O PCP não é um partido normal. Mas Portugal normaliza-o

O caso mais recente do secretário-geral do Partido Comunista Português, Paulo Raimundo, que visitou Cuba a convite do presidente Miguel Díaz-Canel para celebrar os 100 anos do nascimento de Fidel Castro, despertou em mim uma velha questão: como é que é considerado normal que o PCP, até aos dias de hoje, esteja tão presente e normalizado na política portuguesa? Paulo Raimundo vai a Cuba a convite de um ditador celebrar o centenário de um ditador ainda maior e, no entanto, isto parece passar ao lado da maioria da comunicação social.

E isto é só mais um dos casos em que o PCP apoia regimes ou figuras, no mínimo, duvidosas. O PCP, durante anos, foi financiado pela União Soviética, um regime sanguinário, e nos dias de hoje a deputada Paula Santos diz em plena Assembleia da República “a União Soviética… infelizmente, há muitos anos, terminou.” Jerónimo de Sousa, em 2019, questionado sobre o facto de não conseguir admitir que a Coreia do Norte não é uma democracia, respondeu: “O que é a democracia?” Não sei qual é a dúvida em dizer que um dos países mais autoritários e fechados do mundo não é uma democracia. Em 2024, o PCP saudou Nicolás Maduro pela vitória nas eleições presidenciais, que foram consideradas fraudulentas, tendo uma posição contrária à do próprio Partido Comunista da Venezuela. A isto soma-se a total ausência de solidariedade do PCP para com o povo ucraniano desde o início da guerra: acusa o governo de Kiev de ligações ao nazismo e recusa-se a condenar a Rússia pela invasão. Apesar de, às vezes, partidos apoiarem figuras consideradas polémicas, como a IL com Javier Milei, o PS com Lula da Silva ou o Chega com Jair Bolsonaro e Viktor Orbán, todas estas figuras foram eleitas democraticamente, ao contrário de muitos dos líderes com que o Partido Comunista simpatiza.

Apesar destes casos, muitos toleram e normalizam o PCP, talvez por gratidão pela luta contra o antigo regime, por gostarem da sua ideologia mesmo considerando-a inviável na prática, pelo facto de o PCP ter cada vez menos representação e o seu fim estar destinado, por acharem que neste momento há perigos maiores, ou porque são igualmente não democratas. Para além de ser normalizado, partidos ditos de centro-esquerda moderados estão sempre prontos a coligar-se com o PCP no combate contra o “fascismo” e o “neoliberalismo”. Oiço muita gente da esquerda e até de direita dizer que o Partido Comunista faz falta, ideia com a qual discordo profundamente, pois, além de não precisarmos de partidos alinhados com ditaduras, não encontro muitos casos na Europa onde partidos comunistas ainda estejam presentes na Assembleia ou tenham um impacto significativo no país. Aliás, em muitos países (especialmente do leste europeu), partidos de ideologia comunista são proibidos, pois esses países, de facto, sofreram com o comunismo.

Com isto, não quero dizer que se devia ilegalizar o PCP, pois sou, por princípio, contra a ilegalização de partidos, por considerar que, ao fazê-lo, estamos a acabar com um partido, mas não com as ideias, que surgirão de outras formas. Só espero que os (poucos) votos do PCP acabem em partidos de esquerda mais (ou realmente) democráticos e que consigam defender os direitos dos trabalhadores de formas mais construtivas. O PCP tem direito de existir, mas temos de pensar qual o sentido de termos um partido com tendências totalitárias, agarrado a ideias do século passado e que pouco (ou nada) contribui para o desenvolvimento de Portugal. O PCP não respeita a democracia nos outros países; como é que podemos acreditar que respeita a nossa?