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“No final das contas, precisamos eleger JD”. Estas foram as palavras de Donald Trump numa reunião fechada com grandes doadores do Partido Republicano. O candidato presidencial é escolhido na convenção partidária, mas Trump obviamente tem um poder quase absoluto para sacramentar quem será o ungido. Se até agora, oscilava entre JD Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio, parece já ter feito a opção.
Por enquanto, Vance é um candidato relativamente fraco, sem apelo para além das fronteiras do Partido Republicano. Muito ou, na verdade, tudo, depende de como será avaliado o governo Trump. No momento, o presidente tem 39,3% de aprovação na média das pesquisas. Um número péssimo. Sem nada sólido que indique uma solução no Irã e a consequente e sustentável queda no preço do petróleo, a tendência é que a aprovação continue caindo – e, com ela, as chances de fazer o sucessor.
Nas condições atuais, JD Vance teria 42,1% dos votos, contra 48,5% para Kamala Harris, a mais provável adversária pelo Partido Democrata. É uma diferença tremenda, que já o deixa em posição de grande desvantagem.
Por que Trump está antecipando o debate sucessório? É possível que a questão cabeluda do Irã esteja influenciando suas decisões. JD Vance é o integrante mais importante do governo que defende o isolacionismo e foi contra a intervenção no Irã. Rubio, além do secretário da Guerra, Pete Hegseth, são partidários de uma nova e mais arrasadora campanha militar.
AMBIÇÕES INTELECTUAIS
Não é, nem de longe, uma questão teórica. A corrente isolacionista é tão forte que pode até provocar um racha na direita, com um novo partido que teria como candidato o superinfluenciador Tucker Carlson. Até um manifesto foi lançado esta semana. O principal argumento dessa turma, com o qual JD Vance no fundo não discorda, é que os Estados Unidos se deixaram arrastar por Israel para uma guerra prejudicial a seus interesses. Os resultados ruins, com o regime iraniano não só sobrevivendo como assumindo uma posição desafiadora, seriam a comprovação dessa tese.
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Se a situação virar e a economia deslanchar, como há muitos sinais de que pode acontecer, Vance terá uma chance razoável de chegar à Casa Branca. Ao contrário das aparências, ele tem estofo intelectual e escreveu dois livros de peso, sendo o primeiro deles, sobre a própria trajetória, de menino pobre criado por uma mãe viciada em drogas, considerado uma eloquente explicação sobre o fenômeno da adesão em massa da população branca menos privilegiada às propostas do trumpismo.
Num governo em que não pega bem parecer cultivar ambições intelectuais, Vance leu o filósofo francês René Girard e estudou a religião católica com mentores agostinianos, culminando com sua conversão. Seu segundo livro trata justamente dessa trajetória. É uma obra “importante, profunda e comovente sobre um dos assuntos mais importantes de qualquer era”, elogiou uma voz significativa do conservadorismo, Douglas Murray, da Spectator.
Mas definitivamente não uma história que possa ser vendida com facilidade numa campanha presidencial em que Vance precisa ter uma imagem convincente e competente, além de falar ao público evangélico. Ele está longe de despertar a paixão visceral, e inexplicável aos olhos dos opositores, de Donald Trump. Entre a oposição democrata, praticamente dominante na mídia, é tratado com hostilidade e desprezo, como se fosse pouco mais que um idiota. Nem sequer o nascimento recente de seu quarto filho, uma notícia no mínimo neutra, conseguiu ultrapassar a barreira de antipatia.
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FÃ DE TOLKIEN
O patrono político de Vance, Peter Thiel, o milionário alemão radicado nos Estados Unidos (ou na Argentina, ele vive mudando), também é considerado uma figura quase exótica, com ideias libertárias demais para fazer sucesso com a maioria da opinião pública.
É o vice-presidente também um libertário? Sua maior influência política é, declaradamente, J. R. R. Tolkien, através da saga O Senhor dos Anéis. Tem isso em comum com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o ultradireitista espanhol Santiago Abascal, do partido Vox.
Tolkien faz sucesso com a direita, mas sua obra, por mais transcendental que seja, teria estofo para subsidiar, em termos éticos e políticos, um presidente dos Estados Unidos? Para que venhamos a saber, Vance terá que fazer sua própria e heroica jornada, enfrentando não as forças malignas de Mordor, mas uma opinião pública em dúvida sobre sua imagem e a intensa oposição da mídia, disposta até a bobagens como propagar que ele pintava os olhos (na verdade, tem cílios tão espessos que parecem maquiados).
Alguém diria isso sobre Aragorn?
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