Visão | Os bárbaros não vêm de fora. Opinião de Marcelo Avelino Copelli

A vitória histórica da extrema-direita alemã na Saxónia-Anhalt reabriu uma questão que já ultrapassa a Alemanha: como travar os extremos sem deixar que a sua linguagem, os seus medos e as suas respostas passem a definir o debate europeu?

Há um poema de Konstantínos Kaváfis em que uma cidade inteira passa o dia à espera dos bárbaros. Tudo está preparado para a sua chegada, porque a ameaça exterior se tornou uma explicação conveniente para aquilo que os habitantes já não conseguem compreender dentro de casa. Ao cair da noite, descobrem que os bárbaros não vieram, e ficam perante o vazio deixado por uma ameaça que também lhes servia para organizar o pensamento.  

A Europa de 2026 vive o paradoxo inverso: os bárbaros deixaram de estar à porta; a força política que os representa entrou pelas urnas, conquistou parlamentos e começou a ditar a agenda de quem continua a governar. 

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A eleição da Saxónia-Anhalt tornou essa realidade impossível de ignorar. A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44,5% dos votos, mais do dobro do resultado de 2021, enquanto a União Democrata-Cristã (CDU), partido de Friedrich Merz, sofreu uma forte queda. A extrema-direita conquistou 39 dos 83 lugares do parlamento regional, a três lugares da maioria absoluta — suficientemente perto do poder para transformar uma eleição regional num acontecimento de dimensão nacional.  

Seria um erro explicá-lo apenas pela situação económica do leste alemão, pelo desgaste do Governo de Friedrich Merz ou pelas tensões em torno da imigração: esses fatores ajudam a compreender o voto, mas não a sua dimensão continental. A Alemanha é apenas o exemplo mais recente de uma transformação que atravessa sociedades europeias muito diferentes entre si e que tem menos a ver com uma conversão ideológica súbita do que com uma crise prolongada de confiança na capacidade dos partidos tradicionais para resolver problemas concretos. 

A extrema-direita soube explorar, antes dos seus adversários, a combinação entre condições materiais e sensação de perda de controlo. A crise da habitação, a inflação, a precariedade e a perceção de que os Estados perderam capacidade para controlar as fronteiras são inquietações reais. O problema começa quando são convertidas numa narrativa que reduz realidades complexas a culpados simples: a imigração explica a insegurança, Bruxelas explica a perda de soberania, as elites explicam a estagnação.  

As democracias tradicionais falham com mais frequência ao tratar esse eleitorado como uma massa irracional; compreender a origem do descontentamento não significa aceitar as soluções de quem dele se apropria, nem recuperar confiança passa por negar que esses medos existem ou por transformar minorias em culpados. Entre negar o descontentamento e imitar quem dele se aproveita, os partidos tradicionais enfrentam uma assimetria difícil de vencer, porque quem governa justifica custos e consequências, enquanto quem protesta pode prometer uma rutura sem nunca provar como funcionará no dia seguinte. 

Essa assimetria ajuda a explicar a resiliência do fenómeno. Segundo a PopuList, que acompanha partidos políticos em 31 países europeus, cerca de 23% dos eleitores do continente votam atualmente em forças de extrema-direita — já não uma margem do sistema, mas uma força suficientemente grande para condicionar o centro político.  

O maior risco não está apenas em a extrema-direita conquistar governos nacionais, mas em os partidos democráticos passarem a governar segundo os termos definidos pelos seus adversários. A extrema-direita pode, portanto, perder eleições sucessivas e, ainda assim, deslocar o eixo político à sua volta. 

A Suécia, a França e a Itália mostram três formas distintas desse deslocamento. Na Suécia, o Governo de centro-direita, apoiado pelos Democratas Suecos, endureceu a política migratória e criou incentivos ao regresso voluntário de certos imigrantes não comunitários; apenas 171 pessoas aderiram em 2026, o que revela a reduzida adesão, mas o que importa é a normalização de uma agenda associada durante anos à direita radical, agora incorporada na política de um Governo tradicional.  

Em França, o Reagrupamento Nacional persegue a aproximação directa ao poder, tentando transformar a antiga imagem de partido de protesto numa alternativa de Governo antes das presidenciais de 2027. Em Itália, Meloni mostrou que uma direita nacional-conservadora pode integrar-se nas instituições mantendo uma relação pragmática com Bruxelas. As estratégias diferem, mas a direita radical já não depende de uma fórmula única: pode confrontar o sistema, entrar nele ou deslocá-lo gradualmente. 

A análise ganha a sua verdadeira dimensão quando sai da lógica eleitoral e entra na geopolítica. A ascensão dos nacionalismos ocorre quando a Europa mais precisa de agir em conjunto: a guerra na Ucrânia, a defesa, a competição com a China, a vulnerabilidade energética e a relação cada vez mais imprevisível com Washington obrigam os Estados europeus a cooperar mais — exatamente o que os nacionalismos tornam mais difícil. 

A Alemanha expõe a contradição com clareza: a AfD defende a aproximação à Rússia e a redução do apoio a Kiev, enquanto Merz apresenta Moscovo como ameaça directa à segurança europeia, numa disputa que Trump alimentou ao celebrar a vitória da AfD, precisamente quando a velha aliança transatlântica está a ser redefinida em termos cada vez mais incertos. 

O continente nunca precisou tanto de unidade e nunca pareceu tão desconfiado das instituições capazes de a produzir. Um estudo do European Council on Foreign Relations, com mais de 5.800 entrevistas, mostra que 73% dos inquiridos defendem uma Europa unida e independente, mas 68% consideram que o continente está em declínio e 74% que não responde adequadamente aos seus principais desafios.  

Estes números desmontam a leitura confortável segundo a qual o crescimento da extrema-direita resulta de uma rejeição da União Europeia: muitos europeus não querem menos Europa, querem uma que funcione — segurança sem dependência, crescimento sem precariedade, controlo das fronteiras sem abandono do Estado de direito. O problema não é o projeto europeu; é a distância entre promessas e resultados. 

Quando a União não transforma essas expectativas em resultados, a promessa de recuperar controlo através do Estado-nação torna-se mais atrativa. O nacionalismo vende simplicidade num mundo estruturalmente complexo, mas essa promessa esconde uma contradição: segurança, energia, defesa, tecnologia, comércio e migrações são precisamente os problemas que nenhum Estado europeu consegue resolver sozinho.  

Por isso o combate à extrema-direita não se fará apenas com cordões sanitários ou condenações morais, necessários, mas insuficientes. A resposta está em as democracias recuperarem a capacidade de governar com resultados visíveis, e de uma Europa que prove, com factos, que a cooperação é a condição decisiva que resta aos Estados europeus para exercer soberania real num mundo dominado por grandes potências. 

A vitória da AfD não prova que a extrema-direita vá conquistar a Europa; a realidade continental é demasiado desigual para essa conclusão linear. O que ela demonstra é mais grave: a extrema-direita já conquistou espaço suficiente para alterar o vocabulário político europeu e obrigar os seus adversários a discutir o futuro nos seus termos.  

Os bárbaros de Kaváfis nunca chegaram, mas a cidade tinha passado tanto tempo à espera deles que já não sabia o que fazer quando percebeu que a ameaça desaparecera. A Europa corre hoje um risco diferente: aceitar como inevitáveis os medos e as respostas que os extremos colocaram no centro do debate enquanto discute como impedi-los de chegar ao poder.  

Se isso acontecer, a maior vitória da extrema-direita não será o dia em que conquistar um governo, mas o dia, bem anterior, em que os seus adversários aceitarem que já não é possível imaginar o futuro fora da linguagem que ela própria impôs. 

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.