Um ano depois de os Estados Unidos começarem a bombardear embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico, a ofensiva do governo Donald Trump matou ao menos 227 pessoas, porém sem produzir, até agora, sinais claros de redução da oferta de substâncias ilícitas no mercado americano.
Preços de cocaína permanecem em patamares semelhantes aos anteriores aos ataques, as apreensões nas fronteiras não diminuíram e autoridades militares reconhecem que traficantes adaptam rotas e meios de transporte para escapar das forças dos EUA.
Segundo o governo Trump, a estratégia funciona. O Pentágono disse ao Congresso que o movimento de embarcações com drogas caiu 20% no Caribe e 25% no Pacífico Oriental, embora o Comando Sul, área militar dos EUA responsável por América Latina e Caribe, não divulgue métricas de eficácia.
Trump chegou a falar em queda de 98,2% no tráfico marítimo e a dizer que cada barco destruído salva 25 mil vidas, sem apresentar evidências.
Segundo relatório da Wola (Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos), não há, até agora, sinais de escassez de cocaína nos EUA.
Em maio, a droga custava de US$ 60 a US$ 100 o grama em diversas cidades, patamar semelhante ao anterior aos ataques, segundo o pesquisador Nabarun Dasgupta, da Universidade da Carolina do Norte. Já as apreensões da CBP passaram de 25.686 kg nos dez meses anteriores à ofensiva para 26.166 kg nos dez meses seguintes, alta de 2%. O indicador não equivale ao volume que entra no país, mas tampouco aponta para escassez.
Autoridades americanas reconhecem, porém, que traficantes estão adaptando suas rotas. Joseph Humire, alto funcionário do Departamento de Defesa, disse que parte do fluxo se deslocou para leste, pela Venezuela e Guiana em direção ao Suriname.
O general Francis Donovan, chefe do Comando Sul, relatou ainda maior movimentação pelo Pacífico, por tráfego aéreo e com o uso de contêineres. "Sabemos que o inimigo está se adaptando às nossas ações", afirmou.
Em outro depoimento ao Congresso, Donovan disse que os ataques contra embarcações "não são a resposta" nem "a ferramenta mais eficaz" em uma campanha contra o narcotráfico.
Mesmo assim, Washington não dá sinais de que tenha desistido da estratégia. No final de agosto, o Comando Sul voltou a bombardear alvos nas águas da América do Sul após dois meses de trégua —o maior hiato desde que a campanha começou, segundo dados do Acled (Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos, no acrônimo em inglês). Antes disso, a organização havia registrado ao menos um bombardeio por mês.
A pausa ocorreu logo após um órgão de fiscalização do Pentágono abrir uma investigação para apurar se os militares envolvidos nos ataques seguiram as diretrizes dos EUA.
Em dezembro, por exemplo, o Washington Post afirmou que, no primeiro ataque, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, deu uma ordem verbal para "matar todos" a bordo. Antes disso, o site The Intercept já havia revelado que, nesse mesmo caso, sobreviventes foram mortos ao serem atingidos em um segundo bombardeio, embora o direito internacional proteja combatentes feridos mesmo em caso de guerra, o que nem sequer ocorre na América do Sul.
Com essa nova ofensiva, o governo Trump parece sinalizar que vai continuar apostando nessa estratégia agora que conta com um grupo de aliados na região.
A retomada ocorreu em um contexto de ampliação da cooperação regional contra o narcotráfico. Colômbia e Equador autorizaram operações conjuntas com os EUA e integram o Escudo das Américas, aliança liderada por Trump à qual o Peru também deverá aderir.
Lá Fora
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Entre os alvos identificados estão Chad Joseph, 26, e Rishi Samaroo, 41, de uma comunidade pesqueira de Trinidad e Tobago. Segundo a Wola, Joseph trabalhava com pesca e agricultura na Venezuela, e Samaroo, em uma fazenda de leite. Os dois avisaram às companheiras que voltavam para casa antes de morrerem em 14 de outubro de 2025.
A Wola afirma que algumas das pessoas identificadas, aparentemente, não tinham envolvimento conhecido com o narcotráfico, enquanto outras atuavam nos níveis inferiores da cadeia, muitas vezes como tripulantes recrutados em comunidades costeiras pobres. Há também pessoas com envolvimento mais claro com o crime organizado.
"Não sabemos. Isso é parte do problema", afirmou à Folha Wells Dixon, advogado do CCR (Centro para Direitos Constitucionais) ao ser questionado sobre quem são os mortos.
Segundo Dixon, o governo afirma que os alvos são integrantes de cartéis designados como organizações terroristas estrangeiras, mas não apresentou elementos que permitam verificar a acusação na maior parte dos casos.
"Estamos testemunhando o ataque sistemático e a morte de indivíduos cujas identidades não foram estabelecidas, nem a base para o uso de força militar", afirmou.
Joseph e Samaroo também estão no centro de uma tentativa de responsabilizar o governo na Justiça. Familiares dos dois entraram com uma ação contra os EUA, representados, entre outros, pelo CCR e pela ACLU (União Americana das Liberdades Civis).
Dixon, que não atua diretamente no processo, questiona a base jurídica da operação. Segundo ele, designar um cartel como organização terrorista estrangeira não autoriza, por si só, o presidente a empregar força militar contra seus integrantes.
O governo afirma que os EUA estão em conflito armado contra esses grupos, o que permitiria tratá-los como alvos militares em determinadas circunstâncias. Dixon contesta essa interpretação. "Os EUA não estão em guerra contra suspeitos de tráfico de drogas no Caribe ou no Pacífico", disse.
Na interpretação do advogado, as mortes devem ser analisadas sob as normas internacionais de direitos humanos. Dixon classifica os ataques como execuções extrajudiciais e rejeita a descrição deles como crimes de guerra justamente por considerar que não existe um conflito armado. "Não são crimes de guerra, são assassinatos", afirmou.
Antes da campanha, suspeitos em embarcações eram interceptados pela Guarda Costeira e submetidos à Justiça. A Wola afirma que essas operações também permitem recolher informações para chegar aos níveis superiores das organizações criminosas.
Dixon diz que o Congresso ainda poderia tentar restringir a operação, cortando seu financiamento e exigindo os pareceres jurídicos que a justificam, as ordens transmitidas às Forças Armadas e as gravações completas dos ataques.
O advogado também vê antecedentes da política em governos anteriores. Ele cita os "signature strikes", iniciados no fim do governo George W. Bush e ampliados sob Barack Obama, nos quais pessoas não identificadas podiam ser atacadas com base em padrões de comportamento associados ao terrorismo.
Ele ressalva que há diferenças entre as políticas, mas afirma: "Governos anteriores abriram a porta para o que está acontecendo agora, e o presidente Trump passou um caminhão por essa porta".