Todas as sociedades, sejam ou não seculares, possuem uma teologia. Todas as sociedades adoram alguma coisa; prestam culto a algo e orientam a sua vida em função desse valor. Paul Tillich, um teólogo protestante profundamente influenciado por Agostinho, dizia que tudo o que precisamos de saber sobre uma pessoa ou uma sociedade pode ser deduzido a partir desta pergunta: “O que adoras?”. Para o próprio Agostinho, a desordem política nasce de uma desordem afetiva: da substituição do verdadeiro Deus por falsos deuses, como o progresso, a igualdade ou o poder.
Ora, se todas as sociedades possuem uma teologia e, por consequência, adoram alguma coisa, todas elas possuem também os seus dogmas. No nosso caso, um dos grandes descortinadores dos nossos lugares-comuns é o psicólogo norte-americano Barry Schwartz. No livro O Paradoxo da Escolha, afirma que todos nós, de maneira mais ou menos intensa, acreditamos que o aumento das possibilidades de escolha amplia a liberdade e, consequentemente, o bem-estar.
O próprio discurso público incorporou esta convicção. A política passou, em grande medida, a ser uma instância da economia. Um governo é eficaz se controlar o défice, aumentar o PIB, atrair investimento e abrir o mercado. E fomos acreditando que isso nos garantiria, se não a felicidade, pelo menos as condições suficientes para a alcançar.
Esta deslocação da política para a economia teve, porém, duas consequências. Em primeiro lugar, a política tornou-se progressivamente indecifrável, o que leva muitos a entregá-la nas mãos de peritos, técnicos e académicos. Em segundo lugar, foi sendo privada das suas raízes morais. Como teorizou Alasdair MacIntyre, ao secularizarmos conceitos como «liberdade» ou «consciência», separando-os das conceções de bem, de virtude e de finalidade que lhes davam sentido, estes deixaram de funcionar como fontes de orientação comum e transformaram-se, muitas vezes, em instrumentos de um crescente emotivismo público. A racionalidade foi expulsa do campo da moralidade, e a ética foi reduzida à expressão de sentimentos, preferências ou atitudes subjetivas. Mas, ao deixarem de existir critérios racionais partilhados para discutir aquilo que é bom ou mau, justo ou injusto, os desacordos morais tornam-se cada vez mais insolúveis e, em última instância, arbitrários.
Curiosamente, os dados recolhidos por Barry Schwartz parecem confirmar uma parte deste diagnóstico. Se formos aquilo a que ele chama «maximizadores» — pessoas que procuram sempre encontrar a opção perfeita ou ideal em qualquer decisão — tenderemos a ser mais infelizes. Schwartz conclui que a máxima liberdade não corresponde necessariamente ao máximo bem-estar. Antes pelo contrário.
De facto, é possível defender que é precisamente a persistência deste dogma que produz um dos efeitos mais contrários à vida virtuosa: a epidemia de ansiedade e de descontinuidade pessoal que hoje nos aflige.
Quem anda de transportes públicos vê, ainda que de relance e com um olhar talvez um pouco atrevido, a proliferação de conteúdos violentos e relacionados com a dependência do jogo. O próprio conceito de subscrição, entretanto expandido até ao acesso a conteúdos íntimos, possibilitou novas formas de dependência, de embaraço social e de ciclos viciosos difíceis de quebrar. Mas a lógica subjacente é simples: se temos mais opções, se somos mais livres e se, apesar disso, não conseguimos acertar na vida, a culpa já não pode ser do mundo; só pode ser nossa. Os falhados somos nós.
Talvez seja esse o problema mais profundo. Uma vida não se torna boa por conter o maior número possível de opções, mas por adquirir uma direção. Para escolher verdadeiramente, não basta que nada nos impeça de escolher; é preciso saber em nome de quê escolhemos. A liberdade, desligada de qualquer ideia de bem, acaba por se tornar incapaz de nos orientar: multiplica caminhos, mas não nos diz quais merecem ser percorridos.
E uma sociedade composta por indivíduos condenados a inventar, sozinhos e a cada momento, os critérios segundo os quais devem viver dificilmente poderá oferecer-lhes uma linguagem comum para compreender os seus êxitos, os seus fracassos ou os seus deveres. Sem práticas que nos ensinem a desejar determinados bens, sem vínculos que nos obriguem para lá da preferência momentânea e sem uma história na qual consigamos reconhecer a nossa própria vida como um todo, a escolha deixa de ser um exercício de liberdade e torna-se um modo consentido de escravidão.