo de inversão da Suíça, estou a colaborar com eles. Não sei qual vai ser a “pinta” do Papa Lisboa lá, talvez tenha de ter um “Papa Porto” no Instagram. O projeto envolve dois edifícios no centro do Porto: um será um Sofitel e o outro será um Mama. Vão operar de maneira conjunta mas separada. Mas não estou envolvido na parte do capital; é tudo do fundo de investimento. Eles estão a fazer o que se chama no imobiliário um “Greenfield”.
Chegou a considerar para Lisboa uma marca mais tradicional de hotelaria?
Eu sou de “lifestyle”. Não vou fazer um segundo Mama, porque tenho de me mover e fazer coisas diferentes nesta vida. Nunca vou reproduzir uma coisa só pelo dinheiro. Fazer um segundo Mama é mais óbvio, mas não tem o interesse ou o “sal” que procuro, que é o risco e a aprendizagem. É importante fazer coisas que não sabes fazer, especialmente depois dos 40 ou 50 anos.