Os profissionais de saúde alertam para as consequências negativas da compra destas drogas através de um vendedor informal. Os consumidores podem não ter forma fiável de saber exatamente o que estão a injetar em si próprios
A Ponte da Amizade, que liga o Brasil ao Paraguai perto das icónicas Cataratas do Iguaçu, é, há muito tempo, uma rota para contrabandistas que transportam mercadorias ilícitas e baratas, como cigarros e aparelhos eletrónicos. Mas, nos últimos anos, as autoridades brasileiras afirmam que os contrabandistas encontraram um produto muito mais lucrativo: medicamentos para emagrecer.
Com a explosão da procura por medicamentos à base de GLP-1 no Brasil, as apreensões de medicamentos para emagrecer não autorizados dispararam ao longo da fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Mais de 76 mil canetas, frascos e outros produtos contendo substâncias como a semaglutida e a tirzepatida foram apreendidos na fronteira no primeiro semestre de 2026 — quase o triplo do número confiscado durante todo o ano passado, de acordo com dados da Receita Federal do Brasil.
Este aumento transformou os medicamentos para emagrecer numa das categorias mais valiosas entre o contrabando apreendido na região, à medida que os contrabandistas tiram partido da procura crescente no Brasil e dos preços significativamente mais baixos do outro lado da fronteira. Os especialistas afirmam que este comércio está a atrair cada vez mais grupos do crime organizado, uma vez que os produtos são altamente lucrativos e relativamente fáceis de transportar.
No entanto, os profissionais de saúde alertam para as consequências negativas da compra destas drogas através de um vendedor informal. Os consumidores podem não ter forma fiável de saber exatamente o que estão a injetar em si próprios.
Apesar disso, estas drogas ocupam atualmente o segundo lugar, em valor, entre os bens apreendidos pelos agentes da Receita Federal na região que abrange os estados do sul do Paraná e de Santa Catarina, ficando apenas atrás dos telemóveis, de acordo com o auditor fiscal federal Flávio Bernardino de Carvalho.
“Chegam em autocarros públicos, em carros, em camiões, com turistas. De todas as formas possíveis”, disse Carvalho à CNN Brasil. “Há crime organizado e há indivíduos isolados. É algo muito disperso.”
Embalagem pequena, recompe grande
Nas horas de ponta, as autoridades brasileiras estimam que mais de 100 mil pessoas e 45 mil veículos atravessam diariamente a Ponte da Amizade, o que representa um enorme desafio para os funcionários aduaneiros que tentam identificar cargas ilícitas. Por essa razão, a ponte é, há muito tempo, um dos corredores de contrabando mais movimentados da América do Sul.
A proveniência das injeções para emagrecer contrabandeadas é, muitas vezes, impossível de rastrear. Algumas são vendidas legalmente no Paraguai antes de serem roubadas de farmácias locais e transportadas através da fronteira, mas a polícia também descobriu fábricas clandestinas que produzem versões falsificadas do medicamento no país, de acordo com as autoridades paraguaias.
Carlos Dure, comissário do Comando Tripartido, uma aliança policial entre as autoridades da Argentina, do Brasil e do Paraguai, que partilham a fronteira na região, disse ao Organized Crime and Corruption Reporting Project que também foram encontradas importações chinesas das drogas.
O Mounjaro, o único medicamento à base de tirzepatida autorizado no Brasil, fabricado pela farmacêutica norte-americana Eli Lilly and Company, pode custar mais de 1.400 reais (cerca de 236 euros). Mas no Paraguai uma ampola de tirzepatida fabricada localmente é vendida por cerca de 340 reais (cerca de 58 euros), de acordo com a Receita Federal do Brasil.
O especialista em segurança pública José Ricardo Bandeira disse à CNN Brasil que esta dinâmica económica está a alterar os incentivos para os grupos criminosos que, historicamente, lucravam com o contrabando de cigarros.
“O crime organizado está a migrar. E há uma explicação para isso”, afirmou Bandeira. “O contrabando de cigarros exige uma logística enorme. São necessários camiões para transportar os cigarros e uma série de medidas para introduzir o contrabando no Brasil.” Já o tamanho reduzido dos medicamentos para emagrecer facilita a logística e torna o transporte significativamente mais económico. Embora um maço de cigarros custe cerca de 850 vezes menos do que um frasco de tirzepatida, de acordo com dados da Receita Federal, o seu transporte é mais volumoso.
“Devido ao tamanho reduzido e ao seu elevado valor, as canetas são muito mais aliciantes”, explicou Bandeira. “Com algumas caixas de canetas, é possível obter o mesmo lucro que se obteria com o contrabando de um camião cheio de cigarros.”
As autoridades afirmam que os contrabandistas também estão a tirar partido das rotas e infraestruturas já existentes. “O crime organizado tem alcance”, explica Bandeira. “Partilham rotas e centros de armazenamento. Utilizam as mesmas rotas que usam para contrabandear armas, drogas e munições.”
Escondido em sapatos, frascos de champô e carros
Os contrabandistas têm recorrido a métodos criativos para esconder os produtos. Os agentes da alfândega brasileira já encontraram medicamentos para emagrecer escondidos debaixo das solas de botas, enfiados dentro de frascos de champô, em embalagens de gel de massagem e guardados em compartimentos secretos em automóveis.
Outras remessas evitam completamente a ponte, sendo utilizados barcos para transportar a carga através do rio Paraná, que forma parte da fronteira entre o Brasil e o Paraguai.
Esses métodos colocam um problema que vai além da ilegalidade do comércio: os medicamentos injetáveis à base de GLP-1 requerem condições específicas de armazenamento.
Alexandre Hohl, professor de endocrinologia e metabolismo na Universidade Federal de Santa Catarina e diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, há muito que se pronuncia contra o uso ilícito de medicamentos.
“Sempre que se procura um medicamento fora de uma farmácia, está-se a correr riscos”, diz Hohl, explicando que os medicamentos legais passam por uma cadeia de abastecimento cuidadosamente controlada antes de chegarem aos doentes. Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida são peptídeos, moléculas que exigem condições controladas durante o transporte e o armazenamento. É improvável que essas condições sejam cumpridas quando os produtos ilícitos são transportados através da fronteira, escondidos em veículos, sapatos ou junto ao corpo de uma pessoa, alerta.
Hohl explica que os peptídicos podem perder estabilidade quando expostos a temperaturas superiores a 30 graus Celsius ou inferiores a 0 graus Celsius. O resultado provável de um armazenamento inadequado é a redução da eficácia do produto — o que significa que os consumidores podem pagar menos por um medicamento que, em última análise, não funciona como pretendido.
Mas as consequências podem ser potencialmente muito mais graves.
Hohl considera que a maior preocupação é sobre os produtos cuja origem e conteúdo não podem ser verificados. “Não sabemos de onde vieram. Não são originais”, avisa. “São cópias fabricadas em locais que também desconhecemos.”
A produção de medicamentos peptídicos é tecnicamente complexa. Segundo Hohl, se o processo de fabrico não for devidamente controlado podem permanecer impurezas no produto final.
Náuseas, obstipação e diarreia estão entre os efeitos secundários conhecidos da semaglutida e da tirzepatida aprovadas. No entanto, sintomas persistentes ou inesperados devem ser levados a sério quando a proveniência do medicamento é incerta.
Hohl conta à CNN que atendeu pacientes que relataram efeitos secundários anormais após tomarem frascos contrabandeados de medicamentos para emagrecer. Uma das suas doentes acabou por ser internada nos cuidados intensivos após utilizar um produto vendido como tirzepatida, proveniente do Paraguai. A mulher, que tinha um peso normal e tinha adquirido o medicamento sem receita médica nem indicação médica, desenvolveu acidose láctica, uma acumulação potencialmente grave de ácido no sangue.
Noutro caso, Hohl tinha receitado a um doente uma versão autorizada de tirzepatida, mas, após o primeiro mês, o doente mudou para um produto que o pai tinha comprado no Paraguai. Pouco tempo depois, desenvolveu náuseas, vómitos e diarreia, tendo procurado tratamento médico. Apesar dos sintomas, continuou a utilizar o produto paraguaio e chegou mesmo a aumentar a dose, o que levou ao seu internamento no serviço de urgências.
“Náuseas persistentes, dores abdominais, dores de cabeça e reações cutâneas são alguns dos sintomas que tenho observado”, refere, acrescentando que as reações adversas podem tornar-se difíceis de prever com medicamentos que não são cuidadosamente regulamentados e fabricados. “Reações do sistema imunitário, efeitos que não observámos quando o medicamento original foi estudado, efeitos secundários mais graves… essas são coisas que podem acontecer.”
Comércio em alta
As encomendas online de medicamentos GLP-1 aumentaram 149,3% no Brasil durante o primeiro semestre de 2026, de acordo com um inquérito da Serasa Experian, uma empresa privada brasileira de serviços de dados e crédito que analisou as encomendas de GLP-1 através da sua tecnologia antifraude. Os pedidos subiram de 547.249 no semestre anterior para mais de 1,36 milhões entre janeiro e junho, representando mais de 2,3 mil milhões de reais (cerca de 389 milhões de euros) em compras.
Com o aumento da procura por medicamentos para emagrecer, as autoridades brasileiras estão a intensificar a cooperação com o Paraguai, num esforço para combater o crescente mercado ilícito.
A Anvisa, entidade reguladora da saúde do Brasil, assinou recentemente um acordo com a Direção Nacional de Vigilância Sanitária do Paraguai, ou Dinavisa, para reforçar a fiscalização ao longo da fronteira entre os dois países.
No entanto, o mercado ilícito poderá já estar a ir além da atual geração de medicamentos para emagrecer.
Hohl diz que um dos seus doentes relatou ter utilizado um produto vendido como retatrutida, um medicamento experimental para emagrecer que está a ser desenvolvido pela Eli Lilly. O retatrutide ainda não foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA — nem por qualquer outra agência reguladora no mundo — e está legalmente disponível apenas para participantes em ensaios clínicos patrocinados pela Lilly. A empresa, que divulgou resultados positivos de vários ensaios de Fase 3 este ano, afirma que planeia submeter o medicamento à aprovação da FDA no primeiro trimestre de 2027. No entanto, produtos comercializados como retatrutida já estão a ser vendidos no Paraguai. Hohl admite ter visto esses produtos a serem comercializados no país e já teve uma doente no Brasil que lhe disse ter utilizado um deles.
Segundo autoridades brasileiras, a publicidade a medicamentos para emagrecer é comum na segunda maior cidade do Paraguai, Ciudad del Este. A semaglutida e a tirzepatida também podem ser adquiridas nesse local sem a receita médica exigida pelo sistema regulamentado do Brasil.
Carvalho, o auditor fiscal federal, confirma que as autoridades enfrentam cada vez mais não só rotas físicas de contrabando, mas também vendas online e através das redes sociais, onde os vendedores podem anunciar os produtos e os utilizadores podem trocar informações sobre como os transportar através da fronteira.
Para as autoridades de saúde e médicos brasileiros, esse pode ser um dos aspetos mais preocupantes deste boom: o mercado ilícito está a evoluir quase tão rapidamente quanto o mercado farmacêutico. “O acesso é muito fácil”, conclui Hohl. “Hoje em dia, é possível comprá-los online. É possível comprá-los em qualquer lugar. Mas as pessoas têm de ter cuidado com o que introduzem no seu corpo.”