Uma criança pode saber o que é uma ação, acompanhar a rentabilidade de um investimento e até comemorar quando sua carteira se valoriza.
Ainda assim, talvez não tenha aprendido a principal lição da educação financeira. Muitos pais acreditam que estão preparando os filhos para o futuro quando abrem uma conta de investimentos em seu nome. A intenção parece nobre, mas começa justamente pela última etapa do processo.
Ter investimentos é a consequência de uma boa educação financeira, não o seu ponto de partida. Antes de decidir onde aplicar o dinheiro, qualquer pessoa precisa aprender a administrá-lo para ter o que investir. Essa é a habilidade que muitos adultos buscam desenvolver e poucos conseguem de forma eficiente, pois não aprenderam.
Antes de existir um investimento, existe uma sequência de escolhas muito mais importante. É preciso ganhar dinheiro, controlar os gastos, estabelecer prioridades, resistir a impulsos de consumo, ou entender se vale financiar uma despesa. Os investimentos apenas potencializam os resultados de quem aprendeu a percorrer estas etapas anteriores com disciplina.
É justamente nesse ponto que a educação financeira infantil costuma ser mal compreendida. Enquanto a criança ainda não produz sua própria renda, ela também não experimenta o principal esforço envolvido na construção de patrimônio: adiar consumo. Quem faz essa escolha continua sendo os pais. São eles que trabalham, escolhem onde gastar, poupam e constroem a reserva que, muitas vezes, aparece na conta da criança, mas que não foi resultado de uma decisão dela.
Por isso, acompanhar a valorização de uma aplicação ensina muito menos do que normalmente imaginamos. Independentemente do resultado do investimento, a escola continuará sendo paga, a alimentação continuará na mesa, a moradia continuará garantida e seu brinquedo desejado continuará surgindo nos dias festivos.
A criança observa a evolução do patrimônio, mas não vivencia as consequências das decisões que tornaram aquele patrimônio possível. Sem essa experiência, ela pode até aprender sobre aplicações financeiras, mas ainda não aprende sobre dinheiro. Portanto, para ela, o investimento se assemelha a um jogo. E esse jogo pode ter consequências negativas.
Morgan Housel argumenta que nossas decisões financeiras são moldadas pelas experiências que vivemos. Isso também vale para as crianças. Se o primeiro contato com investimentos acontece em um momento de queda dos mercados, existe o risco de que elas passem a enxergar investir como uma atividade perigosa, desincentivando esse hábito, quando, na realidade, experimentaram apenas um recorte específico da história.
Educação financeira começa quando a criança entende que os recursos são limitados e que toda escolha envolve uma renúncia. Comprar um brinquedo pode significar adiar outro desejo. Gastar toda a mesada hoje pode impedir um passeio amanhã. Aprender a diferenciar necessidade de vontade, comparar preços, planejar compras e perceber que cada despesa reduz a capacidade de realizar outros objetivos são lições muito mais valiosas do que conhecer o funcionamento de uma ação ou de um fundo de investimento. E a maioria dos adultos tem dificuldade com isso.
Esses ensinamentos podem surgir naturalmente dentro de casa. Eles aparecem quando os pais explicam por que uma compra deve ser adiada, mostram que algumas despesas são prioridade enquanto outras são opcionais, envolvem os filhos no planejamento de uma viagem ou permitem que administrem uma pequena quantia de dinheiro, assumindo as consequências de suas próprias escolhas. É nesse ambiente que a criança desenvolve responsabilidade, autocontrole e capacidade de planejamento, competências que permanecerão com ela por toda a vida.
Por exemplo, perceba como ensinamos errado uma questão básica de valor do dinheiro no tempo. Se você gastou todo seu salário do mês e precisa de recursos antes de terminar o mês, sabe que precisa pegar um empréstimo, e que ele tem custo. Isso significa que perderá parte do poder de compra no próximo mês, pois terá de pagar os juros do empréstimo. Mas se seu filho pede um adiantamento da mesada, pois já gastou tudo, o que você faz?
Isso não significa que os pais não devam investir pensando no futuro dos filhos. Formar uma reserva para a faculdade, para o início da vida profissional ou para outros projetos é uma excelente decisão. O equívoco está em confundir esse planejamento patrimonial com educação financeira. Construir patrimônio para financiar a formação de uma criança é responsabilidade dos pais.
Lembre-se de que administrar investimentos e administrar dinheiro são habilidades diferentes. Os investimentos apenas potencializam boas decisões financeiras. É a administração do dinheiro que ensina a fazer essas boas escolhas. E são elas, repetidas diariamente ao longo de décadas, que constroem um patrimônio sólido. Por isso, antes de ensinar um filho a investir, é muito mais importante ensiná-lo a administrar o próprio dinheiro.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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