Custo leva a revistas predatórias, dizem pesquisadores - 02/08/2026 - Ciência - Folha

Os custos para ter um artigo em um periódico e o tempo do processo editorial adotado por elas são motivos apresentados por pesquisadores para recorrerem a revistas predatórias, que priorizam o lucro em detrimento da qualidade. O quadro consta de um trabalho que saiu em abril na Scientometrics.

O estudo também apontou que pesquisadores de instituições federais e municipais publicam mais em revistas predatórias e que cientistas com estágio no exterior evitam tais periódicos.

O trabalho foi liderado pelo professor Fábio Lobato, do Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da USP São Carlos, no interior de São Paulo. A pesquisa baseou-se nas respostas de 1.065 pesquisadores, colhidas entre junho e agosto de 2021.

A ideia para o questionário, segundo o docente, veio após ele próprio publicar em periódicos predatórios. "Fui na lógica de ser uma revista com revisão por pares, e que teve curadoria de colegas pesquisadores. Mas um colaborador de fora do Brasil me alertou que era uma revista predatória."

Em geral, revistas predatórias cobram dos autores um valor menor em comparação aos de periódicos como Nature e Science. Elas também costumam prometer um processo de revisão por pares em poucos dias ou semanas e utilizam estratégias agressivas para "recrutar" papers, como o envio constante de convites por email.

Ao todo, Lobato e seus colaboradores enviaram os questionários a 3.065 cientistas. Mas a análise incluiu apenas aqueles com artigos publicados, chegando à lista de 1.065.

A primeira rodada consistiu em uma análise quantitativa a partir das respostas para 36 perguntas de três grandes blocos, como "quais são as motivações principais dos pesquisadores ao optar por publicar em revistas predatórias", "quais os padrões de conhecimento ou falta de sobre o tema dos cientistas por região" e "qual é a relação entre experiência internacional [como estágios] e o conhecimento sobre revistas predatórias".

Queremos, agora, gerar a análise qualitativa porque tivemos respostas diversas. Essa primeira rodada nos mostrou como a percepção dos pesquisadores sobre revistas predatórias no Brasil ainda é muito incipiente

A pressão para publicar, associada a concursos e financiamentos, mostrou forte associação com publicação em revistas predatórias. "A gente validou uma percepção que já aparecia na literatura, que essa pressão por publicar leva parte dos pesquisadores a optar por esses periódicos. Ela vem acompanhada também de uma falta de suporte da própria comunidade acadêmica nas universidades", afirma Lobato.

A segunda etapa consiste em análise qualitativa, coordenada por Lobato com Solange Rezende (USP) e colegas da Ufopa e Universidade Estadual do Maranhão.

De acordo com o pesquisador, a ideia do levantamento não foi fazer um juízo de valor dos motivos que levam os cientistas a publicarem nesses periódicos, mas sim ampliar o debate para, inclusive, fomentar ações de políticas públicas sobre integridade científica.

"Queremos, agora, gerar a análise qualitativa porque tivemos respostas diversas. Essa primeira rodada nos mostrou como a percepção dos pesquisadores sobre revistas predatórias no Brasil ainda é muito incipiente. Existem respondentes que falaram que só escolhem revistas de acordo com as listas [Qualis], outros que foi porque o orientador mandou. E não teve correlação forte com ser pesquisador de início de carreira, pelo contrário —vimos que até pesquisadores mais experientes também, ou por desconhecimento ou por algum outro motivo, escolhem essas revistas", explica.

A região geográfica não esteve associada com maior propensão a publicar em revistas predatórias. Isso sugere, segundo o pesquisador, que a vulnerabilidade ao fenômeno está disseminada em todo o território nacional.

Para Lobato, que conduz ainda outro estudo com recorte específico para os pesquisadores bolsistas de produtividade (PQ) do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), os resultados (ainda em andamento) sugerem que o fenômeno não se restringe a cientistas em início de carreira. "Nós já conseguimos identificar pesquisadores bastante experientes publicando nessas revistas. O que ainda queremos entender é qual a motivação."