Tenho pena que o Bruce Willis tenha deixado de fazer filmes. Depois da participação portuguesa no Mundial, tinha oportunidade de brilhar na sequela de “O Sexto Sentido”. Desta vez, o protagonista que não percebe que já não está no mundo dos vivos, apesar de parecer ter interacções normais com pessoas, é um futebolista. O atleta julga que ainda participa no jogo com os antigos colegas, mas é tudo aparente. A única pessoa que fala efectivamente com ele é um jovem chamado Gonçalo, que diz: “Eu vejo falecidos. Aliás, não vejo mais nada, porque há um deles que não me sai da frente. Importas-te de te afastar, por favor?” O filme pode chamar-se “O Sexto Mundial sem Sentido”.
Em sua defesa, há que dizer que Ronaldo não é o único desportista com dificuldade em enfrentar o ocaso da sua longa e gloriosa carreira. Lembrei-me disso enquanto assistia ao documentário da Netflix que acompanha o último ano de Rafael Nadal a competir. O espanhol quer despedir-se condignamente de Roland Garros, o torneio onde mais brilhou. Para o poder fazer em beleza, luta contra a idade, contra as lesões e contra os adversários mais jovens. No fundo, contra a realidade. O declínio é óbvio, o próprio Nadal o reconhece. Mas o seu espírito de campeão leva-o a decidir tentar uma última vez. É muito parecido com o que Ronaldo quis fazer com este Mundial.
Distingue-os um pormenor. Enquanto tenista, Nadal fá-lo sozinho. Se já não consegue manter o nível que o celebrizou e é varrido na primeira ronda, é só ele que perde. Já Ronaldo, como capitão da selecção nacional, arrasta todo um país com ele. Com a agravante de grande parte do país não se opor a participar nesse desastre. Nadal decide por si, Ronaldo decide por 10 milhões. E se alguém questiona: “Será boa ideia?”, então é um ingrato. Egoisticamente, está a pensar só em Portugal e não no Ronaldo.
É comovente ver Nadal de cabeça baixa, derrotado, o último a perceber o que toda a gente já sabia. Deixa de se reconhecer em campo e isso é o fim. É trágico. Já assistir a uma selecção recheada de grandes jogadores a deixar-se afundar por Ronaldo, é cómico. Às tantas, perguntam-lhe se acha que se devia ter retirado depois de ter ganho RG em 2022. “Claro que não”, diz Nadal. “Para mim é muito simples. Estou a explorar os meus limites”. Já Ronaldo, está a explorar os nossos.
Outra característica que partilham é a preocupação com o seu legado. Quando se despedem, os campeões querem certificar-se de que as pessoas se recordarão dos seus feitos. Para se tranquilizar, Nadal diz que o seu recorde de 14 títulos em Roland Garros será muito difícil de bater. Como Ronaldo, quando faz questão de referir que, antes dele, a selecção nunca tinha ganho nada. Mas, lá está, enquanto os títulos do Nadal foram mesmo ganhos só por ele, os de Cristiano tiveram muitos outros vencedores. O ténis não se presta a essa esquizofrenia de “eu trouxe-nos até à final, vocês é que perderam a taça”.
A contabilidade não é assim tão simples. Quando Cristiano diz “Ganhei três títulos por Portugal e, antes de Cristiano, Portugal não tinha ganho qualquer título”, não está a mentir. Mas o que ele quer sugerir, que é ele o principal responsável pelos títulos, não é verdade. Além da constatação óbvia de que o futebol se joga com 11, põe-se em causa a preponderância de Ronaldo mesmo dentro da equipa que ganhou esses títulos. Para um jogador que vive obcecado com os seus números, a análise é fácil de fazer. Como a cartada da gratidão está sempre a saltar para a mesa, calcule-se então o que devemos a Ronaldo, só para se ter uma ideia de até quando vamos ter de pagar a dívida com prestações ridículas em torneios.
Em 2016, Portugal ganha o único grande título (já vamos à Liga das Nações, o Torneio do Guadiana das selecções). Qual a importância de Ronaldo nessa conquista? Bom, para começar, não teve qualquer impacto na final, saindo lesionado ainda na primeira parte. Nesse jogo, destacaram-se Rui Patrício heróico à baliza, Éder com o golo, Nani, Moutinho, Pepe, Raphael Guerreiro, João Mário com grandes exibições. (Que se saiba, não lhes oferecemos a titularidade da selecção actual por gratidão). Mas mesmo nos outros jogos, não podemos dizer que Ronaldo se tenha destacado em relação ao resto: marcou os mesmos 3 golos que Nani, apenas um na fase a eliminar e nenhum deles decisivo numa vitória. Assistiu duas vezes, mas falhou um penálti contra a Áustria, num jogo que acabou empatado a zero. Felizmente, esse golo não fez falta, pois conseguimos a qualificação só com empates. Igual destaque merecem Quaresma (golo decisivo contra a Croácia) e Renato Sanches (golo decisivo contra a Polónia).
Na fase final da Liga das Nações de 2019, Ronaldo faz hat-trick contra a Holanda, nas meias-finais, mas na final fica em branco. Gonçalo Guedes marca o golo decisivo – apesar da gratidão, também não é titular da selecção. O MVP da final é Ruben Dias, o MVP do torneio é Bernardo Silva. Na Liga das Nações de 2025, Ronaldo marca nos dois jogos. Os outros golos são de Francisco Conceição (meias) e de Nuno Mendes (final), considerado o MVP do jogo decisivo e de todo o torneio. No desempate contra a Espanha, Ronaldo já não estava em campo, não foi um dos 5 jogadores que marcaram os penalties decisivos. Portanto, o papel especial que Ronaldo reclama para si nos títulos é abusivo. Houve outros jogadores fundamentais nas vitórias, jogadores a quem é raro atribuir-se o reconhecimento mais que merecido.
Se quisermos analisar as exibições nos torneios que não ganhámos, a diferença entre o que se julga que Ronaldo fez na selecção e a realidade é ainda mais gritante. Tirando 2016, as competições internacionais em que Ronaldo já era o jogador mais importante de Portugal (desde 2008) oscilaram entre a mediania (2012) e a mediocridade (o resto). Nesses torneios, que grandes jogatanas do Ronaldo contra equipas de primeira linha (não é cá o Uzbequistão ou a Coreia do Norte) é que carregaram Portugal aos ombros? Conto quatro. Contra a Espanha no mundial de 2018 (hat-trick no 3-3) e contra a Holanda em 2012 (dois golos na vitória por 2-1), ambos na fase de grupos. Em 2012 contra a República Chega (único golo do jogo) e nas meias-finais de 2016, com golo e assistência contra o País de Gales. De resto, que me lembre, foi brilhante no playoff contra a Suécia em 2013 e safou um jogo na Irlanda com dois golos nos últimos minutos. Fora isso, são dúzias de golos, é certo, mas poucos em momentos verdadeiramente decisivos.
Mesmo a insinuação de que Portugal não era grande coisa antes de aparecer Ronaldo é pouco credível. Se excluirmos a prestação memorável de 1966 (a melhor de sempre em Mundiais), a selecção começou a alcançar resultados dignos de nota em 2000, onde chegou às meias-finais do Europeu. Em 2004, também no Europeu, chegou à final e em 2006 ficou em 4.º lugar no Mundial. Tudo competições em que Ronaldo não participou ou em que não era a figura principal. (Curiosidade: em 2004, Ronaldo começou no banco, mas roubou o lugar a Simão Sabrosa. Ronaldo era um adolescente, Simão era um consagrado. Não consta que Simão tenha amuado, nem que tenha reclamado uma dívida de gratidão para manter a titularidade. Não, aceitou com normalidade que havia alguém melhor para o substituir. O mérito impõe-se ao estatuto. É a natureza do jogo). Nesses campeonatos, Portugal ganhou jogos épicos contra equipas de elite como a Inglaterra (três vezes), a Espanha, a Alemanha ou a Holanda (duas vezes). Perdeu duas meias-finais contra a França, mas sempre a vender cara a derrota.
Ronaldo é um dos melhores jogadores de sempre, mas mais pelo que fez nos clubes do que pelo que pelo que fez na selecção. Por exemplo, foi de facto um dos principais responsáveis por quatro Ligas dos Campeões do Real Madrid. É evidente que o clube lhe está grato. Mas ninguém imagina o Real a oferecer-lhe a titularidade como retribuição.
Claro que, por mais que um jogador seja obcecado pelos números, a sua influência não se vê apenas nos golos que marca. Há quase duas décadas que Ronaldo é o líder da selecção. Nestes anos todos, a sua liderança foi baseada no exemplo em campo, na qualidade futebolística e capacidade de trabalho. Era o que corria mais, o que treinava mais, o que se preparava melhor, o que mostrava mais fome de ganhar. Os companheiros queriam segui-lo e isso fazia-os serem melhores. Só que, agora, Ronaldo já não é esse exemplo. E revelam-se as fragilidades enquanto capitão. Não é um agregador, não é um inspirador. Tem o hábito de recriminar os colegas que falham, não os anima. Barafusta quando não lhe passam a bola. Ou quando passam, mas não da forma como queria. Faz má cara quando é substituído. Exige ser ele a marcar todos os livres (ao ponto de ter sido notícia que deixou Nuno Mendes marcar um – que até foi golo) e parece não se alegrar quando não é ele que marca os golos (no mundial de 2022 tentou tirar um golo ao Bruno Fernandes, dizendo que tinha tocado na bola). É um fenómeno estranho: um capitão que não tem espírito de equipa.
Quando Portugal perde, Ronaldo não se junta ao resto da equipa, afasta-se de toda a gente, para se destacar e para que os outros vão ter consigo e o confortem, como se fosse o único a ter perdido. Ou então vai directo para o balneário. Ainda agora, à chegada do Mundial, não saiu com a equipa para encarar os adeptos que a esperava no aeroporto, pisgou-se logo para o seu jacto privado. Foi a sua única desmarcação bem-sucedida dos últimos tempos. Deixou, sem um comentário público, que a sua família andasse nas redes sociais a dizer mal dos colegas. Aliás, um utilizador do Twitter foi investigar o Instagram dos jogadores da selecção e descobriu que Ronaldo só segue 4 dos seus colegas, apesar de ser seguido pela grande maioria. É uma picuinhice, mas revela bem o tipo de liderança. Ronaldo dá importância às redes sociais, orgulha-se de ser a pessoa com mais seguidores no mundo inteiro, sabe que um like seu tem impacto, mas não é capaz de uma simples demonstração de companheirismo. Ronaldo é capaz de ser o capitão mais fajuto desde o Capitão Roby.
Por isso é que, mais do que continuar a agradecer a Ronaldo, os portugueses têm de lhe pedir desculpa. A culpa foi nossa. Os sinais do narcisismo e megalomania sempre estiveram lá, mas optámos por ignorá-los. Porque dava jeito, o Ronaldo ganhava e a sua personalidade contribuía. Pior que isso, racionalizámos os comportamentos parvinhos. Ronaldo amuou ao ser substituído? “É porque quer muito ganhar”. Não foi ao funeral do Diogo Jota? “Não quis que a cerimónia ficasse centrada nele”. Marcou de tapinha e não foi capaz de ir festejar com quem fez a assistência? “É porque o golo é mesmo o mais importante do jogo, não é a assistência”. Assistiu para o golo e não foi festejar com o marcador? “O marcador é que tem de ir agradecer a assistência, é o mínimo da cortesia!” Pela trigésima vez abanou os braços, demonstrando a frustração pelo erro de um companheiro? “Foram trinta vezes e nem assim aprendem? Gabo a paciência do Ronaldo para jogar com estes cepos”.
Quisemos convencer-nos que eram atitudes normais e desejáveis, quando são apenas grosseiras. Enquanto o rendimento desportivo foi superior, aceitámos. Agora que as exibições são incompetentes, as birrinhas e o mau feitio tornam-se patéticas e intoleráveis. Fomos interesseiros e patrocinámos estas condutas. Amochemos. Até porque tudo indica que Ronaldo não pretende abdicar da selecção. O que é significativo: a maioria dos jogadores vai à selecção porque é convocado, Ronaldo é o único que convoca a selecção.
O documentário de Nadal acaba por ser uma lição útil. Mostra como, embora por vezes seja difícil encarar a realidade, há coisas na vida que temos de aceitar serenamente. Portugueses, ainda que nos custe, temos de aprender com Nadal. Por mais que não queiramos, é inevitável: vamos mesmo ter de continuar a levar com o Ronaldo.