Mas o que são as equações de Navier-Stokes?
Esse problema foi elaborado pelo matemático e engenheiro francês Henri Navier em 1822 e complementado pelos trabalhos do físico e matemático irlandês George Gabriel Stokes, que deu a sua forma definitiva em 1845.Os cálculos dizem respeito ao comportamento de fluidos dentro das leis da física e se baseiam na segunda lei de Newton, que relaciona força, massa e aceleração. As equações tratam o fluido como um meio contínuo, sem acompanhar o movimento de cada molécula.
As equações de Navier-Stokes são, portanto, um conjunto de cálculos que representam a melhor compreensão do movimento dos fluidos quando eles são tratados como uma substância contínua e não como um conjunto de partículas individuais.
Desde então, elas vêm sendo usadas para descrever o movimento de substâncias como água, ar e a fumaça e estão por trás de previsões meteorológicas, projetos de aviões e simulações oceânicas. Em teoria, se conhecermos exatamente o estado de um fluido em um determinado instante, as equações deveriam permitir calcular como ele se comportará nos momentos seguintes.
O problema matemático consiste em determinar se, em três dimensões, um fluido que inicialmente se comporta de forma regular pode chegar a desenvolver uma "singularidade" - isto é, um ponto no qual sua velocidade cresce sem limites em um tempo finito.
Assim, a OpenAI publicou um documento de 165 páginas no qual sustenta que as equações podem, de fato, desenvolver essa singularidade em um tempo finito.
Continua após a publicidadeO que os modelos da OpenAI descobriram?
O que a nova demonstração sugere é que existem contextos específicos nas quais as velocidades previstas pelas equações de Navier-Stokes aumentam indefinidamente, tendendo ao infinito. Nesse cenário, o modelo deixa de ser suficiente e seria necessário recorrer a descrições mais detalhadas do comportamento das partículas individuais do fluido.
Logo, decifrar o enigma não é simplesmente "resolver um problema matemático", mas encontrar uma exceção no movimento previsto pela Navier-Stokes que mostra que as equações não são válidas em todos os cenários. Assim, o modelo deixa de ser suficiente, exigindo descrições mais detalhadas do comportamento do fluido.
Ou seja, a OpenAI parece ter comprovado que as equações podem levar a resultados sem sentido, pelo menos em alguns casos, o que significa que elas não conseguem simular com precisão os fluidos do mundo real em certas circunstâncias.
Como a IA processou essas equações?
A OpenAI afirmou que iniciou o cálculo do enigma no fim de agosto, utilizando um modelo "com capacidades significativamente mais elevadas do que o GPT-6 Astra", último produto de inteligência artificial lançado pela empresa há menos de uma semana.
Continua após a publicidadeNa fase final, segundo o pesquisador da OpenAI Sebastien Bubeck, 10 mil agentes de IA - programas que operam de forma autônoma - estavam trabalhando no problema ao mesmo tempo, trocando mensagens entre si.
De acordo com Mark Chen, diretor de pesquisa da gigante da tecnologia, os custos de computação para o processamento durante esse processo chegaram "claramente a milhões de dólares". Conforme o relato da OpenAI, os agentes chegaram a uma solução no sábado (05/09), cerca de 88 horas após o início do projeto. "É um marco significativo para a pesquisa em IA, e sua promessa para o mundo é que será possível responder a um número ainda maior de nossas questões mais complexas", disse Chen.
A OpenAI afirmou também que não vai exigir o prêmio do Instituto Clay caso a conclusão do problema das equações de Navier-Stokes seja confirmada.
Houve plágio?
Após o anúncio da OpenAI, vários cientistas afirmam que a empresa teria utilizado, para a resolução, pesquisas de outros cientistas que ainda não haviam sido publicadas, as quais ela poderia ter acessado por meio da nuvem e de forma irregular.
A empresa alegou posteriormente que esses indícios estavam relacionados ao trabalho do pesquisador da Anthropic, Levent Alpöge, e do matemático da Universidade de Nova York, Tristan Buckmaster, que haviam avançado no chamado problema do Euler Forçado, também relacionado à dinâmica dos fluidos, mas distinto do problema de Navier-Stokes.
Continua após a publicidadeEm uma declaração publicada junto com seus artigos, Buckmaster disse que a OpenAI só havia se dedicado ao problema depois que sua pesquisa ganhou repercussão, e adotou a mesma abordagem incomum que ele e Alpoge passaram meses desenvolvendo.
Os pesquisadores da OpenAI negaram ter tido qualquer acesso ao trabalho da equipe rival e afirmaram que propuseram dividir o crédito antes de perceberem que Buckmaster e Alpöge não haviam conseguido resolver o problema. "Para deixar claro, não usamos as instruções nem as provas deles para orientar nossos modelos ou direcionar nossos agentes", disse Bubeck.
A OpenAI, no entanto, declarou que não descarta "que os dados anonimizados derivados do uso de nossos produtos tenham contribuído para melhorar nossos modelos".
O problema foi mesmo resolvido?
Já a Sociedade Matemática Americana afirmou que a notícia sobre os avanços na resolução do problema de Navier-Stokes representa "um marco no conhecimento humano".
A entidade publicou nas redes sociais várias postagens destacando a importância da descoberta e citou vários pesquisadores que contribuíram de forma decisiva para o processo, entre eles os espanhóis Diego Córdoba e Luis Martínez Zoroa, além de Alpöge e Buckmaster.
Continua após a publicidade"O problema do milênio está resolvido", afirmou o matemático Diego Córdoba à agência de notícias EFE. "O que fazemos manualmente, a IA faz muito mais rápido; sem o nosso trabalho, sem o nosso método, eles não teriam conseguido provar isso. A IA precisa da nossa ideia, e o que precisamos é de tempo, mas o tempo não é um problema para a inteligência artificial", concluiu o pesquisador espanhol.
