O que saber sobre o rastreio do câncer do colo do útero - 11/08/2026 - Equilíbrio e Saúde - Folha

Os últimos dois anos foram marcantes para o rastreamento do câncer do colo do útero. Surgiram novas opções de exames, e as recomendações mudaram. Os médicos esperam que essas mudanças ajudem a reduzir os casos desse câncer, que continua sendo uma causa persistente de mortes evitáveis.

O câncer do colo do útero pode ser prevenido por meio de exames que detectam células pré-cancerígenas e, melhor ainda, por vacinas contra o papilomavírus humano, ou HPV, responsável pela maioria das alterações celulares.

Ainda assim, a doença causou 7.249 mortes no Brasil em 2025, o equivalente a quase 20 óbitos por dia, segundo o Ministério da Saúde. A doença também deve registrar aumento no número de novos casos: o Inca (Instituto Nacional de Câncer) estima 19,3 mil diagnósticos anuais no triênio 2026-2028, ante 17 mil previstos por ano para 2023-2025.

No mundo, o câncer do colo do útero é responsável por 348 mil óbitos por ano, sendo a quarta causa mais frequente de morte por câncer em mulheres, segundo dados de 2022 da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês).

Barreiras antigas, entre elas as desigualdades no acesso aos serviços de saúde, contribuem para esse cenário, afirma Kathy MacLaughlin, professora associada de medicina de família da Mayo Clinic. Algumas pacientes, incluindo muitas sobreviventes de violência sexual, consideram os exames pélvicos intoleráveis e talvez não saibam que existem alternativas.

Mas fazer o rastreamento não precisa ser doloroso nem confuso.

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Quais são as opções?

O exame padrão para o rastreamento do câncer do colo do útero era o Papanicolau, no qual células são coletadas do colo do útero por raspagem e examinadas em busca de câncer ou alterações pré-cancerosas. Embora as técnicas laboratoriais tenham evoluído, esse mesmo exame, tecnicamente chamado de citologia cervical, ainda é comum.

Ao longo das décadas, porém, os avanços no conhecimento sobre a relação entre o câncer do colo do útero e o HPV abriram uma nova possibilidade. Nem todas as pessoas com HPV desenvolverão câncer, mas quase todas aquelas com câncer do colo do útero tiveram antes uma infecção persistente pelo vírus. Por isso, o teste para HPV pode identificar o risco mais cedo.

Enquanto as amostras para citologia precisam ser coletadas por profissionais de saúde, as amostras para o teste de HPV podem ser coletadas do colo do útero por profissionais ou da vagina pelas próprias pacientes.

No Brasil, o Inca aponta a autocoleta como uma estratégia que pode ampliar o acesso ao rastreamento, especialmente para mulheres que não realizam o exame convencional.

A FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora de medicamentos e alimentos dos Estados Unidos, aprovou instrumentos de autocoleta em 2024 para uso em consultórios médicos e, em 2025, para uso em casa. Estudos constataram que eles têm precisão comparável à dos testes coletados por profissionais.

Qual é a melhor opção?

Todas as pessoas sob risco de desenvolver câncer do colo do útero —mulheres e pessoas transgênero designadas como do sexo feminino ao nascer— devem fazer o rastreamento. A partir dos 30 anos, há amplo consenso de que o teste de HPV é a melhor opção. Ele sinaliza o risco mais cedo, enquanto a citologia pode gerar mais alarmes falsos, afirma Robert Smith, vice-presidente sênior de ciência da detecção precoce do câncer da Sociedade Americana de Câncer (ACS, na sigla em inglês).

No caso de pacientes na faixa dos 20 anos, porém, há controvérsias. Pessoas jovens frequentemente têm infecções transitórias por HPV que desaparecem antes de causar danos. Por isso, nesse grupo, o teste de HPV também pode provocar preocupação desnecessária, afirma Kimberly Gecsi, diretora médica de práticas especializadas da Medical College of Wisconsin.

Gecsi foi coautora das diretrizes mais recentes do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), que recomendam a citologia dos 21 aos 29 anos. A Women’s Preventive Services Initiative (WPSI), cujas diretrizes são respaldadas pelo governo, concorda. A ACS, porém, recomenda o teste de HPV a partir dos 25 anos.

Não se preocupe demais com isso, diz David Chelmow, professor de obstetrícia e ginecologia da Virginia Commonwealth University, que integrou a U.S. Preventive Services Task Force durante a elaboração de suas diretrizes preliminares, em 2024. (Ele não faz mais parte da força-tarefa e afirmou que não fala em nome dela.) As duas abordagens são "incrivelmente eficazes na prevenção do câncer do colo do útero", disse.

Todas as principais diretrizes consideram aceitável a autocoleta. Mas, enquanto a iniciativa voltada à saúde da mulher a considera equivalente à coleta feita por um profissional, o ACOG e a American Cancer Society preferem a coleta por profissionais sempre que possível.

Isso ocorre porque as pacientes com resultado positivo para HPV precisam fazer exames adicionais. Se um profissional tiver coletado uma amostra do colo do útero, ela poderá ser reutilizada. Mas os exames complementares não podem ser realizados em amostras vaginais obtidas por autocoleta, de modo que essas pacientes precisam retornar para que as amostras necessárias sejam coletadas.

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Se as pessoas fizerem a autocoleta, mas não derem seguimento a resultados positivos, "não teremos avançado em nada", afirma Akiva Novetsky, diretor médico de qualidade e segurança do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Westchester Medical Center e coautor das diretrizes do ACOG. Mas, acrescenta Novetsky, a autocoleta com o acompanhamento adequado "é muito superior" à ausência de testes.

As recomendações variam um pouco, mas todas são eficazes. Segundo especialistas, as divergências decorrem de avaliações sobre como ponderar pequenas mudanças no risco em relação aos custos dos alarmes falsos.

O ACOG recomenda citologia a cada três anos dos 21 aos 29 anos e teste de HPV com coleta feita por profissional a cada cinco anos dos 30 aos 65. As pacientes que fizerem autocoleta devem, por enquanto, passar pelo rastreamento a cada três anos, segundo as diretrizes, porque essa modalidade ainda não existe há tempo suficiente para que se saiba se é capaz de prever o risco por cinco anos.

A WPSI recomenda citologia a cada três anos dos 21 aos 29 anos e rastreamento de HPV a cada cinco anos dos 30 aos 65.

A ACS recomenda testes de HPV coletados por profissionais a cada cinco anos, ou testes de HPV por autocoleta a cada três anos, para pacientes dos 25 aos 65 anos. A entidade não recomenda rastreamento antes dos 25 anos porque o câncer do colo do útero é muito raro nesse grupo, especialmente à medida que mais jovens são vacinados contra o HPV.

Essas diretrizes se destinam a pacientes de risco médio e com resultados normais nos exames. Se você tiver risco acima da média de desenvolver câncer do colo do útero ou apresentar resultados anormais, seu médico poderá recomendar exames com maior frequência.

Até que idade devo continuar fazendo o rastreamento?

Todas as principais diretrizes afirmam que não há problema em interromper o rastreamento após os 65 anos se os exames anteriores tiverem apresentado resultados normais. É possível que alterações surjam mais tarde, mas especialistas dizem que o risco é baixo o suficiente para justificar a interrupção.

O ACOG e a WPSI recomendam dois ou três exames normais ao longo dos dez anos anteriores à interrupção, dependendo do tipo de teste, enquanto a ACS prefere resultados negativos para HPV aos 60 e aos 65 anos. Não se preocupe com essas pequenas diferenças; converse com seu médico.

Os exames podem se tornar mais difíceis e desconfortáveis à medida que o tecido vaginal se modifica com a idade. Por isso, Smith recomenda que pacientes e médicos adotem uma postura proativa em relação aos exames nos anos que antecedem os 65.