“Como podemos colmatar essa lacuna?”. Defensora do bem-estar mental quer ajudar os jovens adultos que recorrem à IA para lidar com problemas de saúde mental...
Quando os adolescentes e jovens adultos de hoje enfrentam dificuldades emocionais, alguns recorrem não só a amigos, familiares e terapeutas, mas também à inteligência artificial.
Em média, um em cada cinco adolescentes e jovens adultos já utilizou chatbots de Inteligência Artificial para obter conselhos ou ajuda quando se sentiam perturbados, nervosos ou ansiosos, de acordo com um novo estudo publicado no início do mês de junho na JAMA Pediatrics.
Os investigadores também descobriram que muitos destes jovens utilizam os chatbots repetidamente e consideram os conselhos úteis, o que sugere que a IA está já a tornar-se parte do ecossistema de informação sobre saúde mental para milhões de jovens. Essas conclusões estão a levantar questões importantes sobre como estas ferramentas devem ser utilizadas e quais são as suas limitações.
Para nos ajudar a esclarecer estas questões, falámos com a Leana Wen, especialista em bem-estar da CNN, médica de urgências e professora clínica associada na Universidade George Washington. Anteriormente, desempenhou funções como comissária de saúde de Baltimore e é mãe de duas crianças pequenas.
CNN: O que é que este novo estudo descobriu sobre o motivo pelo qual tantos jovens estão a recorrer a chatbots de IA à procura de apoio?
Leana Wen: Este estudo inquiriu 1 009 adolescentes e jovens adultos com idades entre os 12 e os 21 anos em todos os Estados Unidos e ponderou os resultados de forma a representar cerca de 43 milhões de jovens em todo o país. Os investigadores perguntaram aos participantes se tinham utilizado chatbots de IA para obter conselhos ou ajuda quando se sentiam tristes, zangados, nervosos ou stressados.
A equipa constatou que 19% afirmaram ter feito isso, o que corresponde a mais de 8 milhões de jovens a nível nacional. Entre os participantes que utilizaram chatbots para apoio emocional, muitos referiram fazê-lo repetidamente, com mais de quatro em cada dez a utilizar chatbots pelo menos uma vez por mês. Curiosamente, os jovens que tinham discutido recentemente a sua saúde mental com um médico eram mais propensos a referir a utilização de chatbots de IA, o que sugere que estas ferramentas estão frequentemente a ser utilizadas em conjunto com fontes tradicionais de apoio.
Quanto à razão pela qual os jovens estão a recorrer aos chatbots, penso que a resposta é evidente. Estas ferramentas estão disponíveis a qualquer hora do dia, respondem instantaneamente, não parecem julgar e podem transmitir uma sensação de privacidade. Para um adolescente que tem vergonha de discutir um problema com um pai, professor ou terapeuta, escrever uma pergunta num chatbot pode parecer mais fácil do que iniciar uma conversa com outra pessoa.
O estudo revelou que a maioria dos utilizadores considerou os conselhos úteis. Isso significa que estes chatbots estão a ajudar?
Não necessariamente. Esta é uma das distinções mais importantes do estudo.
Os investigadores descobriram que mais de 91% dos utilizadores consideraram os conselhos “um pouco” ou “muito” úteis. Isso indica-nos que os jovens, em geral, gostaram das respostas que receberam. Não nos diz, porém, se as respostas melhoraram a sua saúde mental, reduziram os sintomas de depressão ou ansiedade, ou conduziram a melhores resultados a longo prazo.
Esta é uma distinção fundamental, porque os chatbots de IA são frequentemente concebidos para serem envolventes e agradáveis, até mesmo lisonjeiros e bajuladores. Podem fazer com que os utilizadores se sintam ouvidos e valorizados e que queiram voltar para mais “conversa”. Essas qualidades podem criar uma experiência positiva para o utilizador, mas não significam o mesmo que cuidados de saúde mental baseados em evidências.
Consideremos como esta descoberta se aplica a outros aspetos dos cuidados de saúde. Os doentes querem uma interação calorosa e amigável com o seu profissional de saúde, mas o que realmente importa é se o conselho é necessário e se melhora efetivamente os resultados de saúde da pessoa. Não iria a qualquer pessoa para receber cuidados médicos, assim como não deve recorrer simplesmente a uma ferramenta de IA de uso geral para os seus cuidados de saúde mental.
Quais são as maiores preocupações em relação à dependência de chatbots de IA para aconselhamento em saúde mental?
A primeira preocupação é a precisão. Estes sistemas podem ter alucinações e fornecer informações incorretas. Podem interpretar mal o contexto e oferecer conselhos que parecem convincentes, mas que estão errados e podem até ser perigosos. Não substituem o julgamento clínico e, mais importante ainda, não conseguem reconhecer quando alguém pode precisar de intervenção urgente.
Em segundo lugar, os chatbots podem reforçar o que os utilizadores querem ouvir, em vez do que precisam de ouvir. Se um jovem expressar uma crença distorcida, uma estratégia de enfrentamento pouco saudável ou uma ideia potencialmente prejudicial, o chatbot pode validar partes desse raciocínio, em vez de o questionar de forma adequada.
Em terceiro lugar, alguns adolescentes podem adiar a procura de ajuda profissional porque sentem que o chatbot está a fornecer apoio suficiente. No caso de stress ligeiro ou frustrações do dia a dia, optar por esse tipo de ajuda pode não fazer diferença. No entanto, em casos de depressão grave, ansiedade, automutilação ou pensamentos suicidas, um atraso no tratamento é extremamente grave. Tem havido inúmeros casos em que os pais culparam os bots de IA por danos à saúde mental e suicídios dos seus filhos. O facto de os adolescentes não receberem cuidados de saúde mental adequados e atempados pode ter consequências muito reais.
Os investigadores descobriram que a maioria dos jovens não contava a ninguém que estava a utilizar chatbots para este fim. Por que razão isso é significativo?
Esta foi uma das conclusões que mais me chamou a atenção. Quase dois terços dos utilizadores afirmaram que não tinham contado a ninguém que estavam a utilizar chatbots para obter apoio emocional.
Mais uma vez, há razões compreensíveis, como a privacidade. O problema é que os pais, os profissionais de saúde e outros adultos de confiança podem não fazer ideia do quanto a IA está a influenciar a forma como um jovem encara os desafios emocionais. Se um adolescente estiver a receber informações incorretas ou a tornar-se excessivamente dependente de um chatbot, os adultos na sua vida podem nunca vir a saber.
É por isso que considero que os pais e os profissionais de saúde devem começar a questionar sobre a utilização da IA da mesma forma que questionam sobre a utilização das redes sociais. Está a tornar-se uma parte cada vez mais importante da forma como os jovens recolhem informações e procuram apoio.
Existem situações em que os chatbots de IA podem desempenhar um papel positivo no apoio emocional ou na saúde mental?
Possivelmente, sim. Por exemplo, os chatbots de IA podem ajudar algumas pessoas a praticar conversas difíceis, a aprender estratégias básicas de enfrentamento ou a identificar recursos de saúde mental. Podem também reduzir as barreiras para pessoas que hesitam em procurar apoio. Por exemplo, um adolescente que sofre de ansiedade pode utilizar um chatbot para aprender técnicas de relaxamento ou para elaborar perguntas a fazer a um terapeuta.
Algumas ferramentas de IA estão a ser desenvolvidas especificamente para ajudar doentes que já se encontram sob os cuidados de um profissional de saúde mental. Se forem validadas no futuro, poderão tornar-se alternativas melhores aos chatbots de IA genéricos de que dispomos atualmente. No entanto, mais uma vez, o perigo reside no facto de a IA se tornar um substituto das relações humanas e dos cuidados profissionais.
O que podem os pais fazer para apoiar o bem-estar emocional dos seus filhos, agora que a IA está a tornar-se parte da vida quotidiana?
Recomendo abordar a IA da mesma forma que muitas famílias aprenderam a abordar as redes sociais. Compreendam quais as ferramentas que os vossos filhos estão a utilizar. Façam perguntas abertas. Mantenham-se curiosos, em vez de julgadores.
Os pais podem ajudar as crianças a compreender que a IA tem pontos fortes e limitações. Podem interagir com a IA em conjunto e ver como os chatbots podem fornecer sugestões úteis, mas também enfatizar a importância de verificar a informação fornecida e de questionar as respostas. Isso inclui digitar a mesma pergunta em diferentes chatbots. E podem, certamente, enfatizar que a IA é uma ferramenta, não um substituto de um terapeuta ou de um membro da família de confiança.
Também encorajaria os pais a darem o exemplo de um comportamento saudável na procura de ajuda. As crianças devem saber que pedir apoio é um sinal de força, não de fraqueza. Devem compreender que os desafios emocionais são uma parte normal da vida e que existem muitas fontes de ajuda de confiança - humanas - disponíveis, incluindo professores, terapeutas, pediatras e, claro, pais e outros cuidadores.
Qual é o seu conselho para adolescentes e jovens adultos que estão a lidar com stress, ansiedade, tristeza ou outras preocupações relacionadas com a saúde mental?
Se estiver a passar por dificuldades, saiba que não tem de lidar com isso sozinho. Fale com os seus pais ou com outros adultos de confiança. Se os sintomas forem persistentes, interferirem na vida quotidiana ou envolverem pensamentos de automutilação, a ajuda profissional é especialmente importante. Isso significa contactar o seu médico de família ou um profissional de saúde mental licenciado. Se não souber a quem recorrer, ligue para a Linha de Aconselhamento psicológico do Serviço Nacional de Saúde (808 24 24 24), onde será rapidamente encaminhado para um especialista em saúde mental que o poderá ajudar.
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