1 Os socialistas partirão para férias assim? Certos de que… lá vai?
Foi há tempo de menos para ter sido como se nada fosse: não se esquecem do pé para a mão os estragos da passagem socialista por S. Bento com tão terríveis marcas deixadas no caminho. Abrevio: das cativações feitas na senda de brilho próprio e glória pessoal externa – desdotando gravemente sectores como a Saúde – até ao “esquecimento” da habitação; da admirável leveza no lidar com a emigração ao encerramento do SEF (desculpem, para isto não encontrei adjectivo) e suas gravosas “declarações de interesses”; do monstro da Efacec até outras Efacec, muito terá um dia a história para contar, limitei-me a brevíssimo registo espicaçada pela perplexidade:
Eles acreditam mesmo que voltaram à tona da simpatia eleitoral?
Sim: não é disto que se fala nem é isto que está a abastecer o “hoje” mediático, mas o “lembrete” impõe-se: mais vale lembrar que remediar. E há muitíssimo para lembrar.
2 Será que eles sabem que nós sabemos que eles não sabem ver-se ao seu espelho político? Que o país pouco reteve da governação PS por nunca haver legados sem resultados?
Será que sabem que nós sabemos que eles não sabem que nesta altura do campeonato partidário e em véspera de férias, as sondagens – exibidas como troféus – podem sinalizar mas nada consolidam e ainda menos certificam?
3 Mais perplexidades: que “acha” José Luís Carneiro – embaraçoso líder para a travessia do deserto socialista – que o país pensa ao vê-lo disfarçar durante dias o caso Luís Neves enquanto o ouviu massacrar monocordicamente e desde o início o caso Fernando Alexandre? Nada?
Destruir todos os dias e também monocordicamente o edifício governamental da AD tem pouca correspondência com a realidade dos factos. Apesar da colecção de erros do actual executivo crescer em quantidade e des-sabedoria política – e a media disso se encarregar com a devoção do costume –, há o inapagável peso da memória: os três governos do PS foram há tempo de menos para ter sido como se nada fosse.
Na história da política há estragos irreparáveis. La Palisse não diria melhor mas saberá o PS porque é que La Palisse não diria melhor?
4 Em resumo: não é pela media, as bolhas, as redes e tutti quanti estarem hoje exclusivamente ocupadas com as agruras da AD que o PS deixou de ter feito o que fez na governação. Ou que consegue apagar-nos da mente a devastação de anteontem. Os erros políticos de uns, grandes ou pequenos, e sejam de que natureza for, não ilibam automaticamente erros precedentes.
A memória não deixa.
(Mesmo suscitando-me a maior curiosidade política e algum espanto a razão de ser do leque de erros, desatenções, más escolhas e timings desaconselháveis de um político experimentado como Luís Montenegro. Um assunto a seguir absolutamente.)
5 Escrevendo na minha segunda morada, algures entre Óbidos e Caldas, deixo um acrescento em “casa” e “causa” próprias, lembrando a SIPO-Semana Internacional de Piano de Óbidos (este ano, é verdade, foi uma vez até Lisboa e fez bem).
A SIPO é antes do mais uma aliança feliz a música e os músicos, o campo e o ar, os pianistas e os alunos das master classes oficiadas pelas estrelas nacionais e internacionais convidadas para se sentarem ao piano. Há sempre porém um pouco de surpresa: o eco mediático embora obviamente existindo, fica abaixo do prazer da música num lugar destes. E fica certamente aquém do mérito de dotar uma parcela mesmo que pequena do país, mesmo que por alguns dias, de tudo o que a SIPO e a pianista Manuela Gouveia, sua directora, ali representam e promovem.
BREVE IN MEMORIAM
Era um príncipe e todos sabiam que era. O Porto está a perder os seus melhores, e João Marques Pinto era um deles: no trato pessoal, na atenção, na generosidade. No calorosíssimo empenho com que produzia e prodigalizava alegria aos amigos de todas as gerações, meios sociais, credos, cores; na energia do agir para conseguir, fazer e concretizar projectos, ambições, ideias – e ele tinha-as. Umas fulgurantemente inconsequentes, no calor de uma noite de verão no “seu” Algarve, outras glamourosas que duravam o tempo de uma rosa, outras apenas boémias. E outras excepcionais. Evoco umas e outras porque definiam os cambiantes do seu forte – embora sempre intermitente – gosto pela vida. Queria os amigos sempre perto, nunca esmorecia no amor à sua cidade, a vida cultural activava-o numa permanente busca de obras de arte ou no gosto da sua relação com músicos, artistas plásticos, directores dos melhores museus, a quem visitava e recebia em casa. Tinha a exigência do belo, que traduzia no dom do seu saber escolher.
Mas a isto, que não é pouco e é realíssimo, deve juntar-se obviamente o mais brilhante ex-libris de João Marques Pinto: o seu incansável empenho na criação do Museu de Serralves.
Sim, Serralves deve-lhe quase tudo porque foi seu porventura o mais decisivo – ou um dos mais – empurrão para concretizar muito bem, uma muito boa ideia. A história é longa, complexa, formidável, e há evidentemente no mapa de Serralves outros laureados. (E o que há sobretudo é aquele permanente, activo e generoso “responder à chamada” dos portuenses, quando se trata da sua cidade. Que exemplo.)
João Marques Pinto tem indiscutível lugar de honra no Museu de Serralves como Serralves tem lugar de honra em Portugal e não apenas “no Porto”. E isso também a ele se deve.
Como diria Raul Brandão que tanto cito: “trago em mim uma camada de mortos só não sei até que profundidade”. Eu também não.